sementes

Havia necessidade
de que cada palavra fosse dita uma só vez
e que seu poder de semente, então,
se plantasse no coração
e germinasse como consolo à saudade
e como abraço sem vontade
ou como sorriso ao fim da tarde.

E no limiar do dia,
antes da neblina e do sono,
antes do adeus, do sem-poesia,
a flor se fechasse pudica, como outono,
aguardando a aurora, o orvalho, o despertar
para falar de novo
ecoar

o consolo
o abraço
o sorriso
a ternura
o colo
o afago
o lento desespero de querer
ser feliz

(scs,31811)

De onde sentado, no ônibus, observo

ônibus

a paisagem no fim da tarde
é de rostos cansados
inóspitos
imensas solidões e
eternas amizades
lista de por-fazer
angustiosa volta ao lar
de ônibus e seus estranhos
ruídos de motores e suspiros
sono encostado no vidro
a longa despedida para tão-breve
placas luzes grafites cores muros gatos náusea
vinda de desabafos à luz miúda
de pequenas imoralidades
o outro ser fingido real na tela do celular
um estranho lá fora – e outro aqui dentro
com a pressa de cerrar portas
sombras frias esgueirando-se nas esquinas
em pés descalços preguiçosos
o copo de esquecer-se

e a criança quer continuar brincando

(foto de Corinne Béguin)

os pássaros

nessa tarde não escrevi
como em outras tardes
e a poesia se foi
com a chuva
na imagem que os olhos piscaram
e mataram
sob o som ao sol
que deixou de ser e calou-a
e o resto de vida
numa pedra, no alto do edifício,
no encontro dos desconhecidos

e não há mais a tarde
sem tempo de ainda dizer os versos
soltos
que esvoaçam e se prendem
aos cabelos, ao papel, ao assobio desafinado
e como pássaros rebeldes e medrosos
não pousam onde deviam
não se deixam capturar

a tarde levou embora
todas as poesias
(talvez fosse uma só
tenra e frágil,
tenra tímida criatura da floresta,
tenra selvagem monstro voraz,
tenra dileta paisagem,
inesquecível amiga…)

(scs, 1311)