Tag Archives: tarde

De onde sentado, no ônibus, observo

ônibus

a paisagem no fim da tarde
é de rostos cansados
inóspitos
imensas solidões e
eternas amizades
lista de por-fazer
angustiosa volta ao lar
de ônibus e seus estranhos
ruídos de motores e suspiros
sono encostado no vidro
a longa despedida para tão-breve
placas luzes grafites cores muros gatos náusea
vinda de desabafos à luz miúda
de pequenas imoralidades
o outro ser fingido real na tela do celular
um estranho lá fora – e outro aqui dentro
com a pressa de cerrar portas
sombras frias esgueirando-se nas esquinas
em pés descalços preguiçosos
o copo de esquecer-se

e a criança quer continuar brincando

(foto de Corinne Béguin)

27 nov 2015

à tarde

não importava,
desde que o momento fosse extinto
e a alegria, imensa

deixava-se ficar olhando
apenas o espanto alegre
imerso em lençóis e lágrimas

poucas, preciosas porém
à tarde, quando chegava
e deixava de ser e se

tornava:

(scs, 26414)

27 abr 2014

como

DSCF3277

chove a tarde
lá fora
como se não quisesse
mesmo tendo tanta tristeza a chorar
em cada nuvem

(scs, 23114)

23 jan 2014

menina

mistério no galho de árvore
que murmura uma canção sem voz
na tarde sem vento
e faz a menina de vestido branco
chorar

17 jan 2014

acenamos-lhe

nós víamos o barco se afastar
e os acenos e os apitos
se misturando se ensurdecendo
a cabeça triste sumia
entre tantas igualmente ou felizes
e terminava a vida
no cair da tarde
– e nunca mais

(scs, 16612)

18 jul 2012

sem título

a tarde flui
como mãos dadas
idosas,
soltas e sem
saudade

(scs, 18512)

26 maio 2012

os pássaros

nessa tarde não escrevi
como em outras tardes
e a poesia se foi
com a chuva
na imagem que os olhos piscaram
e mataram
sob o som ao sol
que deixou de ser e calou-a
e o resto de vida
numa pedra, no alto do edifício,
no encontro dos desconhecidos

e não há mais a tarde
sem tempo de ainda dizer os versos
soltos
que esvoaçam e se prendem
aos cabelos, ao papel, ao assobio desafinado
e como pássaros rebeldes e medrosos
não pousam onde deviam
não se deixam capturar

a tarde levou embora
todas as poesias
(talvez fosse uma só
tenra e frágil,
tenra tímida criatura da floresta,
tenra selvagem monstro voraz,
tenra dileta paisagem,
inesquecível amiga…)

(scs, 1311)

28 jan 2012

tarde chuventa

por chover
o dia se faz
preguiçoso melancólico
úmido
e a vida, então, pára
as memórias fogem
do espelho
e resta apenas
um rosto estirado
na cama
roncando baixinho

(j, 151011)

22 out 2011