paisagem tardia

Sentado na ampla varanda do apartamento
— muito grande, bem mobiliado,
com vista para tantos outros prédios
de apartamentos vastos,
que conseguem abrigar vastas solidões,
grandes famílias de pessoas desconhecidas —
olhava para o céu poluído,
sem pássaros,
arranhado pelo barulho de buzinas e mortes,
de crianças no parquinho de cimento-sem-árvores,
um céu sem nuvens, só fumaça, cinzento,
como a vida nos vastos apartamentos.

Levou a xícara de café frio e amargo aos lábios.
Sentiu gosto de fuligem, da vastidão do frio,
dos lábios que não estavam.

Parou o gesto no ar
sem pássaros, sem paixão.
A xícara tremeu um pouco
e foi descansada na mesinha sem pires.

Não havia mesinha nem pires
para um céu tão triste
e um vasto vazio tão amplo.

Só restava fechar os olhos
e esperar

(scs, 4612)

manhã sem outono

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mantenha os olhos abertos
nas trevas desta manhã
e silencia o grito impensado,
aquieta a cabeça e ouça:

os rumores lá fora dizem que
não há mais esperança ou nuvens,
mentiras renovadas no bairro,
meninas correndo de medo

de um tal homem perverso,
de um bebê abandonado,
de outro dia que ameaça chegar,
o distante badalar da capelinha.

as trevas ainda permanecem
sobre as rugas de teu rosto
tão jovem cansada, tanto tempo,
querem os olhos ver mais (?)

o indefinido suspiro no sótão,
a silhueta no umbral da porta:
os vizinhos? estranhos? viajante?
ou o homem perverso, o tal?

balança a velha cadeira que range
como os pensamentos envilecidos,
como a mandíbula roendo unhas:
tudo inútil, vão, diz o pregador.

conforme-se, então, com o dia sem luz,
de porta entreaberta, sopro de vento
na cortina que esconde aranhas,
na poeira que conta abandono,

sorrindo a alegria só de memória,
tão encardida quanto a saia.
os pés frios, as mãos trêmulas:
não haverá outro dia assim.

(scs, 4912)

as moedas e o luar

um menino só
que nunca viu o luar
é esquecido na praça
e nunca mais o procuram

o menino encontrou
na praça duas moedas
e sonhou ser um rei
com um tesouro que lhe comprava

o luar. naquela noite
a lua surgiu, e as moedas
no bolso abrigadas na mão:
o rei não podia comprar a prata do céu.

o menino só, que agora viu
na praça o luar e as moedas,
sentiu-se amado e sorriu desconfiado
de que teria de acordar.

(livremente inspirado na criança que não é criança e que não está viajando só neste ônibus; sp, 16112)