Tag Archives: segredos

brumas

as brumas
afogam lembranças
brancas sem afago
desabrochadas de dor
loucas

as brumas
repetem canções afônicas
numa gentileza vaga
na manhã invisível
adoentada

as brumas
resistem à verdade
com máscaras dóceis
entalhadas em peles
pálidas

as brumas
desenham no chão
sombras sem alma
de sonhos e sons
abafados

as brumas
escondem seu rosto
sem riso ou tormento
despertado de amor
inconsolado

as brumas
balançam cabelos e saias
silvando ameaças
sem citar nomes
inesquecíveis

as bruams
enfurecem pombos e muros
com seu frio átono
sopro no vento
incolor

as brumas
recusam o abraço
ao desvalido à espera
do ônibus
insensíveis

as brumas
ocultam tantos segredos
remexendo caixas
e mansões
arruinadas

as brumas
entranham-se nas casas
madrugando à lareira
espiando velhas nudezes
imortais

as brumas
convalescem à mesa
repartindo as migalhas
ao cão e à mulher
catatônica

as brumas
impressionam as aves
atarefadas em ninhos
como no outono
moribundo

as brumas
mentem com rouquidão
sua bondade imensa
na faca com sangue
viscoso

as brumas
umedecem a calçada
e maltratam o cão
sem dono e a dona
maquiada

as brumas
calam os sussurros
de prazer e lençóis
esfriam amores
entrecortadas

as brumas
fofocam-se à toa
e não têm pudor
nem remorso
impedernidas

as brumas
arrastam correntes
medrosas e altivas
eis, pois, seu fim:
sol

14 ago 2013

Restaurante II

escrevi todos os meus segredos
– os mais sórdidos
os mais coloridos
os mais antigos
os mais vergonhosos
os mais esquisitos
os mais inebriantes
os mais felizes
os inventados
os que vão acontecer
os esquecidos
os teus
todos –
num guardanapo de papel
e o deixei sobre a mesa
do restaurante

(scs, 17711)

24 jul 2011