de uma real Distância e suas Dores

a Rafa e Tássia

I

de perto
amor
de longe
saudade

no todo
amor
quando partes
saudade

tua voz
amor
teu silêncio
saudade

sempre presente
saudade
sempre presente
amor

quando ausente
– amor
tua presença
saudosa

II

saudade
é uma sombra do amor:
está onde ele está,
mas quando não está;
é ele, mas não é,
mas é

se alimenta
de distâncias
de não-estar
dos acenos
que queríamos
proibidos

III

nos acenos
serenos tristes
com os quais
te vais

vem, assim, a ausência que
nenhum tempo mede
nem cura

amor
meio arte
saudade
meio morte

quando ficas
partes
em tudo
ficas
todo

IV

todas as distâncias
que são sempres
escoam lentas caudalosas
no tempo que se acumulou estático
no virar
de outro dia

e rememorar o aqui naquela ocasião
faz presente os ausentes
em lembrança e sorriso
– como o tempo voa
quando a gente começa
a relembrar

e talvez haja ocultos
fatos ainda não-inventados
desses que vivemos ou amanhã
muitos tantos que só podem ser
o restante da vida e outro tanto

e, ainda assim, o tempo leva muito tempo
pra passar

V

a estrada que se esconde sob a sombra
permanece muda como os risos de ontem

e avança na noite distanciando presenças
mergulhadas no silêncio que emoldura nós dois

vamos repetir a aventura ainda não vivida
de milhões de fotografias risos passos e aromas

repetiremos as convicções aninhadas em histórias
que são, que sempre serão estranhas e belas

e a saudade será sempre
nunca mais

(scs, 1115)

saudade

Aos que são

e brota
uma saudade frondosa
de qualquer
minúscula semente
de distância
lançada ao vento do aceno
molhada naquela lágrima engolida

(scs, 61215)

a modernidade dos tempos

ônibus:
fale com o motorista
apenas o indispensável.

carro do google:
motorista,
você é dispensável.

bom mesmo era ir de mãos dadas
com meu pai
para a escola

ampulheta

precisou, por enquanto, se ausentar,
mas não de coração

repousar uns tumultos sem pressa,
até que a saudade passasse silenciosa

e a maré deixasse a areia intacta
– pegadas já inexistindo desde sempre –

aos poucos, com a calma de ampulheta,
a vida e o anseio ressurgem

sorrindo com cicatrizes, ternuras
e um abraço sem dar, infindo,
a quem permaneceu em mim

(scs, 27414)

de saudades

1.
escondi-me
entre
tantos
pensamentos
sem
cor

2.
sonhei-nos
em
noites
acordadas
de
tédio

3.
as
imagens
fugiam
covardes,
em
silêncio

4.
e
tudo
parecia

parecer
irreal

5.
como
nuvem
desfeita
como
suspiro
envergonhado

6.
arrastam-se
lembranças
brancas
congeladas
de
incertezas

7.
muitas
badaladas
e
nenhuma
presença
ainda

8.
meras
imaginações
desejos
de
que
fossem

9.
e
pouco
resta
de
tanto
despertar

10.
alguém?

a
resposta
sempre
vazia

11.
mas…
talvez
não
fosse…

desejo

12.
um
estar
aqui
como
sempre
estaria

13.
eram
promessas
escritas
na
pele
quente

14.
os
dias
não
passam:

noites

15.
nas
gavetas
poeira
e
bugigangas:
você!

16.
parece
haver
nova
brisa,
um
rumor

17.
linda
(final
de)
tarde
sem
chuva

18.
sussurra
retornos –
coração
estremece
de
angústias

19.
passos
silenciosos
apressam-se
com
malas
vazias

20.
o
abraço
tão
eterno
quanto
ontem

____

(Se você quiser entender a forma poética aldravia e a aldavipeia, clique aqui e aqui.)

sem título

migalhas no chão
de uma saudade salgada
repleta de amanhãs e dores
antes só minhas – engraçada
em muitas tontas dores
nas paredes de então