Linda


– Desvivo precário.

– Ainda a dor? –, perguntei o mais suavemente possível, depois de pensar por uns instantes. O que dizer? Queria de ajudá-lo, mas tinha medo de não compreendê-lo e sua dor, ainda.

Ele ergueu a cabeça, os espessos cabelos brancos ondulados foram ajeitados com a mão. Olhou para mim. Na verdade, não pra mim, em meus olhos, mas pra um lugar além atrás de mim. Não para a mata pertinha da casa, florida, de aromas frescos de primavera que estava se findando, com tantos barulhos miúdos, que pareciam um silêncio. Pralém. Pruma lembrança, uma busca, uma saudade.

Respirou fundo. Parecia dizer que minha pergunta era tola, que não precisava responder, pois eu já sabia a resposta. Não. Respirou fundo pra ter coragem viril de enfrentar a pergunta. Era homem de tantos anos e coragens, mas não fora preparado praquilo. Pra pergunta.

– A vida –, começou na voz baixa e rouca com que sempre falava de si mesmo – é uma semeação. Começa pequena, na semente brotando, sai da terra, se aproveita do sol e da água. Cresce. Vai se crescendo. Viçosa planta. Fruteja. Encanta. Tem cor e cheiro. Alegra. Ao depois – uma pausa longa, os olhos baixam para olhar as mãos grossas e trêmulas – vem a ceifa. E se foi-se a planta. Existiu, mas não mais. Assim é. Com cada e todos.

Respeitei seu silêncio. Esperei.

– Foi num janeiro. A festa era de batizado do neto do Dr. Deocrécio. Festa bonita. Eu tava lá, recenzinho entrado nos vinte ano, asseado, de calça de fatiota, o calçado desacostumado do pé apertava. Mas era beleza e orgulho, no meio dos pessoal da cidade, como se fosse como eles. Tinha vindo os grande cá pro interior de São José dos Ausente. Eu nem não quis beber, pois tinha medo de me escancarar em fiasqueira. Ficava só espiando, as gente alegre, familiar que se reencontravam, abraços e apertos de mão, parecendo mesmo que tudo era coisa feliz, de bom se rever. Eu era só eu, sozinho, sem ser da família de ninguém. Tava só existindo aquele dia no meio da festa, nem bem convidado era. Apenas ali. Não queria perturbar ninguém, não queria atrapalhar o corre-corre, o festejamento de quem era de direito. Assim, mesquivava de todos, comia só umas coisa pequena, bebia um copo dágua. No meu canto. E era, do meu modo, a meu assentado, feliz. Eu achava que já era tanto muito aquilo que a vida me deixava eu viver. Já era quase a minha ceifa. Quase o meu destino finalizado. Uma festa pra ver os otro alegre. Me agradei do pensar assim. E quase já tava me indo, voltando pro meu nadinha, mais inda lá pro interior…

– Então foi que, num valseado, eu vi a moça. Nunca meus olho se deparou com criatura de meu Deus mais linda. Uma perfeição de gente! Uma imaginação ali viva. O vestido era duma branquice que só, um cabelo lisinho, comprido nos ombro, que a brisa mexia. Parecia envergonhada da gentarada. Ficava meio apartada do povaréu, um prato de salgadinho na mão, num recato imenso. O olho preto era lindo e cheio de esperteza e eram tímido também. Comecei a caminhar pro lado dela, sem nem decidir. Fui só indo, achando um chamado praquilo, um vem-aqui no ar, sem palavra.

– Quando viu eu se chegando, pensei que ela fosse correr. Mas me olhou eu e só deu foi um sorriso imenso, de branqueza dos dente branco, da alma branca que ainda mais. Pareceu até que já sabia que eu existia. Sentemo num banquinho meio pra lá, e a conversa corria feito um corguim, cheia de risada, de respeito, de delicadeza. E a gente nem tinha se perguntado o nome. Pra eu, ela era só linda. O tempo não sabia se corria feito passarinho fugido ou se se arrastava com preguiça de fim de tarde. Senti que a gente tinha sempre se conhecido, mas também era tudo uma novidade, de duas pessoa que se descobria…

Ele parou. O barulho na mata também. Um silêncio completo nos cercava. Nada podia competir com a história da dor dele. Esfregou as costas das mãos uma na outra; mania quando alguma coisa lhe apertava o peito, uma lembrança ruim, um dissabor, um vazio. Apertou os olhos, pra relembrar a cena.

– A prosa se discorreu até muito depois da tarde, dos pessoal indo desfazer os festejo, de levar a criançada pra dentro, pro banho de bacia, as empregada limpando tudo e fofocando. Ninguém nem viu nós, linda e eu. A gente só existia um pro outro, nem pra ninguém mais. A Lua tava meio espiando o mundo de dentro dumas pouca nuvem que tinha. E o cabelo preto dela brilhava inda um tanto. E o sorriso era mais branco que a Lua. Mas parecia que nem se havia precisão de muita luz por causa que o olho e o sorriso e a pele clarinha e a alma dela era tudo tão linda que alumiava.

– Nem rimos muito de dizer bobícia. O riso que vinha era de descobrir que eu e ela nós dois pensava igual em muitas arte da vida. Uma grandeza! Do apreço pelas flor amarela, do respeito pelos mais velho, do sonho de morar numa casinha na beirinha dum riacho, da solidão que certas noite traz, em tudo nós era igual.

– Era como se a vida tivesse feito nós dois em duas metade, apartada, mas sendo uma coisa só, com um tanto do todo em cada uma. Você é muito sem experiência de vida e nem não vai entender isso. É coisa do misterioso da existência, uma filosofia. E nós não nos dissemo isso. A gente só sabia, só descortinava, só se reencontrava pela primeira vez no pra sempre. Então, ria um risinho faceiro, desmedido, entoado de feliz. Linda e eu.

– Num momento sem mais, ficamo os dois em silêncio, palavras engolida, nada de dizer. Parecia nem respirar, nem carecer. Vendo nos olhos, bem lá no dentro, se espalhando na alma um do outro, refulgente, amoroso. Eu olhava os olhos pretos mais negros que a sem-luz, mas que eram sossegado, de paz, carinhoso, um afago. E eles me atraía, me chamava eu, minha boca, tudo eu, pra mais perto, mais perto… Toquei o rosto dela de levinho com a ponta do dedo, pele macia, fria pela noite. Ela sorriu bem pequeno, mas tão linda. A boca se abriu um poquinho, me chamando sem som. E nós nos beijamos.

Meu tio silenciou. Havia uma lágrima escapando pelo olho. Um sorriso de lembrança feliz, mesmo com uma tristeza adicionada. Era um alembramento bom. O brilho nos olhos dele dizia isso. Não era de apressá-lo. Ele voltaria no momento certo.

– E nós nos beijamos. Com muita doçura. Ela tinha um frescor de hortelã, um gostinho de… Foi tão delicado, tão cheio de ternura, de paz. Tão linda! Beijo longo que nem sei, mas foi. Nem pensava em nada. Deixei de estar no mundo. Nem vivia mais, só sentia. Respirava ela. Um sumição. Quase ouvia suas palavra falando dentro da minha boca, me contando seu amor, seu sonho comigo, que me queria pra ela pra sempre. O beijo arrancava nós dali, fazia viajar num não-sei-onde, de tanta felicidade, de encher o coração de contentamento, o corpo num descanso aflito, aconchego.

– Foi com um rainho de Sol que o beijo se terminou. Abrimo os olhos, e tava os dois ainda ali, rosto feliz como o quê, brilhoso, um amor que se via, inseparável. Eu peguei na mão dela, sem deixar de olhar fundo na negridão do olho lindo. A mão pequeninha, macia como…, quentinha agora, meio tremendo (era o frio ou o amor), com um anel de pedra miúda. Falei: “Você me queria eu como seu pra sempre?” “Quero, sim”, ela falou de chofre, sem nem pensar, sem piscar, com um sorriso ainda mais grande.

– Então, o padre… Sempre nem lembro bem se era o Enísio ou se era o Jalmiro. Era uns dois muito simpático, velhinho de cabelo branco, mas cheio de vigor, de seriedade com os sagrado e divino… Acho mesmo mais que era o Enísio, que tinha dormido na casa do Dr. Deocrécio, já tinha se levantado, tava por ali. Umas senhora da fazenda, damas de belo porte e carolice. Corremos pra ele. Falamos do nosso amor, do beijo, das estrela que choveram em nós na madrugada, das alma que era tão uma só… O padre entendeu. E sorriu um seu sim de abençoar e sacramentar. Uma mocinha cortou umas florinhas como aquelasli – fez um gesto difícil, apontando com o dedo enrugado e triste flores amarela, branca e lilás num canteiro em frente da casa – e fez uma grinalda muito arranjada e mimosa. A renda grande que usaram em cima do cobertor do nenê batizado se tornou-se o véu, comprido de pureza. Me arranjaram um paletó pra mim, direitinho que ficou no meu tamanho. Uma gravata de seda. Uma água de colônia boa. E ela, linda, como mais ainda tava ficando, enoivada pelas cumadre. Uma alegria no ar.

– Dr. Deocrécio apareceu e se interou-se do ocorrendo e foi logo chamar os músicos: tinha duas rabeca e dois violão, dedilhando bonito, aquela música: lá-lá-lá-láááá… – eu não identifiquei a melodia, na sua voz tremendo e rouca, meio engasgada. Os olhos brilhava, como se ele tivesse vendo ali mesmo a cena do antes.

– Ele aprumou todo o rebuliço, ordenou a criadagem e num tantim a festa tava aparelhada. O bolo com um casal em cima, uns doce, muita flor e contentice. O padre. Os padrinho foi uns três casal dali, primos e parentes, eu acho. Era hora dos voto, das pergunta mais séria dessa vida. O padre Enísio fez um pigarro de gente importante que vai discursar e perguntou: “Você quer receber a Linda como sua esposa, como se fosse um presente do céu, pra cuidar dela com mimo e respeito enquanto seu coração viver?”

– Eu olhei lá dentro do olho dela e disse: “Sim, é o que eu mais quero pra sempre”. Ele falou: “Linda, você que se encantou com ele com a graça da sua alma e debaixo das estrela mais linda, você quer mais ele que qualquer outro no mundo enquanto respirar nessa vida?” Ela baixou os olhos um momentinho e, depois, me olhou com a maior beleza que já vi, com um sorriso tão do grande que quase ofuscou eu, e me disse, uma voz tão forte mesmo sendo meiga: “Eu quero ser só sua pra sempre e o mais.” “Eu vos declaros vocês dois marido e mulher!”

– Ah! A felicicidade! A música, os aplauso, a alegria de todos, inté as criança se abraçava e vinha nos dizer parabéns e tudo de bom. O Sol parecia brincalhão, com uns raio bem em cima da Linda, alumiando as flor da paineira e da grinalda, a beleza, tudo ela, que nunca existiu pessoa mais formosa e perfeita. Eu ria de não acreditar que pudesse um dia ter conhecido ela e casado e chegado a ser o homem mais feliz do havido. E um tanto de presente que ia se avolumando numa mesa: umas roupa bonita de cama, um chapéu daqueles, uns vestido mais estupendo que os outro, uma panela de barro, um tamanco com enfeite, um balaio de verdura, provisão pra mais de mês… Nem sei tudo de quanto que ganhamos. Descobri o tanto que os pessoal nos gostava naquela manhã de nunca mais. Num janeiro. Bem no início.

– E veio a danceira e a comilança. Se alegremo todos, com decência, sem algazarra, das senhora e crianças não ser incomodada nem carecer de conversinha de risinho dos desmodo ou sem pudismo. Foi tudo tão intacto como a beleza de Linda, do nosso amor, do sonho que não se despertava, da música carinhosa…

Um suspiro saudoso, um olhar para mais além, o olho se avermelhando. A dor.

– Numaolhada um pro outro, nós se combinamo de sumir da festa e ir pra nossa casinha, na berinha do riacho, se amar, viver de só nós dois, se alegrar de agora existir numa vida só única. Peguemo umas pôca coisa que ia se precisar e escapulimo. Até que sem pressa, da alegria que era tudo que se fazia junto, de não ter mais lonjura e poder ficar sempre com o outro. O caminho até nossa casa, branquinha, era dum capim baixim, macio, quase um tapete da casa grande. A gente ia deixando as pegada no capim, a estrada pro lugar de ser feliz.

– A casa. O fogo no fogão aquentando tudo. As cortina branca. As fruta cheirosa em cima da mesa. Flor pra todo canto. E nosso quartinho… Eu peguei Linda nos braço, beijei sua boca de hortelã… Nossa cama.

Novo silêncio. O olho agora procura alguma coisa mais longe ainda, no horizonte, num onde que não existe ou que foi um dia. Ele parece que não lembra mais que eu tô aqui. Tá falando com ele mesmo, uma lembrança em voz alta. Eu aguardo. Consigo ver que é a dor. Um longo tempo.

– Nunca ninguém não vai conseguir dizer com as palavra o que foi aquele dia de lua-de-mel. De contentamento tanto o peito parecia que nem ia vencer. O olho piscava pra acordar, mas não era sonho, mesmo que era, o sentido, a presença, o desafogo de alegria. Uma intensidão de amor, espalhado pela casa, na pele, assoprando a alma, o deslumbre de um sentir o outro e o amor. Fica uma marca mais perene que de fogo. Nunca se apaga. Nunca. Nunca…

– Então… aconteceu… o impensado. O desespero. Não podia… Logo, naquele quando? – A voz queria se manter firme enquanto as lágrimas abundantes desciam. O mesmo olhar, agora com toda dor. – Eu acordei de manhã, estonteado de feliz, arrebatado… mas Linda não tava na cama. Achei que tivesse ido preparar o café. Não tava na cozinha. Nem no quintal. Nem lá fora. Gritei. Chamei. Corri. Procurei. Perguntei. Vasculhei as mata, o riacho, andei quilômetros afora, entrei em gruta, em tapera abandonada, em casa dos outro… Nada. Linda… sumiu. Como se nunca tivesse sido.

Era essa a dor. Agora, com a cabeça baixa, com as mão por cima dela, não querendo ouvir o que ele mesmo disse, chorava. Chorava o choro de todos esses ano que Linda se foi.

Esse é meu tio, Deocrécio. Eu chamo pra ele de tio Decinho. Amo muito demais ele, que me cuidou sozinho depois que meu pai, seu Jalmiro Astrúcio, faleceu, picado de cobra, perto do lago de Ausência. Ele que sugeriu a meu pai que meu nome fosse Enísio. Queria que eu fosse sacerdote, como ele nunca pôde de ser. Agora que tá velho e sem sustento, só eu venho visitar ele e ouvir sempre a história de dor da Linda, a mulher linda que nunca existiu.

(Publicada originalmente em 17513; atualizada e republicada em 7421)

A estranha melodia


– Essa mesma! – gritou Gaspar, quase engasgando-se ao tentar rir ao mesmo tempo.
– Pois é – continuou Lúcio, colocando o violão a seu lado, na grama. – A banda tava tocando essa música horrível, e o Gaspar nem viu que tinha esbarrado naquele cara enorme atrás dele, do tamanho de um jogador de futebol americano com uniforme! Eu senti que a coisa ia resultar em morte do magrela aí –, apontando para o franzino amigo –; então, puxei o Gaspar, falei bem alto que a vovó Nardina (nem sei de onde tirei esse nome…) tava preocupada, procurando por ele, que queria se despedir dele antes de morrer…
– Ah! Disso eu lembro! Eu achei que eu tava bêbado, pois não entendi patavina do que aquele estranho tava falando ao mesmo tempo em que ia me puxando pelo braço, com pressa… Até que, longe do assassino do baile, ele me explicou tudo.
– E foi assim que a gente se conheceu! – concluiu Lúcio, abrindo os braços em direção aos amigos.
Surdo, Gaspar e Teco aplaudiram e riram, imaginando a cena.
– Cara, isso faz uns cinco anos, né? Meus pais tinham se mudado há pouco pra Ausência…
– Sabe –, interrompeu Surdo, meio sonolento –, meu pai fico muito bravo quando eu chamo São José dos Ausentes de Ausência ou chamo seus nobres moradores de ausentes. Ele sempre fala, com aquela voz de locutor de rádio antigo dele: “O gentílico correto correta é ausentianos; ou, como preferem os mais tradicionais ainda, são-joseense-ausentianos”.
– Minha avó é a mesma coisa – acrescentou Teco. – Parece uma ofensa pessoal falar de Ausência ou de ausentes. É como se mexesse com alguma coisa… Sei lá… com a alma dela, com a alma do pessoal dessa cidade.
– É uma cidade muito estranha mesmo – concluiu Lúcio, olhando para trás.

Os quatro amigos estavam no Morro da Gruta, acampando. Lá abaixo, estava São José dos Ausentes, cidadezinha com uns dez mil habitantes, espalhada por uma grande área em torno do “centro”: uma única avenida cortava a cidade, no meio da qual havia a Paróquia com o mesmo nome da cidade, numa praça de árvores mal cuidadas. Nessa avenida estava o decrépito cinema, a única agência bancária, o supermercado, a agência do correio, a funerária. Quase ao final, a rodoviária, que não passava de um guichê no fundo de um bar, uma placa na calçada e um ônibus velho ali parado. No final da avenida, o Centro de Tradições Gaúchas, grande orgulho da cidade. Nas ruas laterais, casas, pequenos comércios, empresinhas de fundo de quintal. Espalhando-se para o lado sul da cidade, havia sua região rural, além de áreas verdes no meio das quais, diziam, havia casa de gente muito rica, que vinha se refugiar anonimamente ali para fugir do barulho e do assédio. Diante do lago, que parecia mais um pântano, estava o antigo hotel Jóia da Mata, de mais de cem anos, com seus três andares em um prédio que já havia sido bonito e branco.

Os quatro amigos olharam em silêncio para as luzes dispersas lá embaixo. Talvez estivessem todos pensando: “Como eu vim parar aqui? E por que eu não saio desse fim de mundo?”

Lúcio, Surdo (apelido de Márcio) e Teco (apelido de Luís Roberto) eram filhos, netos e bisnetos de ausentes. Gaspar (apelido de César) havia nascido em Ausência, mas seus pais se mudaram para Porto Alegre quando ele tinha menos de um ano. Quando o pai ficou desempregado, decidiram voltar, pois pelo menos ali tinham uma casa própria, herança deixado pelos avós maternos ao único neto. Os três primeiros conhecem-se desde a infância; Gaspar foi recebido no grupo depois do incidente no Baile da Rainha da Primavera.

– Falando em cidade estranha, vocês perceberam uma coisa estranha? – perguntou Teco, olhando ao redor para se certificar do que ia falar.
– O quê?
– Estamos sozinhos há dois dias aqui no Morro da Gruta. Não apareceu ninguém. Nem os maconheiros de Canela e Gramado que costumam vir pra cá, nem os casais de namorados lá da paróquia que vêm aqui pra fazer coisas abomináveis, como diz o padre Venceslau… Ninguém!
Os quatro giraram em torno de si mesmos, olhando com atenção, como se pudessem estar enganados. De fato, não havia ninguém. Desde o dia anterior, em que haviam chegado cedo pela manhã, ninguém aparecera ali, o que era incomum. O Morro da Gruta era o único ponto turístico da cidade, se é que podia ser chamado assim. Havia uma precária estrutura para acampamento, uma plataforma para salto de asa delta e uma vasta visão, que permitia aos turistas enxergarem grande extensão de matas, montes, rios e toda a cidade.
– Ninguém mesmo! – confirmou Surdo.
– Tudo em Ausência é muito estranho – sentenciou Lúcio. – Mas deixa pra lá. Vamos dormir, pois amanhã temos de descer o morro e voltar à rotina. O dia 5 nos espera cheio de alegria e novidades!
– É… Eu preciso mesmo – disse Teco, levantando-se meio trôpego. – Acho que me excedi um pouco na cerveja.
Teco não costumava se embebedar. Na verdade, nenhum deles bebia, de fato. Uma ou outra cerveja nesses encontros; Teco é que se empolgava um pouco. Mas ele não precisava muito para começar a ficar tonto ou a enrolar a língua. E nunca fazia isso longe dos amigos, que cuidavam para que ele não se metesse em confusão.
Os quatro começaram a organizar tudo o que era possível para, no outro dia, levantarem acampamento bem cedo. Como vieram a pé, tinham trazido o mínimo necessário: uma grande mochila para cada um com tudo de que precisaram. Dois dias à base de atum e miojo não matava ninguém. Guardaram, limparam, banharam-se no chuveiro frio que havia ali no imundo banheiro público (e, como sempre, Lúcio foi o que fez mais alarde: ele era incapaz de tomar banho frio sem gritar…) e montaram as quatro pequenas barracas individuais.
– Antes de dormir, a selfie da última noite! – Lúcio gritou, já preparando o celular e puxando os amigos para si.
– Claro, não podia faltar, né? O rei da selfie! – comentou, com alegre ironia, Surdo.
Lúcio sempre saia bem naquelas fotos. Com seus dentes perfeitos (os amigos zombavam, dizendo que ela tinha uns 60 dentes na boca, tão brancos e uniformes eram) e um sorriso vasto, cheio de alegria, parecia roubar toda a cena na foto com os demais. Mas a contrariedade dos demais era fingida: faziam questão de comemorar e registrar sua amizade.
Feita a foto, compartilhada entre todos (claro que Lúcio saiu com aquele sorrisão enorme de sempre!), foi cada um para sua barraca.

Aquela noite de janeiro estava agradável. Sem calor excessivo, com uma brisa ocasional para refrescar, permitiu a todos dormirem profundamente. Menos Lúcio.
Seu sono foi inquieto, com um longo e único sonho. O sonho não era ruim, mas… estranho. Estranhamente vívido – e era raro Lúcio sonhar. Havia algo… uma busca… um desconhecimento… uma angústia que parecia precisar ser dividida… ao mesmo tempo, um consolo… um afago que parecia tocar diretamente o coração… um frio incômodo que se tornava um terno acalento… e aqueles olhos… os olhos… Havia algo no sonho que Lúcio sabia ser sonho, mas também alguém… alguém que não era sonho, embora ali estivesse. Os olhos…

Surdo, Gaspar e Teco foram despertados quase ao mesmo tempo por uma estranha melodia, cantada por uma voz afinadíssima. A melodia não era exatamente entoada, mas… gemida, talvez. Como se uma dor ou uma angústia se manifestasse em forma de música. Saíram das barracas e, mesmo sem falar, pareciam todos compreender que se perguntavam a mesma coisa: que é isso? A melodia vinha da barraca de Lúcio.
Abrindo o zíper da barraca do amigo com cuidado, viram Lúcio, ainda dormindo, cantarolando a melancólica melodia.
– Como? Essa voz não é dele! – cochichou Gaspar, surpreso.
Lúcio brincava dizendo que este era seu único defeito: não tinha voz afinada. Gostava de cantar, mas tinha consciência de que não conseguia segurar a afinação, cantava com voz meio anasalada, desafinava feio na mudança de notas muito distantes entre si. Mas agora, de seus lábios, de sua garganta, saia aquele… som tão perfeito.
Surdo, sempre muito prático, sacudiu o amigo, enquanto o chamava pelo nome. Lúcio abriu os olhos, mas não parecia estar exatamente acordado. Olhava para os amigos de modo vazio, sem reação, como se não os reconhecesse, embora não se houvesse assustado ao vê-los.
– Lúcio, cê tá bem? Fala com a gente, cara! – sacudia-o com algum vigor Gaspar.
– Ah… Eu tô… bem, sim. Tô bem. Eu… eu… tava… sonhando. Não, não era sonho, mas… era sonho. Eu já… um dia, não lembro bem… encontrei… ela mesma. Mas eu achava… que era a lembrança… só uma lembrança… de um sonho. No sonho… ela disse que era real… um sonho… Uma música… ela cantou a música… pra mim… Que voz linda!… Ela… Azul… Os cabelos bem pretos… assim… cacheados… bem pretos… a estrada sem fim… enquanto cantava… Azul… os olhos… olhos… orientais… tristes… Como ajudar? A música dizia… outros também… eu não conseguia, longe dela… mas eu via os olhos… o vento cantava… a melodia agitava os cabelos… a estrada terminava… não chegava ao fim… como eram pretos, com um brilho de… Lua… Azul… e melodia… ela cantava, era sua… seu pedido… seu… coração… Azul…
As palavras eram ditas no mesmo tom apático, sonolento, intervaladas por silêncios, embora o movimento das mãos e dos olhos indicasse uma forte emoção por trás delas. E Lúcio continuava a falar, quase as mesmas coisas: sonho, melodia, olhos, cabelos, Azul…
Seus amigos se olharam assustados, sem nada compreender.
Surdo, uma vez mais, tomou a iniciativa:
– Vamos levar ele pra tomar um banho frio. Ele deve ter batido com a cabeça, foi picado por algum bicho venenoso… Sei lá! Alguma coisa assim. O banho frio vai ajudar o Lúcio a despertar.
Com algum esforço, os três conseguiram tirar Lúcio da barraca e enfiá-lo debaixo do chuveiro. O choque da água não teve resultado algum. Embora a manhã estivesse fria, Lúcio não parecia sentir a água quase congelada que lhe caía sobre o corpo, bem diferente do jovem da noite anterior e de sempre. Isso foi suficiente para convencer os amigos que algo muito ruim lhe havia convencido.
– Gaspar, liga pro pai do Lúcio; não assusta muito o velho, mas diz que ele precisa vir buscar o filho dele. Teco, você me ajuda a secar o Lúcio e a colocar roupa nele – ordenou Surdo.

* * *

Seu Durvalino teve de se aposentar por conta de um AVC que lhe deixou com um lado do corpo com muitas limitações. Assim, teve de abandonar, pelo menos profissionalmente, aquilo que amava fazer: jardinagem. Todas as casas de luxo de São José dos Ausentes (incluindo algumas daquelas que ninguém via, escondidas nas áreas verdes. Durvalino nunca falava delas.) e das cidades próximas tiveram o jardim elaborado, plantado e cuidado por Durval das Flores, nome pelo qual ficou conhecido. Agora, pode, com muito esforço, cuidar de uns poucos canteiros em frente a sua casa e dar alguma manutenção a dois ou três clientes que fazem questão de seus serviços.
Durvalino casou com 35 anos, pois estava feliz solteiro, entregue à profissão. Até que conheceu Zélia num Baile da Rainha da Primavera. Ela também era apaixonada por plantas. Não tiveram filhos, e Zélia morreu cinco anos depois, vítima de uma estranha doença, que não foi bem diagnosticada, embora no atestado de óbito conste “câncer no pâncreas”. Dr. Noel, médico respeitado da cidade, não parecia muito convencido quando deu essa informação a Durvalino.
Seis anos depois, ele casou de novo, com Eloísa, filha única que acompanhava a idosa mãe que se mudara para a cidade. No segundo ano do casamento deles, nasceu Lúcio. Dona Elô quase morreu no parto. Isso fez com que o casal se apegasse ainda mais ao filho único, filho da velhice do casal. No ano seguinte, Durval sofreu o AVC.

Naquela manhã, ele deixou d. Elô dormir um pouco mais. Eles costumavam levantar-se no mesmo horário, bem cedo, sete dias por semana, fazerem suas orações matinais juntos; depois tomavam café (o pãezinho de banana era presença obrigatória) e saíam para caminhar por uma hora. Apesar das limitações, ambos procuravam manter-se fisicamente ativos. “Queremos partir saudáveis”, é o que explicavam. Mas naquela manhã foi diferente. Durvalino saiu silenciosamente do quarto. Permaneceu silenciosamente na sala. Olhava silenciosamente, mas inquieto, para os lados, como se por alguma parede ou janela lhe viesse uma notícia, uma explicação… Algo parecia lhe avisar que…
– Durval das Flores – disse, como de costume, ao telefone, ao qual atendeu logo que tocou, arrancando-o de seus pensamentos desconexos e aflitos.
– Seu Durvalino, bom dia! Desculpa ligar tão cedo. Ah, aqui é o Gaspar, amigo do Lúcio.
– Aconteceu alguma coisa com meu filho?
– É o seguinte… bem, a gente não sabe direito o que aconteceu com ele. Quando ele foi dormir, tava tudo bem. Mas ele acordou de manhã… muito estranho. Cantando com uma… É… falando de um sonho esquisito com uma música… e uma moça… e ficava repetindo…
– Azul?
– Como… como o sr. sabe? Bem, é, sim, é uma das coisas que ele fica repetindo. Ele tá do mesmo jeito ainda, falando nada com nada. A gente acha que o sr. precisa vir buscar ele.
– Vou agora mesmo ali no ponto de táxi pedir pro seu Rúben ir buscá-lo. Vocês estão no Morro da Gruta, certo?
– Isso mesmo.

Desligou o antigo telefone de baquelite sem nem mesmo se despedir do jovem. “Azul”, ele pensava, enquanto se encaminhava para a porta, colocando o boné que o acompanhava há muitos anos. “De novo…”.

* * *

– Não sei! – explicou Rúben, à pergunta da esposa.
– Meu velho, seu carro tava funcionando direitinho faz pouquinho tempo, né? Você me levou ali na casa da comadre.
– Pois é, minha velha. Não sei o que acontece. Ele não pega. Simplesmente não pega. Nem no tranco. E não tem nenhuma luz estranha acesa no painel! E eu sei que tá tudo em ordem com ele…
Depois de tentar dar a partida mais uma vez, deu um murro no volante e exclamou, desanimado:
– Como é que eu vou trabalhar hoje? O ponto vai ficar sem táxi!

* * *

Tão rapidamente quanto podia, Durvalino chegou ao ponto de táxi, que ficava perto de sua casa. Ali revezavam-se os três motoristas da cidade, conhecidos de todos. Alguns ausentianos diziam que eles trabalhavam no ramo desde o tempo das bigas romanas… Segundo a escala, que todos os cidadãos conheciam de cor, era o primeiro horário do dia, vez de Rúben estar no ponto. Mas seu vistoso carro azul não estava lá. Durvalino não reconheceu o carro branco que estava parado diante do abrigo.
Antes que ele chegasse ao ponto, da surrada poltrona estofada em que os motoristas descansavam levantou-se um homem – parecia saber que Durvalino estava vindo. Era um senhor negro, alto, aparentando uns 60 anos, cabelo acinzentado, bigode branco, de sorriso cortês. Estacionado, um carro branco, muito branco.
– Precisa de táxi, sr. Durvalino? – perguntou, inclinando-se levemente e indicando seu carro.
O homem tinha uma voz muito grave, solene, profunda.
– Desculpe, senhor…
– Luzano, senhor. Chamo-me Luzano.
– Eu achei que fosse horário do Rúben…
– Pois é… No entanto…
– Eu não lembro de ter visto o senhor aqui antes. É sempre o Rúben ou o Pardal ou o Salustiano… E como você sabe meu nome?
– Ah, sim! – Abriu um largo sorriso. – Numa cidade pequena, é difícil a gente não conhecer todo mundo, especialmente os moradores mais antigos.
Olhando fixamente nos olhos de Durvalino, com um sorriso um pouco mais contido, disse:
– Estou aqui para ajudá-lo nessa aflição.
Houve um momento de completo silêncio. Luzano mantinha-se absolutamente na mesma posição, olhando nos olhos de Durvalino que, sem mesmo dar-se conta, disse:
– O senhor sabe… eu tô preocupado com meu filho, Lúcio. Aconteceu… alguma coisa… é… estranha com ele. Eu preciso ir buscá-lo, lá no Morro da Gruta. O senhor… o senhor sabe chegar lá?
– Perfeitamente, sr. Durvalino. Mas permita-me sugerir-lhe que volte para casa e prepare as coisas – dizia enquanto se encaminhava para o assento do motorista no carro –. Seu filho vai precisar de cuidados especiais. E d. Elô pode ficar desnecessariamente preocupada ao descobrir que o senhor não está em casa. Em vinte minutos estou lá; então, no máximo em uma hora eu deixo o menino em sua casa. Não se preocupe.
Terminou de falar já dando partida no carro, que seguiu pela avenida.
Durvalino permaneceu ainda alguns instantes observando o veículo que se afastava, sem compreender o que havia ocorrido ali. Sentia que… sim, que tinha feito a coisa certa. E precisava voltar a fim de preparar a casa para receber o filho. E tinha de achar as palavras certas para explicar tudo para sua amada Eloísa. Ela era uma mãe muito apegada.

* * *

– Carro branco, seu Luzano… Entendi. Deve chegar nuns dez ou quinze minutos. Lúcio vai estar pronto.
Gaspar desligou o celular e avisou os amigos. Todos respiraram aliviados, pois não sabiam mais o que fazer e o que pensar.
Lúcio estava do mesmo jeito. Olhava para o nada, como se não visse ninguém, de vez em quando começava a entoar a melodia do sonho (mas não mais com a voz afinada da manhã), depois repetia aquelas palavras desconexas: sonho, cabelos, olhos, Azul, melodia… entremeadas com o que pareciam ser partes do tal sonho. Mas nada fazia sentido.
Seus amigos já haviam recolhido todas as coisas do acampamento. Sentados em torno de Lúcio, olhavam-se, esperando cada um deles que o outro tivesse uma explicação, uma solução, uma idéia qualquer para aquilo. Já tinham tentado contar piadas, colocar o violão nas mãos de Lúcio para que ele tocasse, estimularam-no a pular, fizeram muitas perguntas. Nenhuma reação. Ele não tinha febre, suas pupilas respondiam à luz, até comeu um pouco do lanche que lhe puseram na boca. Mas estava cada vez mais apático, sem reação. Era como se não estivesse ali.
A espera pelo táxi gerava nelas uma enorme aflição. Não sabiam o que fazer. Não sabiam o que pensar. Tinham a impressão de que a vida do amigo estava por um fio, como se sua apatia fosse engoli-lo. Cada um deles pensava ser culpado daquilo, por uma razão inexplicável qualquer. Lúcio foi quem teve a idéia de acamparem, mas… por que aceitaram?
– Tô vendo muita poeira na estrada do Morro. Um carro tá chegando! – gritou Surdo.
– Finalmente!

Teco, que ainda se sentia um tanto sonolento (ele demorava para se recuperar do exagero na cerveja) ficou um pouco mais para trás, com as mochilas, enquanto Gaspar e Surdo amparavam Lúcio e o levavam em direção ao carro. Por estar com a mente ainda embaralhada, Teco não sabia se estava vendo direito, mas havia alguma coisa estranha no carro. Ele levou alguns instantes para compreender o que era: o carro estava imaculadamente branco. E a parte final da estrada que dá acesso ao Morro da Gruta é sem pavimentação, de terra vermelha. Não chovia há uma semana, o que provocou a grande poeira que Surdo tinha visto. Era impossível para um carro branco passar por ali e manter-se branco.
“Coisa da minha cabeça. Não tô vendo nada direito”, disse para si mesmo, enquanto puxava duas mochilas em cada mão.
Ao aproximar-se do carro, viu que seus amigos se preparavam para colocar Lúcio no banco de trás. E teve uma idéia repentina.
– Caras, vamos tentar só mais uma coisa. Parece bobeira, mas a gente sabe que é uma coisa que mexe com o Lúcio. Uma selfie! – ia falando, enquanto já tirava o celular do bolso e gesticulava para os amigos se ajeitarem. – O senhor também, seu motorista.
Os demais, talvez cansados pelas tentativas infrutíferas anteriores, acharam que não custava tentar aquela sugestão sem pé nem cabeça. Quem sabe?
O resultado, no entanto, foi o mesmo: Lúcio, meio encostado no sr. Luzano, seguro pelos amigos, não mudou em nada seu ar vazio, apático, sem vida.
– Tá, cara. Valeu pela tentativa. Coloca as mochilas no porta-mala… Só cabem três. Eu levo a outra – ordenou o gerencial Surdo. – Teco, entra aí. Você tá meio grogue ainda. Faz companhia pro Lúcio. Eu e o Gaspar vamos a pé. Meu celular tá quase morrendo. Só liga, então, quando chegarem na casa do Lúcio.
– O meu tá do mesmo jeito – acrescentou Gaspar. E, voltando-se ao motorista, que já havia ligado o carro, pediu-lhe:
– Seu… Luzano (é isso, né?), por favor, leve com carinho esse cara aí. Nós gostamos muito dele.
Depois de olhar por um instante diretamente nos olhos de Gaspar, o simpático motorista, sorrindo, disse com sua profundíssima voz:
– Tenha plena certeza, meu jovem, de que ele está em boas mãos. Em muito boas mãos. Até mais.

* * *

– Por que você não foi junto? Como é que você confiou naqueles avoados dos amigos do Lúcio? Você sabe que o apelido de um deles é Surdo? Surdo! Onde já se viu isso? O que significa isso? Surdo? Ele é surdo, por acaso! Ainda por cima, é um desrespeito com quem é surdo de verdade… E quem é esse motorista? Surgiu de onde essa criatura? Você nem sabe o nome dele! Luzano? Isso não é nome de gente, Durval. Vai ver é até inventado! Durval, por que você não foi junto, Durval? Você que é tão atilado pras coisas, Durvalzinho! E meu filho, meu filhinho, meu bebê grande…
Dona Elô caminhava agitada de um lado para o outro da sala, inconsolável. E a falta de resposta do marido a exasperava ainda mais.
– O que houve com você, Durvalzinho? Você nunca foi assim, sem ação! O que houve, Durval? Por que você não foi junto, Durval?
E no íntimo de Durvalino, a única resposta que ele dava para a mesmíssima pergunta que se fazia era: “Não sei. Não sei…”.

* * *

– O que você fez?
– Não sei, minha velha. Não sei. Eu só… sei lá: liguei o carro. A mesma coisa que eu já…
– Tá bom, tá bom. Não interessa. Amanhã você leva essa encrenca lá na oficina do Santana. Agora, corre pro ponto que você já tá bem atrasado. E não esquece que a gente tem de visitar sua mãe hoje à tarde.

* * *

Teco olhou para Lúcio, que não demonstrava nenhuma alteração. Pensou em puxar conversa com o motorista, mas achou que poderia distraí-lo da perigosa estradinha que levava até o centro de Ausência. Além disso, o balanço do carro e o sono o venceram. Dando uma última olhada para Lúcio, para se certificar de que nada havia mudado, dormiu profundamente.
Ainda dormindo, começou a ouvir uma melodia. Aquela melodia. Agora cantada por uma voz feminina. Límpida, suave, cheia de ternura que não escondia tristeza, uma voz que não parecia ser… A mesma melodia estranha.
Teco fez um esforço enorme para abrir os olhos. Não sabia ao certo se já estava acordado ou se tudo não passava de sonho, influenciado por tudo o que Lúcio havia repetido dezenas de vezes. Mas, quando sentiu a mão de Lúcio tocá-lo, despertou repentinamente, olhos arregalados, coração disparado. Lúcio, a seu lado, sorria para ele com aquele seu conhecido sorriso. E apontava para a frente:
– Olha!
No lugar do motorista estava uma mulher. De cabelos muito, muito pretos, cacheados e brilhantes, de olhos orientais. Ela se virou rapidamente para Teco e sorriu.
– Azul –, disse Lúcio.

* * *

– A essa hora, o Lúcio deve estar chegando em casa. Logo o Teco ou o velho liga pra gente avisando. Imagino que seu Durval deve ter chamado o médico lá de confiança deles – comentou Gaspar, conferindo o relógio.
O sol já estava bem forte. Soprada pelo vento, a poeira vermelha da estrada cheia de curvas se apegava ao suor dos dois. Eles não haviam conversado muito até aquele momento. Parece que todas as sugestões e acusações que lhes passaram pela cabeça haviam drenado sua comum disposição para falar.
– O que terá acontecido com nosso amigo?
– Espero que o médico descubra. Que coisa mais estranha, né? E… acho que nem lembrei de contar. Quando liguei pro pai do Lúcio, ele mesmo falou…
– Olha ali! – gritou Surdo! – Não é o Teco? Ali, do lado da estrada, com as mochilas? É ele mesmo!
Enquanto corriam até o amigo, o celular de Gaspar tocou. Era seu Durvalino.
– Como assim ele não chegou ainda? – perguntou Gaspar, sem compreender direito o que ouvia.
Surdo chegou a Teco que, sentado sobre as mochilas, olhava para o celular, com o mesmo olhar vazio de Lúcio. Na tela do celular, a última selfie; nela, Lúcio aparecia sorrindo encostado a uma mulher. De cabelos muito, muito pretos, cacheados e brilhantes, de olhos orientais. Teco balbuciava uma melodia. A estranha melodia.

(scs 2421)

(Foto de Rachel Claire no Pexels)