Tag Archives: poesia

como

DSCF3277

chove a tarde
lá fora
como se não quisesse
mesmo tendo tanta tristeza a chorar
em cada nuvem

(scs, 23114)

23 jan 2014

amor

casaram de papel passado
vestido amassado
terno emprestado
padrinho enciumado
sogro endividado
natal adiado
irmão desconfiado
padre apressado
bolo confeitado
patê salgado
retrato antiquado
suco arrotado
baile agitado
avô desdentado
coração dilacerado
primo desgrenhado
choro encomendado
ridículo filmado

passeio parcelado
vento inesperado
hotel meio acabado
quarto mofado

lençóis manchados
beijos apaixonados
abraços demorados
amor desfrutado
sussurros gritados
risos cortados
corpos emaranhados
demorado, demorado
sono relaxado

dia ensolarado
casal no quarto trancado
o amor, tão sonhado,
no terno amassado,
no lençol amassado,
no beijo manchado,
no abraço inesperado,
no mundo lá fora mofado,
meio acabado,

e o que importava
é que nada mais importava

(s, 27912)

22 jan 2014

sem título

meus lábios
cegam
para as mentiras
que teus olhos
contam

20 jan 2014

um menino e outros

do telhado
um menino sentado vejo outros
meninos sentados em tantos
telhados
das poucas tantas casas do mundo
olhando
o horizonte sem esperança nos sonhos
alegres dos meninos penso
no que vêem do telhado cada um
sob o céu escuro da cidade já dormindo
e triste canto
em voz baixa
com medo de acordar os outros meninos
em distantes telhados cada qual
um rascunho de gente
e já tão gasta e sem sorrisos
o canto some
e fica só a noite derramada sobre
os telhados e os meninos
que vão se apagando aos poucos os tantos
como as estrelas engolidas pelas nuvens
e silenciam
seus sonhos coloridos sobre as casas sem cor
e em cada telhado
repousa só um corpo magro que não canta mais
um menino

(scs, 71213)

18 jan 2014

sono

era tranqüilo o sono embalado de silêncios
no calor tênue daquela manhã sem esperanças

revia tantas lembranças escondidas nas pálpebras
e fazia maior seu desejo de voar sem fim

os sonhos se desfaziam em outros sonhos
tingidos das cores todas de seu coração nômade

acima das nuvens no profundo abismo em ilhas distantes
não era ninguém e era apenas tudo que não via

era feliz o sono enfeitado de sussurros
nos corredores inexistentes de tantos mundos

não queria acordar não sabia mais sofrer
inexistia em tantos/nenhum lugar – vivia

a mão fria o sorriso inerte os olhos
que viam muito mais

fechados

10 jan 2014

:

todo poema
deveria ser
o crime do século

08 jan 2014

cheguei à ilha

I
O pé na água. Fria.
A areia. Caminho. Dois passos apenas. Os primeiros.
O barco já se vai. Muito rápido. Como que
arrependido de ter vindo. Como eu. Talvez.

II
O Sol brilha na espuma muito branca
da onda outra onda outra onda
que chega à praia, molham-me,
ainda na água. Dois passos apenas.
E a água já os apagou. Já não sou. Já não cheguei.

III
À direita, rochas, molhadas e secas,
algas, pequenas piscinas, peixinhos aprisionados.
À esquerda, a areia como sem fim, sem pegadas,
lambida pelo mar
brilhando diamantes sem valor ao Sol.
Coqueiros, árvores, nuvens, mar.
A eternidade se derrama na praia. Cansada.
À frente, a areia branca forma uma sala
de árvores grandes na parede;
no meio delas, uma trilha impassada
sobe um morro lá acima visto,
sombrio, enegrecido de um mistério,
pássaros rapinando o guardam.
Em mim, solidão,
uma mochila vazia às costas,
os pés na água
e o frio e o silêncio só das ondas
e a cor do céu borrado de nuvens
e o barco que já foi
e os passos que já foram.
E eu.

IV
o tempo não existe quando não é medido
quando não sei o que é quando
não há marcas sinais pontuação
só um passar e outro
como as ondas ali
que são as mesmas sendo sempre outras
e as nuvens desaparecem voltam as mesmas-diferentes
a imprecisão dos pensamentos que nunca somem
vão retornam são mudam insanos inlúcidos transparentes avessos
e sei ou talvez só imagine que já é outro(s) dia
pois o sol se foi quando não vi
a luz iluminou o que não vi
nasceu outro dia no dia anterior
e nada é mais o que é hoje
o tempo na ilha é a própria ilha

V
O pássaro ferido na areia branca
manchou a areia com seu sangue vermelho
a onda verdazul lavou a areia
e levou o pássaro
que não sabia nadar.
De ferido não sabia voar.
O mar não perdoa e a areia não tem memória.

VI
Caminho sem extensão pela areia à esquerda,
longe da sala-de-árvores.
Há um temor estranho por me afastar
pela primeira vez
(mas não sei o tempo nem o ontem)
do ninho seguro, o recanto,
o onde sou-na-ilha.
Caminho.
Cada passo já não é — os deixo
onde as ondas possam carregá-los,
feridos como o pássaro,
não sabem voar nem nadar.
Afogam-se e já são apenas outrora.
Desfaço-me em cada passo de meu passado,
aquele que não tenho,
que ainda vou viver, mas não o quis,
na estranha certeza de que há mais de outra em mim
e de que não nos encontramos ainda.
Talvez eu esteja caminhando até ela,
mas tenho medo de prosseguir.
Aqui, entre céu, palmeiras e água,
ondas mais bravias,
desisto da loucura,
corro corro corro
de volta ao escondido.
Segura, enfim.

VII
O mar devolveu o pássaro
morto
à praia.
Apodrecido.

VIII
A noite está escura. A Lua foi devorada por nuvens escuras.
O mundo todo desapareceu.
Não quis acender a fogueira. Quero a inexistência do que não posso ver
oculto pela escuridão.
O mar está silencioso, como se não.
As árvores não sussurram seu raspar de folhas.
Nenhum dos animais, nem a fera, ruge, pia, chora, gargalha.
A noite está escura.
Meus olhos se fecham. E tudo brilha.

IX
Não é solidão eu estar aqui sem mais ninguém
no imenso mar a minha frente
a meu redor
a única no imenso mar
sem ondas transparente morno silencioso.
Sou sua única mancha, uma nódoa flutuante,
como foi antes o pássaro morto,
mas estou viva. Penso.

X
Minhas pegadas nas areias saem de mim
e voltam para mim. Eu me trago a mim mesma
todos os dias, para me apresentar,
tentar ser minha amiga — ainda que não confie
não me sinta à vontade. É estranho
alguém tão estranho, solitária morna silenciosa
opaca.
Não me conheço os olhos, não me encara,
como se tivesse medo de mim, de eu a transparecer,
de sondar-lhe o mistério de ser quem é
ou de ter sido.
Sentamo-nos as duas, lado a lado, ao crepitar da fogueira,
em cúmplice e desconfortável silêncio. Como um estrondo.
A fogueira morre. Ainda estamos aqui. Só eu.

XI
sonhei de novo que eu estava num deserto
vasto azulado
rasgado por um fio dágua
e que a água ia se transformando em leite ou sangue
e meus pés se banhavam nela doloridos
o rio me tingia com sua cor eram cores
e ia me transformando em um pássaro imenso assustado
frágil como um suspiro de saudade com sua dor
e o mar chegava até meus joelhos gélido
o pássaro morto na areia a água levava
e ele sumindo sendo feito parte da água
no deserto
acordo. de novo

XII
Escutei uma música no ar. Acompanhada de perfumes. Tudo sibilante
rompendo a manhã,
fazendo-me uma estranha companhia. Uma invasão, uma avalanche,
um chamado. Um brado.
Não sei de onde vem. Está por toda parte,
na minha pele, molhada do mar,
luzindo como uns pequenos olhos curiosos,
sondando-me, ecoando dentro de mim,
revirando uns quartos escuros, lembranças do que nunca fiz,
mais notas, mais aromas.
A música me envolve, tomando forma,
soprando uma voz que não era minha, mas saía de outra eu,
acusando-me de ter fugido,
batendo em meu rosto com raiva,
um compasso firme, marcial, de marcha para o cadafalso,
o aroma queimado, flores pisoteadas pelo
caminho. Caminho.
Fujo. Quero correr para um não-lugar,
um distante de mim, ausente de eu ser,
mas a música segue, altitrovejante,
grudada em minhas carnes,
se enroscando em minhas pernas, me derruba
e a onda molha meu rosto, algas no meu cabelo,
a música vindo em ondas, e também nas outras,
e o perfume, agora de uma doce acidez,
revira minhas entrahas, arde,
queima a mão debaixo dágua,
arranca um grito com sangue:
– Eu fui! Eu era, mas não escolhi! Eu fui ela!
E a música cessou. O perfume morreu. As ondas se foram. O tempo
voltou a estagnar. Meu coração
sentia a extravagância da paz de novo.
Finalmente, eu.

I
O pé na areia. Fria.
A água. Caminho. Dois passos apenas. Os últimos.
O barco já se vai. Muito rápido. Como que
arrependido de ter partido. Como eu. Talvez.

(scs, 1313)

30 dez 2013

memória, eu

memórias do que não sei,
memórias do que não sou,
memórias do que ainda verei,
memórias do que me enlutou,
memórias do que eu não seria,
memórias do que ainda serei,
memórias do que naquele dia,
memórias do que magoarei,
memórias do que amanhã será,
memórias, e eu não sou.

(scs, 4512)

28 dez 2013

sem título

à Shan

não, eu voltei
de tanto ver-te
fascinado

e agora continuar
envolvido em deliciar-me
apaixonado

não, eu fugirei
pra ti mesma toda
aprisionado

(scs, 25813)

07 dez 2013

sem título

mentirosas memórias
me visitam
alarmadas
folhas enganadas
pelo vento

uma pintura borrada
com tintas inconstantes
do passado que nunca esteve lá
e a melodia muda de ecos
entoa a canção que nunca cantei
do amor que nunca deixei
do rumo que sempre temi

mas são apenas névoa densa
das memórias inventadas
pelas memórias que não tenho

(scs, 8813)

07 dez 2013