Tag Archives: poesia

sem título

à noite
sou aquele perfume
e te espero, saudoso
temeroso como das outras vezes
e há vozes
dizendo que não vale a pena que tudo é só um nada
mas não ouço nem me deito
mantenho a espera à meia-luz
e teu calor, enfim

(Scs, 11214)

02 maio 2014

sem título

um sobressalto: a menina com cara de pijama
recortada à vida sensata – no mesmo instante
em que o suspiro se esvai sem sons
rouba-lhe lágrimas –
e se deixa cair
plenamente feliz

(scs, 11314)

02 maio 2014

nós dois

à Janisse Ramos Nunes

eu Halley
você constante
eu salto
você rocha
eu cartilha
você viajante

eu instante
você Big Ben
eu pena
você anzol
eu hiato
você também

eu encruzilhada
você conexão
eu tinteiro
você laser
eu abraço
você imersão

eu insípido
você curry
eu improviso
você sinfonia
eu minúcias
você pot-pourri

eu planície
você distorção
eu sotaque
você orvalho
eu aceno
você consumação

eu memórias
você inscrições
eu espanto
você castelo
eu desespero
você, meu amparo

(scs, 12414)

27 abr 2014

ampulheta

precisou, por enquanto, se ausentar,
mas não de coração

repousar uns tumultos sem pressa,
até que a saudade passasse silenciosa

e a maré deixasse a areia intacta
– pegadas já inexistindo desde sempre –

aos poucos, com a calma de ampulheta,
a vida e o anseio ressurgem

sorrindo com cicatrizes, ternuras
e um abraço sem dar, infindo,
a quem permaneceu em mim

(scs, 27414)

27 abr 2014

à tarde

não importava,
desde que o momento fosse extinto
e a alegria, imensa

deixava-se ficar olhando
apenas o espanto alegre
imerso em lençóis e lágrimas

poucas, preciosas porém
à tarde, quando chegava
e deixava de ser e se

tornava:

(scs, 26414)

27 abr 2014

finda

dormi com frio: estou viva
era sábado, não me lembro
mas sei, insensata, o aroma
entretecido com cabelos

rasguei as fotografias
o papel de presente amarelou
– nem mesmo o gesto de ciúme
livrou a angústia de tanta paz

outra manhã, e esta cinza
sim, o abraço, mas quando!
atenta, a gota última caindo
minha vasta ânsia por voar

sob a neblina, pensamentos diminutos
rasgados à ousada inércia
e, meteoro, o fim da vontade
deixo-me inerte, saudosa e finda

(scs, 14414)

15 abr 2014

tardia

pois ela tinha esquecido a sombrinha
e aquele sorriso tão meigo escondia uma fúria
mas não teve medo: a chuva fria
eram aqueles olhos mentirosos musgos inauditos, gotas
não houve um convite, nem por isso se importou com a calçada molhada
enfrentava um receio sem perceber fluindo pelos nervos
olhava de alto a baixo decidida – os pássaros já haviam emudecido
a cena era melancólica, de tons misteriosos acovardados
remexeu na bolsa e a foto estava lá e não
se reconhecia
a chuva havia passado
não o sorriso

(scs, 17214)

14 abr 2014

Café,

Contudo, o homem nem sorriu.
Perto da janela, o vapor do café forte embaçava o vidro.
O chapéu cinza esquecido lembrava a espera. Mais um pouco. Cadeiras arrastadas.
Chovia? Ou as nuvens ignoravam aquela? De outra cor…
Nem era preciso pedir a música, a nova, outra dose, guardanapo.
Não havia motivos para. As manchas no vidro eram insensatas, nomes,
marcas de dedos, pele arranhada. Sem açúcar. Já: frio.
Sobre a mesa, anacrônico, um jeito estúpido de insistir. 15h37. Inquietudes.
Uma melancolia que descia, zombeteira, surda ao coração. Ninguém à vista,
próximo quarteirão, na praça, um tom desencantado, a antiga árvore: o assobio inventava
sua música, perdendo-se nos ares. Rabiscos e marca de batom.

Contudo, o homem nem sorriu.

(scs, 10414)

11 abr 2014

as roupas e as memórias

Ele – o transitório – só se diga, por esse enquanto.
(João Guimarães Rosa)

em todos os armários espreitam
despedidas recentes em velhos álbuns
de cegas fotografias mentirosas

os vestidos acompanhavam o passado
venerando o assombro entre os olhos
– as mesmas pálpebras adormecidas de amor

anoitecida a memória: um terno cinza-mágoa
então, flores murchas, pele desbotada
marcas tão antigas na neve e no alpendre

galantes sapatos já não caminham, seguem
– almejaram o fim, a colheita, a fuga –
covardes no silêncio da esperança morta

todas as rugas na camisa puída
sem perfume ou marcas de sangue no bolso
insistem em ser nada e ódio solene

lenço jogado a um canto sem sono
devolve as lágrimas e o anel
arrependido que se findou

a gravata daquela noite inseparável
amordaça uns tímidos desatinos
com cheiro de mofo precoce

assim, todas as lembranças descartadas aguardam
em trajes de gala
o dia de acontecerem

(scs, 3414)

05 abr 2014

única

à Shan

eu poderia te beijar
pela primeira vez
por mil noites

03 fev 2014

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