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A carta (Marina Tsvetáieva)

Marina Tsvetáieva

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera – a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro – uma palavra
Apenas. Isto é tudo.
Assim não se espera o bem.
Assim se espera – o fim:
Salva de soldados,
No peito – três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.
Felicidade? E a idade?
A flor – floriu.
Quadrado do pátio:
Bocas de fuzil.
(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.
Quadrado da carta.

(Tradução de Augusto de Campos)

(Fonte)

25 jul 2014

em pó

era madrugada
de um sabor sem esperança nem remorsos
eu, linda, olhava pela janela esperando
teu aviso que nunca vinha

ainda

uma tensa calma
se agitava nos meus cabelos, translúcida,
nas veias e antevendo aquele tempo
que eram memórias e sonhos

insones

convulsionada em ardor
escondi o rosto do vento surdo
recusei meu nome e te quis solto,
inquieto borrão de saudade

amarga

a cortina escura
encobriu o nada que eu via,
linda, o canto roubado dos lábios
e desfiz-me em pó e em solidão

contigo

(scs, 11514)

12 maio 2014

sem título

à noite
sou aquele perfume
e te espero, saudoso
temeroso como das outras vezes
e há vozes
dizendo que não vale a pena que tudo é só um nada
mas não ouço nem me deito
mantenho a espera à meia-luz
e teu calor, enfim

(Scs, 11214)

02 maio 2014

so (eu
aqui
na janela)
l (um pouco
de luz
tímido
e
sombras)
idão (espera)

27 jul 2013

ainda a espera

a música não fez companhia
à voz rouca de silenciar

a luz pela janela mal escondida
encontrou mãos abandonadas

nenhum ruído amparava o sussurro
não-dito, envolto em tola esperança

os cabelos calados de movimento
eram um pedido ansioso na solidão

do mundo-seu desamparado em dor,
brancas paredes de más notícias

onde, no corredor? atrás de portas?
almas bondosas, mas frias, outras

transitam, apenas, fazem, dizem, somente,
e nada acalenta, afaga, ergue

a espera, então,
ainda a espera.

(scs, 19713)

18 jul 2013

dois

parada na calçaDa
o último ônibus nãO chega
mas, ainda assim, ri baixinho,
– cobre o Rosto com o lenço de seda,
presente que não queria Devolver: a lembrança
semprE havia mais uma noite
e a mesma espera, agora infeliz –,
pois não queria voltar ter de voltar
porém, tinhA de.
por isso, talvez, ria sem pensar no
descarinho de não se sentir Melhor
(seria possível um dia ser outra vez?
como o ontem, o domingo que passou tão rápido,
abandonado de marcas e Abraço?)
o ônibus chegou. atRasado. mas ele veio.

(scs, 3613)

06 jul 2013

flor

e como não seria
num instante o brilho da flor
tênue, envolta em calmaria,
no clamor surdo por outro amor?

07 jan 2012