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Publicação

Meu conto Naquela tarde, em que encontrei Mykaela Wondracek foi publicado na Revista Jangada, edição 1, vinculada aos cursos de extensão em escrita criativa do Departamento de Letras da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Mais sobre a revista aqui. E meu conto está aqui.

🙂

Obs.: Não sei porque, mas não consigo abrir a revista no Firefox/Waterfox. Só consegui no Chrome.

24 jun 2013

Linda

– Desvivo precário.

– Ainda a dor? –, perguntei o mais suavemente possível, depois de pensar por uns instantes. O que dizer? Queria de ajudá-lo, mas tinha medo de não compreendê-lo e sua dor, ainda.

Ele ergueu a cabeça, os espessos cabelos brancos ondulados foram ajeitados com a mão. Olhou para mim. Na verdade, não pra mim, em meus olhos, mas pra um lugar além atrás de mim. Não para a mata pertinha da casa, florida, de aromas frescos de primavera que estava se findando, com tantos barulhos miúdos, que pareciam um silêncio. Pralém. Pruma lembrança, uma busca, uma saudade.

Respirou fundo. Parecia dizer que minha pergunta era tola, que não precisava responder, pois eu já sabia a resposta. Não. Respirou fundo pra ter coragem viril de enfrentar a pergunta. Era homem de tantos anos e coragens, mas não fora preparado para aquilo. Para a pergunta.

– A vida –, começou na voz baixa e rouca com que sempre falava de si mesmo – é uma semeação. Começa pequena, na semente brotando, sai da terra, se aproveita do sol e da água. Cresce. Vai se crescendo. Viçosa planta. Fruteja. Encanta. Tem cor e cheiro. Alegra. Ao depois – uma pausa longa, os olhos baixam para olhar as mãos grossas e trêmulas – vem a ceifa. E se foi-se a planta. Existiu, mas não mais. Assim é. Com cada e todos.

Respeitei seu silêncio. Esperei.

– Foi num janeiro. A festa era de batizado do neto do Dr. Deocrécio. Festa bonita. Eu tava lá, recenzinho entrado nos vinte ano, asseado, de calça de fatiota, o calçado desacostumado do pé apertava. Mas era beleza e orgulho, no meio dos pessoal da cidade, como se fosse como eles. Nem não quis beber, pois tinha medo de me escancarar em fiasqueira. Ficava só espiando, as gente alegre, familiar que se reencontravam, abraços e apertos de mão, parecendo mesmo que tudo era coisa feliz, de bom se rever. Eu era só eu, sozinho, sem ser da família de ninguém. Tava só existindo aquele dia no meio da festa, nem bem convidado era. Apenas ali. Não queria perturbar ninguém, não queria atrapalhar o corre-corre, o festejamento de quem era de direito. Assim, mesquivava de todos, comia só umas coisa pequena, bebia um copo dágua. No meu canto. E era, do meu modo, a meu assentado, feliz. Eu achava que já era tanto muito aquilo que a vida me deixava eu viver. Já era quase a minha ceifa. Quase o meu destino finalizado. Uma festa pra ver os otro alegre. Me agradei do pensar assim. E quase já tava me indo, voltando pro meu nadinha…

– Então foi que, num valseado, eu vi a moça. Nunca meus olho se deparou com criatura de meu Deus mais linda. Uma perfeição de gente! Uma imaginação ali viva. O vestido era duma branquice que só, um cabelo lisinho, comprido nos ombro, que a brisa mexia. Parecia envergonhada da gentarada. Ficava meio apartada do povaréu, um prato de salgadinho na mão, num recato imenso. O olho preto era lindo e cheio de esperteza e eram tímido também. Comecei a caminhar pro lado dela, sem nem decidir. Fui só indo, achando um chamado praquilo, um vem-aqui no ar, sem palavra.

– Quando viu eu se chegando, pensei que ela fosse correr. Mas me olhou eu e só deu foi um sorriso imenso, de branqueza dos dente branco, da alma branca que ainda mais. Pareceu até que já sabia que eu existia. Sentemo num banquinho meio pra lá, e a conversa corria feito um corguim, cheia de risada, de respeito, de delicadeza. E a gente nem tinha se perguntado o nome. Pra eu, ela era só linda. O tempo não sabia se corria feito passarinho fugido ou se se arrastava com preguiça de fim de tarde. Senti que a gente tinha sempre se conhecido, mas também era tudo uma novidade, de duas pessoa que se descobria…

Ele parou. O barulho na mata também. Um silêncio completo nos cercava. Nada podia competir com a história da dor dele. Esfregou as costas das mãos uma na outra; mania quando alguma coisa lhe apertava o peito, uma lembrança ruim, um dissabor, um vazio. Apertou os olhos, para relembrar a cena.

– A prosa se discorreu até muito depois da tarde, dos pessoal indo desfazer os festejo, de levar a criançada pra dentro, pro banho de bacia, as empregada limpando tudo e fofocando. Ninguém nem viu nós, linda e eu. A gente só existia um pro outro, nem pra ninguém mais. A lua tava meio espiando o mundo de dentro dumas pouca nuvem que tinha. E o cabelo preto dela brilhava inda um tanto. E o sorriso era mais branco que a lua. Mas parecia que nem se havia precisão de muita luz por causa que o olho e o sorriso e a pele clarinha e a alma dela era tudo tão linda que alumiava.

– Nem rimos muito de dizer bobícia. O riso que vinha era de descobrir que eu e ela nós dois pensava igual em muitas arte da vida. Uma grandeza! Do apreço pelas flor amarela, do respeito pelos mais velho, do sonho de morar numa casinha na beirinha dum riacho, da solidão que certas noite traz, em tudo nós era igual.

– Era como se a vida tivesse feito nós dois em duas metade, apartada, mas sendo uma coisa só, com um tanto do todo em cada uma. Você é muito sem experiência de vida e nem não vai entender isso. É coisa do misterioso da existência, uma filosofia. E nós não nos dissemo isso. A gente só sabia, só descortinava, só se reencontrava pela primeira vez no pra sempre. Então, ria um risinho faceiro, desmedido, entoado de feliz. Linda e eu.

– Num momento sem mais, ficamo os dois em silêncio, palavras engolida, nada de dizer. Parecia nem respirar, nem carecer. Vendo nos olhos, bem lá no dentro, se espalhando na alma um do outro, refulgente, amoroso. Eu olhava os olhos pretos mais negros que a sem-luz, mas que eram sossegado, de paz, carinhoso, um afago. E eles me atraía, me chamava eu, minha boca, tudo eu, pra mais perto, mais perto… Toquei o rosto dela de levinho com a ponta do dedo, pele macia, fria pela noite. Ela sorriu bem pequeno, mas tão linda. A boca se abriu um poquinho, me chamando sem som. E nós nos beijamos.

Meu tio silenciou. Havia uma lágrima escapando pelo olho. Um sorriso de lembrança feliz, mesmo com uma tristeza adicionada. Era um alembramento bom. O brilho nos olhos dele dizia isso. Não era de apressá-lo. Ele voltaria no momento certo.

– E nós nos beijamos. Com muita doçura. Ela tinha um frescor de hortelã, um gostinho de… Foi tão delicado, tão cheio de ternura, de paz. Tão linda! Beijo longo que nem sei, mas foi. Nem pensava em nada. Deixei de estar no mundo. Nem vivia mais, só sentia. Respirava ela. Um sumição. Quase ouvia suas palavra falando dentro da minha boca, me contando seu amor, seu sonho comigo, que me queria pra ela pra sempre. O beijo arrancava nós dali, fazia viajar num não-sei-onde, de tanta felicidade, de encher o coração de contentamento, o corpo num descanso aflito, aconchego.

– Foi com um rainho de sol que o beijo terminou. Abrimo os olho, e tava os dois ainda ali, rosto feliz como o quê, brilhoso, um amor que se via, inseparável. Eu peguei na mão dela, sem deixar de olhar fundo na negridão do olho lindo. A mão pequeninha, macia como…, quentinha agora, meio tremendo (era o frio ou o amor), com um anel de pedra miúda. Falei: “Você me queria eu como seu pra sempre?” “Quero, sim”, ela falou de chofre, sem nem pensar, sem piscar, com um sorriso ainda mais grande.

– Então, o padre… Sempre nem lembro bem se era o Enísio ou se era o Jalmiro. Era uns dois muito simpático, velhinho de cabelo branco, mas cheio de vigor, de seriedade com os sagrado e divino… Acho mesmo mais que era o Enísio, que tinha dormido na casa do Dr. Deocrécio, já tinha se levantado, tava por ali. Umas senhora da fazenda, damas de belo porte e carolice. Corremos pra ele. Falamos do nosso amor, do beijo, das estrela que choveram em nós na madrugada, das almas que eram tão uma só… O padre entendeu. E sorriu um seu sim de abençoar e sacramentar. Uma mocinha cortou umas florinhas como aquelasli – fez um gesto difícil, apontando com o dedo enrugado e triste flores amarela, branca e lilás num canteira em frente da casa – e fez uma grinalda muito arranjada e mimosa. A renda grande que usaram em cima do cobertor do nenê batizado se tornou-se o véu, comprido de pureza. Me arranjaram um paletó pra mim, direitinho que ficou no meu tamanho. Uma gravata de seda. Uma água de colônia boa. E ela, linda, como mais ainda tava ficando, enoivada pelas cumadre. Uma alegria no ar.

– Dr. Deocrécio apareceu e se interou-se do ocorrendo e foi logo chamar os músicos: tinha duas rabeca e dois violão, dedilhando bonito, aquela música: lá-lá-lá-láááá… – eu não identifiquei a melodia, na sua voz tremendo e rouca, meio engasgada. Os olhos brilhava, como se ele tivesse vendo ali mesmo a cena do antes.

– Ele aprumou todo o rebuliço, ordenou a criadagem e num tantim a festa tava aparelhada. O bolo com um casal em cima, uns doce, muita flor e contentice. O padre. Os padrinho foi uns três casal dali, primos e parentes, eu acho. Era hora dos voto, das pergunta mais séria dessa vida. O padre Enísio fez um pigarro de gente importante que vai discursar e perguntou: “Você quer receber a Linda como sua esposa, como se fosse um presente do céu, pra cuidar dela com mimo e respeito enquanto seu coração viver?”

– Eu olhei lá dentro do olho dela e disse: “Sim, é o que eu mais quero pra sempre”. Ele falou: “Linda, você que se encantou com ele com a graça da sua alma e debaixo das estrela mais linda, você quer mais ele que qualquer outro no mundo enquanto respirar nessa vida?” Ela baixou os olhos um momentinho e, depois, me olhou com a maior beleza que já vi, com um sorriso tão do grande que quase ofuscou eu, e me disse, uma voz tão forte mesmo sendo meiga: “Eu quero ser só sua pra sempre e o mais.” “Eu vos declaros vocês dois marido e mulher!”

– Ah! A felicicidade! A música, os aplauso, a alegria de todos, inté as criança se abraçava e vinha nos dizer parabéns e tudo de bom. O sol parecia brincalhão, com uns raio bem em cima da Linda, alumiando as flor da paineira e da grinalda, a beleza, tudo ela, que nunca existiu pessoa mais formosa e perfeita. Eu ria de não acreditar que pudesse um dia ter conhecido ela e casado e chegado a ser o homem mais feliz do havido. E um tanto de presente que ia se avolumando numa mesa: umas roupa bonita de cama, um chapéu daqueles, uns vestido mais estupendo que os outro, uma panela de barro, um tamanco com enfeite, um balaio de verdura, provisão pra mais de mês… Nem sei tudo de quanto que ganhamos. Descobri o tanto que os pessoal nos gostava naquela manhã de nunca mais. Num janeiro.

– E veio a danceira e a comilança. Se alegremo todos, com decência, sem algazarra, das senhora e crianças não ser incomodada nem carecer de conversinha de risinho dos desmodo ou sem pudismo. Foi tudo tão intacto como a beleza de Linda, do nosso amor, do sonho que não se despertava, da música carinhosa…

Um suspiro saudoso, um olhar para mais além, o olho se avermelhando. A dor.

– Numaolhada um pro outro, nós se combinamo de sumir da festa e ir pra nossa casinha, na berinha do riacho, se amar, viver de só nós dois, se alegrar de agora existir numa vida só única. Peguemos umas pouca coisa que ia se precisar e escapulimo. Até que sem pressa, da alegria que era tudo que se fazia junto, de não ter mais lonjura e poder ficar sempre com o outro. O caminho até nossa casa, branquinha, era dum capim baixim, macio, quase um tapete da casa grande. A gente ia deixando as pegada no capim, a estrada pro lugar de ser feliz.

– A casa. O fogo no fogão aquentando tudo. As cortina branca. As fruta cheirosa em cima da mesa. Flor pra todo canto. E nosso quartinho… Eu peguei Linda nos braço, beijei sua boca de hortelã… Nossa cama.

Novo silêncio. O olho agora procura alguma coisa mais longe ainda, no horizonte, num onde que não existe ou que foi um dia. Ele parece que não lembra mais que eu tô aqui. Tá falando com ele mesmo, uma lembrança em voz alta. Eu aguardo. Consigo ver que é a dor. Um longo tempo.

– Nunca ninguém não vai conseguir dizer com as palavra o que foi aquele dia de lua-de-mel. De contentamento tanto o peito parecia que nem ia vencer. O olho piscava pra acordar, mas não era sonho, mesmo que era, o sentido, a presença, o desafogo de alegria. Uma intensidão de amor, espalhado pela casa, na pele, assoprando a alma, o deslumbre de um sentir o outro e o amor. Fica uma marca mais perene que de fogo. Nunca se apaga. Nunca. Nunca…

– Então… aconteceu… o impensado. O desespero. Não podia… Logo, naquele quando? – A voz queria se manter firme enquanto as lágrimas abundantes desciam. O mesmo olhar, agora com toda dor. – Eu acordei de manhã, estonteado de feliz, arrebatado… mas Linda não tava na cama. Achei que tivesse ido preparar o café. Não tava na cozinha. Nem no quintal. Nem lá fora. Gritei. Chamei. Corri. Procurei. Perguntei. Vasculhei as mata, o riacho, andei quilômetros afora, entrei em gruta, em tapera abandonada, em casa dos outro… Nada. Linda… sumiu. Como se nunca tivesse sido.

Era essa a dor. Agora, com a cabeça baixa, com as mão por cima dela, não querendo ouvir o que ele mesmo disse, chorava. Chorava o choro de todos esses ano que Linda se foi.

Esse é meu tio, Deocrécio. Eu chamo pra ele de tio Decinho. Amo muito demais ele, que me cuidou sozinho depois que meu pai, seu Jalmiro Astrúcio, faleceu, picado de cobra. Ele que sugeriu a meu pai que meu nome fosse Enísio. Queria que eu fosse sacerdote, como ele nunca pôde de ser. Agora que tá velho e sem sustento, só eu venho visitar ele e ouvir sempre a história de dor da Linda, a mulher linda que nunca existiu.

17 maio 2013

epidemias (ou pequena discussão desimportante sobre a felicidade) (Raphael Cardoso)

THE SPECTRUM FOR HAPPINESS.jpg The Spectrum for happiness, Leonid Afremov

— Vim assim que pude. Você me pareceu tão preocupado ao telefone.
— Desculpe tirá-lo assim do serviço, amigo, mas eu não sabia a quem mais recorrer.
— O que aconteceu? Fale-me logo antes que eu tenha um treco.
— É… é que… eu acho que estou feliz.
— Fffe-feliz?
— É. Eu acho que sim…
— Mas… tem certeza, amigo? Felicidade? Tem certeza que não é asma? Reumatismo? Cólica? Como isso foi acontecer, meu Deus? Desde quando você está sentindo isso?
— Não sei bem ao certo. Lembro-me dum dia em que ele desceu do ônibus… Foi nosso primeiro encontro à luz do dia; só tínhamos nos visto à noite antes disso. E, subitamente, parei, extasiado, e disse “Você tem olhos bonitos.” Desde então, acho que os olhos dele me fazem feliz.
— Que horror, meu amigo. Feliz por causa duns olhos.
— É, eu sei.
— Você já contou para sua família?
— Não! Claro que não. Como posso chegar para minha mãe e dizer: “Oi mãe. Estou feliz, você acredita nisso? Sim, isso. Felicidade mesmo.” Ela me coloca pra fora de casa só com a roupa do corpo.
— Você precisa se tratar. Procurar um médico, ver uns filmes do Lars Von Trier, ouvir Antony and the Johnsons…
— Não adianta. Nada disso. Ontem à noite, fui para a cama com uns poemas do Bandeira. Daqueles que parecem navalha cortando a alma, sabe? Nada. Nem uma lagrimazinha nos cantos dos olhos, um suspiro pesaroso, uma melancolia pungente…
— Talvez seja… não, melhor não falar isso.
— Fale. A coisa não pode ficar melhor… pior… hum… mais grave do que já está.
— E se for felicidade crônica?
— Não diz isso, por favor. O que aconteceu com aquela ideia de que a felicidade é efêmera, nunca dura, dissipa-se com a mesma facilidade que nos assola? Eu não quero viver assim. Não vou suportar o bom humor matinal, o sorriso no ônibus, o mundo com cores vivas e alegres. Quero o cinza do meu quarto, quero os passos taciturnos, o andar cabisbaixo… Já nem sei mais quem sou! Horror, fim dos tempos! Faça alguma coisa, cara!
— Olha… Eu não sei se vai ajudar muito, mas, certa vez, li num livro que no século XX houve uma epidemia de amor pelo mundo.
— Amor? Você quer dizer, amor, amor mesmo?
— Sim. As pessoas se amavam, dá pra acreditar nisso? Eu não consigo nem conceber a ideia de viver num mundo com amor, é surrealismo demais para minha cabeça.
— E o que aconteceu?
— Oras, as pessoas se curaram disso, obviamente. Por isso, fique tranquilo, meu chapa. Daqui a pouco essa coisa de felicidade passa.
— Assim espero, amigo. Assim espero.

(Fonte)

22 dez 2012

mãos brancas

A cena todo tinha um quê de angústia. Talvez fosse a música baixa, meio desafinada, com notas soltas ocasionais, inóspitas, como sussurros desesperados que escapavam ao silêncio. As cortinas fechadas, desbotadas, abandonadas sobre janelas de vidros quebrados, dobradiças enferrujadas, há muito sem uso. Havia ali uma angústia no ar, um aperto na garganta invisível que andava de um lado para outro.
O que era? Onde estava?
Parecia espalhar-se, como a poeira sobre os móveis, como o cheiro de mofo – uma névoa inexistente que enchia o vazio, expulsando todo ar puro, todo calor do Sol. Era um frio de alma, um desconforto de menino abandonado. Ninguém o apalparia, mas seria esmagado por ele tão logo entrasse na velha sala, um cemitério de veludo bordô, tachas de latão, poltronas de espaldar alto, teias e silêncio.
O Sol, preso lá fora, queria invadi-la, desvirginar sua viuvez, soprar vida sobre o espelho embaçado, que não olhava mais ninguém, de rugas profundas na prata escurecida; queria incendiar o frio de solidão; queria fazer as flores mortas no quadro da parede sorrirem de novo.
Mas as mãos brancas e frias sabiam daquela intenção. E mantinham as desbotadas cortinas mortas bem fechadas, condenando à solitária perene o Sol.

18 set 2012

contículo 34

Luli, lê-lo lá!

17 set 2012

contículo 33

“Nunca desista de seus sonhos” era o lema do dorminhoco.

07 set 2012

contículo 34

Outro pesadelo com o mesmo bicho-papão. Pena tocar o despertador.

07 set 2012

contículo 31

O passarinho cantava logo cedo sua tristeza engaiolada. O gato não ficava comovido.

07 set 2012

contículo 30

Sentei-me ao lado do velho desconhecido na praça: “Me conta numa frase tudo o que você sabe da vida”.

06 set 2012

contículo 29

O vento agitava as folhas com tamanha ternura que elas coravam de vergonha.

29 jul 2012