pedido numa noite fria

Posso entrar?
Estou com frio,
já três noites assim,
sem comida também,
sem onde dormir.

Posso entrar?
Não tenho para onde ir,
não tenho de onde vir,
não tenho lugar nesse mundo,
talvez no outro.

Posso entrar?
Não há mais carinho nas pessoas,
me olham sem dó,
com minha roupa suja
não sentem mais nada.
Só nojo.

Posso entrar?
Eu não queria ser assim,
estar aqui,
mas a vida, não sei porque,
me expulsou de casa
e me abandonou.

Posso entrar?
Não quero muito, não quero nada,
só um canto quente pra dormir,
um pouco de água pro rosto,
um prato de comida quente,
e, se houver sobrado,
um gesto de carinho.

Não posso?
Queria entender:
não cheiro mal,
sou gente ainda – eu acho que sim –,
digo “obrigada” e peço “por favor”,
não sou dada a roubar nem mentir.
Por que não posso entrar?

Vejo uma caixa ali, ao lado do fogão a lenha,
vejo uma tina de água sobre a mesa,
vejo comida farta no prato do pão:
nada pedi que V. Sa. não tenha
nem lhe faria falta.

Ah, sim! Agora entendo,
em seu rosto que se desvia,
em seus olhos que abaixam de vergonha:
pedi carinho,
coisa que pra gente como eu
não há.

(scs, 29412)

A impressão de sua alma a esse poema: