calçada

passagem fortuita pela rua
encontro
um assombro

imprecisa presença
na mesma calçada
mas em outra vida

nem mesmo os olhos vêem
não há
apenas um acidente

um momento de estarmos ali
no mesmo ar
sem existência

já nem lembrança
a calçada não guarda pegadas
o vento sopra

apenas pó e cheiros
da vida e risos dos outros
caminhos que andam

seguem, dispersos
desencontros
e continuamos não sendo

(scs, 20110)

(fonte da foto)

15 fev 2010

distância

a elton vergara nunes

assim, medida em palmos ou em passos
a vasta distância
tão vasta distância
se faz impossível
e nem o sonho e nem o cavalo
se dispõem a transpor

e tanta é assim ela —
a longa viagem, distância tanta —
que faz naufragar paisagens
e ressuscita lembranças
e fala indizíveis memórias.
e os relatos ao vento
sopram ao fim da tarde
em cada curva, em cada arbusto.
e ainda há moinhos de vento
pontes estreitas
longas retas, placas mudas
ossos ao lado da estrada
cidades de quem já partiu
passantes anônimos
companheiros não-convidados
à presente jornada

mata-se a distância
faz-se boas-novas
faz-se infortúnios
faz-se indignações
faz-se apelos ao bom senso, e não nos ouvem!
trilhá-la, passo a passo
sem contá-los,
no espaço em elétrons,
no reencontro das mesmas idéias
há tanto não-vizinhas,
no novo que ganha atenção
da uma só carne.

a medida em palmos ou passos
em léguas ou milhas
em mapas ou palpites
não mais é
e temo-nos
a prosseguir
mesmo distantes
mas não mais.

(scs, 13-15210)

(fonte da foto)

15 fev 2010

parto

no repouso longo da caneta
a palavra se esconde
foge
sonolenta
sem memória
surda e sem voz

é convocada, exigida,
luta intensa
distração, fuga
rédea
suor
a falar

membros atrofiados, enrijecidos
dor ao menor esforço
distante lembrança do prazer
de manifestar-se.

mas a palavra gera palavra
que se traz à tona
e se desnuda e procria
e se alonga e se espalha
irradia luz e idéias e palavras

(scs, 19110)

30 jan 2010

o menino

o menino
perdido entre pernas tão altas
que colocam as bocas falantes lá no tão alto
quase nas nuvens do céu dos olhos do menino
tenta repetir
as palavras das bocas falantes que falam lá no alto
e seu sério empenho
em falar como falam os grandes
é recebido com risadas e aplausos e exageradas emoções
ele se sentiu ridículo
e desprezado
e estúpido
e se amaldiçoou
e se censurou severamente por querer agradar aos exigentes adultos
e se afastou das pernas e bocas e beijos babados
e nunca mais
falou

(mc, 12119)

30 jan 2010

na palavra muda

em cada olhar
o outro
partindo

nas costas apressadas
o nada
rugindo

no sonho roubado
a angústia
parindo

no gesto frio
a ausência
vingando

no aceno educado
o fim
chegando

no abraço morno
o asco
pingando

na não-lágrima
o eco
gritando

na mão moribunda
o quasar
apagando

na palavra muda
o silêncio
reinando

no suspiro aliviado
a partida
nascendo

no sorriso extinto
o brilho
morrendo

(mc, s/d)

30 jan 2010

cansaço

no corpo que agora tenho
tenho um cansaço sem fim
sem dor
sem prazer ou esperança

os dias se arrastam
a vida não passa
o sono
de todo tempo aqui

faz o desejo de paz
se agigantar, carência
tamanha
esgota as forças e os sonhos

no tempo de meu cansaço
sinto o sangue escorrer
vermelho
pelos poros e gotejar

sem pressa e sem pudor
aumentando o cansaço
falta de (l)ar
falta de razão pra continuar

cansado de ser, de ver,
de lançar os olhos à maré
crescente
as mãos descaídas escorrem

em direção à cova
ao húmus molhado
orvalho
repouso final por enquanto

o corpo na terra, na relva
olhar vazio de gozo
só nuvens
a mudar de lugar e sabor

e o mundo passa, vaga,
o corpo repousa sem dor
imóvel
o corpo e o húmus são o mesmo

o nada, o não-mais
nenhum fôlego ou lágrima
lamúria
despede-se da ausência e não é

ao final, o cansaço se vai
inexiste em suas entranhas
ser vazio
um corpo sem mais morador

(salvador, 9129)

22 jan 2010

escrever

É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.

(Mário Quintana)

21 jan 2010

flor

e da desesperança nasce a flor
sob o sol forte
debaixo da mão carinhosa
das lágrimas que regam
dos dias longos que não precisavam ter fim

sorri a flor nascida
onde nada podia ser
onde sua semente foi jogada
por um vento, um sopro, uma gota de sangue,
um acaso, Deus, uma decisão talvez

o solo árido foi rompido
vencida sua morte, seu desamparo
e, ainda suja de terra-placenta,
se ergue, esgueira, insiste
temerosa a flor

(aracaju, 12129)

02 jan 2010

dúvida

como saber
se não
e ser
sem
e como ter
pois
e ver
a menos
ou ainda reter
contanto que?

(mc, 26129)

02 jan 2010

chove

chove
o medo
encharca
a grama

chove
a tristeza
lava
o pátio

chove
a saliva
umedece
tua perna

chove
uma doçura
desce
do céu

chove
as lágrimas
molham
as mãos

chove
as nuvens
transmutam-se
em luzes

chove
o desespero
afoga-se
em lágrimas

chove
um mundo
some
em lama

(mc, 1110)

02 jan 2010

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