cansaço

no corpo que agora tenho
tenho um cansaço sem fim
sem dor
sem prazer ou esperança

os dias se arrastam
a vida não passa
o sono
de todo tempo aqui

faz o desejo de paz
se agigantar, carência
tamanha
esgota as forças e os sonhos

no tempo de meu cansaço
sinto o sangue escorrer
vermelho
pelos poros e gotejar

sem pressa e sem pudor
aumentando o cansaço
falta de (l)ar
falta de razão pra continuar

cansado de ser, de ver,
de lançar os olhos à maré
crescente
as mãos descaídas escorrem

em direção à cova
ao húmus molhado
orvalho
repouso final por enquanto

o corpo na terra, na relva
olhar vazio de gozo
só nuvens
a mudar de lugar e sabor

e o mundo passa, vaga,
o corpo repousa sem dor
imóvel
o corpo e o húmus são o mesmo

o nada, o não-mais
nenhum fôlego ou lágrima
lamúria
despede-se da ausência e não é

ao final, o cansaço se vai
inexiste em suas entranhas
ser vazio
um corpo sem mais morador

(salvador, 9129)

flor

e da desesperança nasce a flor
sob o sol forte
debaixo da mão carinhosa
das lágrimas que regam
dos dias longos que não precisavam ter fim

sorri a flor nascida
onde nada podia ser
onde sua semente foi jogada
por um vento, um sopro, uma gota de sangue,
um acaso, Deus, uma decisão talvez

o solo árido foi rompido
vencida sua morte, seu desamparo
e, ainda suja de terra-placenta,
se ergue, esgueira, insiste
temerosa a flor

(aracaju, 12129)

chove

chove
o medo
encharca
a grama

chove
a tristeza
lava
o pátio

chove
a saliva
umedece
tua perna

chove
uma doçura
desce
do céu

chove
as lágrimas
molham
as mãos

chove
as nuvens
transmutam-se
em luzes

chove
o desespero
afoga-se
em lágrimas

chove
um mundo
some
em lama

(mc, 1110)

açoite e sonho

não sonho mais
não me deixam
não me permito
não há com que sonhar
tudo é a fria realidade
sem cor
insípida
cruel tirana
a impor seu fardo
seu estar de olhos abertos
látego real nas mãos
gritando ordens metralhadas
desassossegando.
não há mais sonhos
mas eles não me deixam.
não os permito.
minto.
eu os tenho aqui comigo
escondidos
debaixo da ferida aberta
da cicatriz que dói
do coágulo no canto da boca
no peito ferido.
sonho em sonhar sem dor.

(mc, 2599)

um muitos

nem sempre sou eu que estou aqui
nas palavras que escrevo
às vezes sou eu,
o que gostaria de ser
vivendo num mundo ideal
quase sonho

outras vezes sou eu,
raivoso inquiridor
perscrutador da alma
irriquieto observador

há vezes em que eu tomo a pena,
o saudosista do tempo que não viveu,
das gentilezas às senhoritas,
que sente os aromas das flores que nunca colheu

mas eu também escrevo,
o que se vê nos outros,
que se pensa em alma alheia,
que se faz passar por mulher campo flor soneto suicida além

eu sou todos os eus
e mais outros
ou não outros
o mesmo
o único múltiplo
pluralma

(mc, 1999)

(fonte da foto)