sobras

parece sobrar só a angústia
entre a areia e as flores
nada novo vem e nada sopra
o hálito de vida ou de alento

então, sobra somente a dor
e não há mais amplidão
só o aperto estreito do abraço frio
insone, amassado, noturno

e ainda hoje sobra tão-só um desejo
um anseio morto no peito
não-nascido, lamúria silente
andando trôpego ao luar

e outra vez sobra só a solidão
do caminho nos campos
os pés orvalhados e a grama morta
no silêncio profundo sem horizonte

e por ora o que sobra é anseio
na viagem surda entre nuvens e
pedras agudas que ferem
e o sangue verte e marca

as sobras de cada sempre
das manhãs que não chegam
das noites que não findam
e não mais folhas secas

emoldurando campos floridos
mas a sobra, nada mais
somente a sobra

26 abr 2010

vertigem

não te sei do olho senão a vertigem
onde te penso noite
a fina e epidérmica fuligem
consome qual açoite

e não mais te vejo senão em saudade
como a bruma que passa
roçam as mãos e ferem-me com maldade
fica o riso sem graça

nem mesmo canto minha dor no lago
não ouço o calmo jardim
falta o torpe laço e o afago
sem perfume a aurora e o jasmim

(sc, sd)

24 abr 2010

retorno

ainda que venha sem fim o dia
mesmo que o tempo não seja
será sempre a dor alheia
e não mais o desprezo e o asco

a imagem tão bela, mas não mais
se desvanece e vai como ontem
deixou de ser, e a sombra some
e a luz lhe toma o lugar e ri

e ainda que a insistência doa
a mágoa cresce e se vinga
do coração o frêmito é cinza
em espasmos sem prazer ou luz

(scs, 19410)

(fonte da foto)

19 abr 2010

quem somos

Quem somos, senão o que imperfeitamente
sabemos de um passado de vultos
mal recortados na neblina opaca,
imprecisos rostos mentidos nas páginas
antigas de tomos cujas palavras

não são, de certo, as proferidas,
ou reproduzem sequer actos e gestos
cometidos. Ergue-se a lâmina:
metal e terra conhecem o sangue
em fronteiras e destinos pouco

a pouco corrigidos na memória
indecifrável das areias.
A lápide, que nomeia, não descreve
e a história que o historia,
eco vário e distorcido, é já

diversa e a si própria se entretece
na mortalha de conjecturados perfis.
Amanhã seremos outros. Por ora
nada somos senão o imperfeito
limbo da legenda que seremos.

Rui Knopfli, in O Corpo de Atena

(fonte)

11 abr 2010

poesia incompleta

a úmida tarde mancha a parede
na íris a clara a imagem que se perde
em névoa e desencanto
e no entanto

se refaz em arco-iris e suspiros
profusos arrancados à garganta rude
sem conflito ou custódia
doce prosódia

11 abr 2010

reflexo

não sei onde vi a respeito de mim
em que livro, folha, pedra ou marfim
havia lá desse eu um retrato
sem cor nem forma, nem um acato

a descrição era imprecisa
mas detalhada e mui concisa
os olhos baços que me fitavam
se escondiam de dor e choravam

pareceu-me também ouvir vozes
como flechas de fogo velozes
luzindo à noite e incendiando
os campos, os meus sonhos matando

e de novo vejo a antiga imagem
refletida em pó e serragem
não sou eu! quem estará, quem, ali
me sondando? quem será que me vi?

(scs, 17210)

10 mar 2010

poema em imagem

23 fev 2010

tragédia

As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.

(Oscar Wilde)

23 fev 2010

ah, filhos

a kairós, talita e calebe

filhos, ah, filhos!
há tanto tempo estão comigo
e tão pouco tempo
com vocês passei
e era tão pouco o pouco
que me pediam

podia? sim!
filhos, ah, filhos…

há filhos por todos os lados,
uma multidão deles
pelos cantos
entrando pelas frestas
esgueirando-se pela fechadura
são muitos, centenas
de vozes e opiniões e risos e desenhos e conselhos
dezenas são
eles três

ah, filhos… concebidos com carinho
desnutridos deles
ainda há tempo?

a filhos se deve tempo —
todos eles são filhos únicos
cada um é o mais velho
cada um um universo múltiplo, complexo, único
divertido —
de presença, de silêncio, de olhar compreensivo
de olhar cúmplice
tempo de não deixar o tempo passar
sem marcas
sem coisas inesquecíveis
sem fotografias impressas na alma

ah, filhos!
todos os tantos que são
nos poucos que são:
quanto já andaram
quanto já se tornaram
quanto já não são mais a última vez que os (ou)vi

e já são tão mais eu e ela
e tão mais eles mesmos
com erros novos, inéditos
e dores de família
e angústias na alma pequena
e segredos que mamãe não pode mais saber

e por isso quase os desconheço
como se não houvesse neles minhas entranhas
minha alma, meu hálito

e tudo isso aconteceu
em tão pouco tempo
no tanto tempo que se passou

ah, filhos!
podem me perdoar
o modo ainda por descobrir
de amar vocês?

(scs, 310110)

15 fev 2010

mudança

parte de mim em caixas
em parte de mim te encaixas
parte de mim ocupas
parte de mim, culpas
em parte de mim, nada
partes de mim, e mais nada

(scs, 23110)

15 fev 2010

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