reflexo

não sei onde vi a respeito de mim
em que livro, folha, pedra ou marfim
havia lá desse eu um retrato
sem cor nem forma, nem um acato

a descrição era imprecisa
mas detalhada e mui concisa
os olhos baços que me fitavam
se escondiam de dor e choravam

pareceu-me também ouvir vozes
como flechas de fogo velozes
luzindo à noite e incendiando
os campos, os meus sonhos matando

e de novo vejo a antiga imagem
refletida em pó e serragem
não sou eu! quem estará, quem, ali
me sondando? quem será que me vi?

(scs, 17210)

ah, filhos

a kairós, talita e calebe

filhos, ah, filhos!
há tanto tempo estão comigo
e tão pouco tempo
com vocês passei
e era tão pouco o pouco
que me pediam

podia? sim!
filhos, ah, filhos…

há filhos por todos os lados,
uma multidão deles
pelos cantos
entrando pelas frestas
esgueirando-se pela fechadura
são muitos, centenas
de vozes e opiniões e risos e desenhos e conselhos
dezenas são
eles três

ah, filhos… concebidos com carinho
desnutridos deles
ainda há tempo?

a filhos se deve tempo —
todos eles são filhos únicos
cada um é o mais velho
cada um um universo múltiplo, complexo, único
divertido —
de presença, de silêncio, de olhar compreensivo
de olhar cúmplice
tempo de não deixar o tempo passar
sem marcas
sem coisas inesquecíveis
sem fotografias impressas na alma

ah, filhos!
todos os tantos que são
nos poucos que são:
quanto já andaram
quanto já se tornaram
quanto já não são mais a última vez que os (ou)vi

e já são tão mais eu e ela
e tão mais eles mesmos
com erros novos, inéditos
e dores de família
e angústias na alma pequena
e segredos que mamãe não pode mais saber

e por isso quase os desconheço
como se não houvesse neles minhas entranhas
minha alma, meu hálito

e tudo isso aconteceu
em tão pouco tempo
no tanto tempo que se passou

ah, filhos!
podem me perdoar
o modo ainda por descobrir
de amar vocês?

(scs, 310110)

mudança

parte de mim em caixas
em parte de mim te encaixas
parte de mim ocupas
parte de mim, culpas
em parte de mim, nada
partes de mim, e mais nada

(scs, 23110)

calçada

passagem fortuita pela rua
encontro
um assombro

imprecisa presença
na mesma calçada
mas em outra vida

nem mesmo os olhos vêem
não há
apenas um acidente

um momento de estarmos ali
no mesmo ar
sem existência

já nem lembrança
a calçada não guarda pegadas
o vento sopra

apenas pó e cheiros
da vida e risos dos outros
caminhos que andam

seguem, dispersos
desencontros
e continuamos não sendo

(scs, 20110)

(fonte da foto)

distância

a elton vergara nunes

assim, medida em palmos ou em passos
a vasta distância
tão vasta distância
se faz impossível
e nem o sonho e nem o cavalo
se dispõem a transpor

e tanta é assim ela —
a longa viagem, distância tanta —
que faz naufragar paisagens
e ressuscita lembranças
e fala indizíveis memórias.
e os relatos ao vento
sopram ao fim da tarde
em cada curva, em cada arbusto.
e ainda há moinhos de vento
pontes estreitas
longas retas, placas mudas
ossos ao lado da estrada
cidades de quem já partiu
passantes anônimos
companheiros não-convidados
à presente jornada

mata-se a distância
faz-se boas-novas
faz-se infortúnios
faz-se indignações
faz-se apelos ao bom senso, e não nos ouvem!
trilhá-la, passo a passo
sem contá-los,
no espaço em elétrons,
no reencontro das mesmas idéias
há tanto não-vizinhas,
no novo que ganha atenção
da uma só carne.

a medida em palmos ou passos
em léguas ou milhas
em mapas ou palpites
não mais é
e temo-nos
a prosseguir
mesmo distantes
mas não mais.

(scs, 13-15210)

(fonte da foto)

parto

no repouso longo da caneta
a palavra se esconde
foge
sonolenta
sem memória
surda e sem voz

é convocada, exigida,
luta intensa
distração, fuga
rédea
suor
a falar

membros atrofiados, enrijecidos
dor ao menor esforço
distante lembrança do prazer
de manifestar-se.

mas a palavra gera palavra
que se traz à tona
e se desnuda e procria
e se alonga e se espalha
irradia luz e idéias e palavras

(scs, 19110)

o menino

o menino
perdido entre pernas tão altas
que colocam as bocas falantes lá no tão alto
quase nas nuvens do céu dos olhos do menino
tenta repetir
as palavras das bocas falantes que falam lá no alto
e seu sério empenho
em falar como falam os grandes
é recebido com risadas e aplausos e exageradas emoções
ele se sentiu ridículo
e desprezado
e estúpido
e se amaldiçoou
e se censurou severamente por querer agradar aos exigentes adultos
e se afastou das pernas e bocas e beijos babados
e nunca mais
falou

(mc, 12119)

na palavra muda

em cada olhar
o outro
partindo

nas costas apressadas
o nada
rugindo

no sonho roubado
a angústia
parindo

no gesto frio
a ausência
vingando

no aceno educado
o fim
chegando

no abraço morno
o asco
pingando

na não-lágrima
o eco
gritando

na mão moribunda
o quasar
apagando

na palavra muda
o silêncio
reinando

no suspiro aliviado
a partida
nascendo

no sorriso extinto
o brilho
morrendo

(mc, s/d)