coisas

eu guardo inexplicáveis lembranças:

a abandonada folha seca do dia
em que pela primeira vez te vi
o floco de neve que havia
na noite em que te esqueci

o guardanapo limpo de tafetá
do inesquecível piquenique a que faltei
a xícara suja de um insípido chá
da noite triste em que chorei

o poema rabiscado e incompleto
da manhã de amor que nunca veio
o abraço quente de mil afetos
roubado na multidão a olhos alheios

o lugar sempre vazio a meu lado
da longa viagem que nunca terminou
o sonho louco e amargurado
de que, de fato, nunca te amou

(scs, 4918)

(fonte da imagem)

só o poema

preciso poetar mais
a vida anda muito engasgada
na ponta da pena
anseios e assombros
não se entregam se não
sangrarem tinta
muitas paisagens se perdem só nos olhos
os sonhos desneblinam-se ao amanhecer
– o mundo é menor que as sílabas! –
só o poema pode guardá-los
vivos e tenros (eternos?)

(scs, 28818)

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tão            tão
intenso      tenso
sonho        amor
tenso         terno
sempre      penso
tenho         eterno