mãos brancas

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A cena todo tinha um quê de angústia. Talvez fosse a música baixa, meio desafinada, com notas soltas ocasionais, inóspitas, como sussurros desesperados que escapavam ao silêncio. As cortinas fechadas, desbotadas, abandonadas sobre janelas de vidros quebrados, dobradiças enferrujadas, há muito sem uso. Havia ali uma angústia no ar, um aperto na garganta invisível que andava de um lado para outro.
O que era? Onde estava?
Parecia espalhar-se, como a poeira sobre os móveis, como o cheiro de mofo – uma névoa inexistente que enchia o vazio, expulsando todo ar puro, todo calor do Sol. Era um frio de alma, um desconforto de menino abandonado. Ninguém o apalparia, mas seria esmagado por ele tão logo entrasse na velha sala, um cemitério de veludo bordô, tachas de latão, poltronas de espaldar alto, teias e silêncio.
O Sol, preso lá fora, queria invadi-la, desvirginar sua viuvez, soprar vida sobre o espelho embaçado, que não olhava mais ninguém, de rugas profundas na prata escurecida; queria incendiar o frio de solidão; queria fazer as flores mortas no quadro da parede sorrirem de novo.
Mas as mãos brancas e frias sabiam daquela intenção. E mantinham as desbotadas cortinas mortas bem fechadas, condenando à solitária perene o Sol.

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