Dois poemas de Francisco Carvalho

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O tempo nos desfolha

O tempo nos desfolha
com sua foice de murmúrios

somos o rebanho de cabras
pastando o caos

somos os tufos de relva
nas frestas da rocha
batida pelo mar

onde a nau de Ulisses
ainda ancora

somos a escória do mito
a rota em que navega
a nossa penúria.

 

Poema para escrever no asfalto

Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.

Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.

Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.

Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.

Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.

Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.

(Faleceu dia 5 de março de 2013, em Fortaleza, aos 85 anos. Cearense de Russas, onde nasceu em 11 de junho de 1927, Francisco Carvalho publicou mais de 30 livros e recebeu diversos prêmios, entre eles, o Nestlé de Literatura, em 1982, e o da Fundação Biblioteca Nacional, em 1997. Teve alguns de seus poemas musicados pelo cantor e compositor cearense Raimundo Fagner. Era membro da Academia Cearense de Letras.)

(Fonte)

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