Poesia

ah, filhos

a kairós, talita e calebe

filhos, ah, filhos!
há tanto tempo estão comigo
e tão pouco tempo
com vocês passei
e era tão pouco o pouco
que me pediam

podia? sim!
filhos, ah, filhos…

há filhos por todos os lados,
uma multidão deles
pelos cantos
entrando pelas frestas
esgueirando-se pela fechadura
são muitos, centenas
de vozes e opiniões e risos e desenhos e conselhos
dezenas são
eles três

ah, filhos… concebidos com carinho
desnutridos deles
ainda há tempo?

a filhos se deve tempo —
todos eles são filhos únicos
cada um é o mais velho
cada um um universo múltiplo, complexo, único
divertido —
de presença, de silêncio, de olhar compreensivo
de olhar cúmplice
tempo de não deixar o tempo passar
sem marcas
sem coisas inesquecíveis
sem fotografias impressas na alma

ah, filhos!
todos os tantos que são
nos poucos que são:
quanto já andaram
quanto já se tornaram
quanto já não são mais a última vez que os (ou)vi

e já são tão mais eu e ela
e tão mais eles mesmos
com erros novos, inéditos
e dores de família
e angústias na alma pequena
e segredos que mamãe não pode mais saber

e por isso quase os desconheço
como se não houvesse neles minhas entranhas
minha alma, meu hálito

e tudo isso aconteceu
em tão pouco tempo
no tanto tempo que se passou

ah, filhos!
podem me perdoar
o modo ainda por descobrir
de amar vocês?

(scs, 310110)

15 fev 2010

mudança

parte de mim em caixas
em parte de mim te encaixas
parte de mim ocupas
parte de mim, culpas
em parte de mim, nada
partes de mim, e mais nada

(scs, 23110)

15 fev 2010

chuva

uma gota de chuva
é assim
um beijo descuidado
que o céu dá na terra

20 nov 2009

espelho

a criança se olha no espelho
e se vê adulta
no mundo de depois:
deveres, salário, contas,
voto, despertador, hospital,
decisões, atas, encanador,
promoção, tese, fumaça,
engarrafamento, dilema, solidão.

a criança quebra o espelho
e vai brincar lá fora.

(mc, 2599)

(fonte da foto)

Este poema foi um dos vencedores do concurso Poemas no ônibus, da Prefeitura de Porto Alegre. Veja aqui.
Em breve, atualizo as informações e lanço um concurso pros leitores.

18 nov 2009

a rosa

a rosa
caída
na calçada
é poema
que a chuva leva

a mão
pequena
molhada
das lágrimas
que olhos tristes
choviam
colheu
a rosa
trazida por
outra chuva

e os olhos
sorriram
com o poema
entre as mãos

(publicada em 26.10.09; atualizada em 11.2.18)

26 out 2009

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