Poesia

Prestuplenie i Nakazanie

como se não bastasse
de novo como ontem
o sonho se fez pranto
e a vida, como torto espanto,
transcorre, corrente de sangue, loucura
tímida, entre raios da lua
diminuta intensidade de amor
suave incerteza de tamanha dor

e de novo a mesma-sempre
a diversa, a nunca-outra
aquela que permanece ainda-ser
e percorre-me silente, sem temer
com gana, violenta candura
e arranha os poros e soletra, nua,
todas as mesmas insanas presenças
aninhadas no corpo quais febris doenças

e como se não morressem
o infindo retorno e a colisão
esmera-se em lapidar a rude jóia
e a carregar na superfície tênue inglória
folhas e olhos e doçura
e a firme dúvida que corrói, crua,
e cria monstros e os conforta
depois foge assustada e deixa aberta a porta

mui assustada com plasma e vísceras
corre louca solidão adentro
arrastando seu vestido branco
rasgado, com manchas de limo no flanco
com vestígios da tensa manhã escura
ainda sorrindo indefesa e vil (sua)
grita com voz surda e triste
na ponte orvalhada que não mais existe

e como se não soubesse
há ainda outro desatino
imperfeito como o ouro puro
e o talho nas costas, feio e escuro,
verte sofismas e uma nuvem impura
minúsculos tesouros cortados – que os possua! –
imersos em lava e alga
fugindo no cavalo cego que cavalga

ah! por que não recomeçam
e se materializam em
diademas de mãos espalmadas em flor
em vastos campos de folhas cinza e calor
de outonais repouso e ternura
da imorredoura saga final. e lhe retribua
o sono inócuo sem fim
e a lamúria que se finda tonta em mim

(scs, 10210)

28 nov 2017

fim

não
nenhuma novidade
no sopro inquieto do vento
que nos faz companhia neste dia tão comum

sem
qualquer surpresa
os olhos se encontram
e já não falam aquelas mentiras tão carinhosas


nem sabemos
o nome daquela saudade
abandonada no refúgio das coisas evitadas

quão
belas nuvens
ocultam a luz difusa
e as mornas mãos acenam uma desesperança

ver
mais perto
os olhos de um passado
entalhado na pele e nos suspiros ainda eriçados

sim
sabemos que
nada outro nos alegrou
em todo o tempo de sermos dois caminhos

nos
olhos borrados
mesclam-se lágrimas e pó
um desenho de abraços que estavam aqui

vai
como ventania
o dia de ontem esquecido
traz aquele brilho dos lençóis novos

sons
tão sonhados
das canções envergonhadas mudas
feita um pedido nervoso de olhar tímido

fim
de tudo
num suspiro vazio de adeus
mãos tímidas aquecidas na pele alheia

(scs, 26911)

27 nov 2017

encontro

encontrei na rua deserta
um cão perdido
triste
olhei-o olhou-me
triste
deixou-me
perdido segui(u)

(scs, 19317)

09 jun 2017

paixão de inverno

eu me deixei
nevar
por teu sorriso
e nunca mais
me senti tão
sol

(scs, 191216)

09 jun 2017

sem título

a morte me deve explicações
mas é covarde
foge sempre

09 jun 2017

sem título

amor
indolor
não existe
mas quem resiste
a desejar
e esperar
um amor assim:
só pra mim?

(scs, 28414)

07 maio 2017

sem título

eu preciso
de ti
de modo
preciso
cirúrgico
litúrgico

(sc, 28414)

07 maio 2017

Manhã

Ela acordava sempre profunda, solene, vendo
o que havia sob.
Pressentia invisíveis superfícies, arranhadas
de poeira cotidiana, uma falsa paz,
o silêncio corrompido de tédio e omissão.

Não.

O modo outro é que tinha de ser,
a revolução, o confronto de nariz na parede
– o sangue a escorrer impoluto, arrastando
verdades dores libertação espelhos –
resgatando dos escombros a vida
desatinadamente necessária
disposta a mais um dia

(scs, 18215, 33 anos depois)

18 abr 2017

mais finito

depois, acenou com amor
uma despedida sem fim
enquanto o ônibus sumia na estrada

permaneceu como se seu olhar
pudesse trazê-lo de volta estar com ele
e já era só uma estrada vazia

e a vida agora era vazia
de uma saudade dolorida dos abraços tantos
e do abrigo entre eles
de promessas impossíveis
– mas o que importava eram só eles dois

então: veio a despedida
e ela ali acenando a quem já não havia
um coração desfalecido
a vida desocupada de razão
– tudo parecia mais finito que a estrada
infinita que os distanciava

– Mãe, vamo pra casa! Tô cansado…

não era possível viver de outro modo

(sc, sd)

18 abr 2017

De risos e morte

o homem,
de tão feliz,
ria sozinho noite afora
sem se importar
com os que
dormiam de tristeza
com as janelas fechadas
com o coração frio

e ria sua alegria desinteressada
pelas ruas e jardins
sem nem notar
a chuva que chorava
as mágoas de toda a cidade

ia rindo sua alegria descabida
pelas ruínas do velho casarão
de tantas memórias sombrias
e pelos corredores do hospital
de aleijados e parturientes
que pensaram, por um instante,
que podiam também rir

e seguia rindo ao lado do rio
entre homens magros e famintos
e mulheres exploradas (hematomas)
e crianças ranhentas jogando futebol
sem sorriso

e seu riso gostoso, intenso,
quase imoral
inquietou o ancião, que lhe jogou uma pedra e um deboche,
mas uma criança sorriu
uma mulher sacudiu-se rindo com a agulha na mão
um homem dançou com a muleta
a jovem na janela fechada ficou pensando se poderia…

sua insana viagem seguia;
dele, o homem que sorria,
a risada já ia longe
poluindo com sua leveza o ar de chumbo
daquela cidade mórbida:

deixava para trás
irados homens sórdidos
escandalizadas senhoras carolas que emudeceram o riso e a fé
muitos indiferentes transeuntes que não sabiam se estavam vivos
e
dois ou três loucos
que continuavam rindo e indo
enquanto a morte os perseguia
na cidade que morria

(scs, 13913)

02 abr 2017