a rosa

era uma rosa
nem a mais bela entre muitas rosas
mas era aquela, a deleitosa
de perfume desbotada
pétalas maltratadas
sedenta
– que ao amor afugenta –
nem a mais cobiçada
nem outra rosa
mas aquela, feiosa
a que escolhi
a que me escolheu
– ao vê-la, desvaneci
a angústia que era eu –
a que se desencantou
a que me enterneceu
àquela a quem meu coração falou
como nunca falou a rosa alguma

de coisas tristes
de meros e amores
de alternativas loucas
do sorriso que espuma
de dedos em riste
de noites e flores
de angústias tão poucas

falamos madrugada afora
reinventando os sonhos da não-manhã
as pétalas tão pouco viçosas
se alegravam como se houvesse orvalho
nosso silêncio, de uma paixão sonora
com as mãos de inventada tecelã
bordava eternidades na langorosa
flor, sem sombras nem farfalho

e aquela rosa
não a mais assombrosa rosa
ouviu-me com sua atenção de pétalas
e tocou-me
com sua ternura de espinhos
no canto do jardim onde sozinho
ela amou-me
confessando seus segredos de pérolas
ela, que já não era flor medrosa
ela, a única e sempre rosa

(scs, ?,21918)

mil dias

por mil dias guardei teu silêncio sobre meus braços
e não sabia mais o que devia desejar
na manhã de nuvens em brancos pedaços
outra despedida de outono, um afago sem olhar

por mil dias contemplei teu sorriso no lago tranqüilo
águas turvas da memória eterna que revive
carregando suspiros de doce voz no sigilo
com que chamaste o nome que eu outrora tive

por mil dias fugi por entre os arbustos mortos
com medo de não acordar, não ser reconhecido
trilha áspera como os pensamentos incertos, tortos
de sons e ternuras e nenhuma paz que tenha vivido

por mil dias fingi reconhecer teu rosto em cada pedra
uma frieza de limo sorrindo sem vida
mergulhada na incerteza de quem não eras
– um desabafo sem força, cheio de medo da despedida

por mil dias voltei a procurar-te no ninho e no alto do monte
angustiada – como será ainda o que não sei se preciso? –
derramando gotas de sangue nos pedregulhos e na fonte
fertilizando sementes, flores sem cor, de aroma indeciso

e, ao final daqueles outonais mil dias,
quedo-me de novo, como no início, só
tomada daquela mui antiga saudade
guia angustiosa dessa minha estranha jornada

contemplo-me na areia que reluz prateada
refletindo à sombra o sonho da realidade
espalho de meus tantos pensamentos sem dó
o fim da visceral busca: a mim já não querias

(scs, 23115,918)

outroras

lembro?
a infância não-vivida na praia deserta
pegadas trêmulas no asfalto quente
eu nem mesmo sabendo que existia (estou certa?)
e a vida passava, passava indiferente

revivo?
o primeiro sorriso de adeus à tardinha
numa rua fria de casas displicentes
éramos só eu e minha ausência mansinha
conformando-se ao silêncio do nunca-mais insolente

desperto?
no meio da manhã cravejada de lágrimas tardias
e poeira suspensa no ar adocidado
do aroma das lembranças mais ternas e sombrias
daquela distante infância não-vivida (terei tentado?)

e tão feliz

(scs, 18115,13918)

escolha às 18h

nem se importava mais com aquilo,
mas a dor era tão real ainda
como no dia em que
a inventou
e hoje precisa dela para viver
amargurada

(sp, 241015)

coisas

eu guardo inexplicáveis lembranças:

a abandonada folha seca do dia
em que pela primeira vez te vi
o floco de neve que havia
na noite em que te esqueci

o guardanapo limpo de tafetá
do inesquecível piquenique a que faltei
a xícara suja de um insípido chá
da noite triste em que chorei

o poema rabiscado e incompleto
da manhã de amor que nunca veio
o abraço quente de mil afetos
roubado na multidão a olhos alheios

o lugar sempre vazio a meu lado
da longa viagem que nunca terminou
o sonho louco e amargurado
de que, de fato, nunca te amou

(scs, 4918)

(fonte da imagem)

só o poema

preciso poetar mais
a vida anda muito engasgada
na ponta da pena
anseios e assombros
não se entregam se não
sangrarem tinta
muitas paisagens se perdem só nos olhos
os sonhos desneblinam-se ao amanhecer
– o mundo é menor que as sílabas! –
só o poema pode guardá-los
vivos e tenros (eternos?)

(scs, 28818)