Poesia de outros

Aquela falsa e triste semelhança (Álvaro de Campos)

Aquela falsa e triste semelhança
Entre quem julgo ser e quem eu sou.
Sou a máscara que volve a ser criança,
Mas reconheço, adulto, aonde estou,

Isto não é o Carnaval, nem eu.
Tenho vontade de dormir, e ando.
O que passa, ondeando, em torno meu,
Passa (…)

Dormir, despir-me deste mundo ultraje,
Como quem despe um dominó roubado.
Despir a alma postiça como a um traje.

Tenho náusea carnal do meu destino.
Quase me cansa me cansar. E vou,
Anónimo, (…) menino,
Por meu ser fora à busca de quem sou.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

(Fonte)

10 fev 2013

três poemas de Wislawa Szymborska

tradução REGINA PRZYBYCIEN

Mapa

Plano como a mesa
na qual está colocado.
Debaixo dele nada se move
nem busca vazão.
Sobre ele –meu hálito humano
não cria vórtices de ar
e deixa toda a sua superfície
em silêncio.

Suas planícies, vales, são sempre verdes,
os planaltos, montanhas, amarelos e marrons
e os mares, oceanos, de um azul delicado
nas margens fendidas.

Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.
Posso tocar os vulcões com a ponta da unha,
acariciar os polos sem luvas grossas.
Com um olhar posso
abarcar cada deserto
junto com o rio logo ali ao lado.

Selvas são assinaladas com arvorezinhas
entre as quais seria difícil se perder.

No Ocidente e Oriente
acima e abaixo do equador —
assentou-se um manso silêncio.
Pontinhos pretos significam
que ali vivem pessoas.
Valas comuns e súbitas ruínas
não cabem nesse quadro.

As fronteiras dos países mal são visíveis
como se hesitassem entre ser e não ser.

Gosto dos mapas porque mentem.
Porque não dão acesso à dura verdade.
Porque, generosos e bem-humorados,
estendem-me na mesa um mundo
que não é deste mundo.

Tem aqueles que

Tem aqueles que cumprem a vida com mais eficácia.
Põem ordem em si mesmos e a seu redor.
Têm resposta certa e jeito para tudo.

Logo adivinham quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.

Batem o carimbo nas verdades únicas,
atiram ao triturador fatos desnecessários,
e a pessoas desconhecidas
de antemão destinam fichários.

Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois depois desse instante espreita a dúvida.

E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.

Às vezes os invejo
— por sorte isso passa.

Coação

Comemos a vida de outros para viver.
A falecida costeleta com o finado repolho.
O cardápio é um necrológio.

Mesmo as melhores pessoas
precisam morder, digerir algo morto,
para que seus corações sensíveis
não parem de bater.

Mesmo os poetas mais líricos.
Mesmo os ascetas mais severos
mastigam e engolem algo
que, afinal, ia crescendo.

Custa-me conciliar isso com os bons deuses.
Talvez crédulos,
talvez ingênuos,
deram à natureza todo o poder sobre o mundo.
E é ela, louca, que nos impõe a fome,
e ali onde há fome
finda a inocência.

À fome se juntam logo os sentidos:
o paladar, o olfato, o tato e a visão,
pois não é indiferente quais iguarias
e em quais pratos.

Até a audição participa
no que sucede, pois à mesa
não raro há conversas alegres.

Para o meu poema

Na melhor das hipóteses,
meu poema, você será lido atentamente,
comentado e lembrado.

Em uma hipótese pior,
apenas lido.

Terceira possibilidade —
escrito, de fato,
mas logo jogado no lixo.

Você pode se valer ainda de uma quarta saída —
desaparecer não escrito
murmurando satisfeito algo para si mesmo.

(Fonte)

27 jan 2013

vida (walt whitman)

Sempre a indesencorajada alma do homem
resoluta indo à luta.
(Os contingentes anteriores falharam?
Pois mandaremos novos contingentes
e outros mais novos.)
Sempre o cerrado mistério
de todas as idades deste mundo
antigas ou recentes;
sempre os ávidos olhos, hurras, palmas
de boas-vindas, o ruidoso aplauso;
sempre a alma insatisfeita,
curiosa e por fim não convencida,
lutando hoje como sempre,
batalhando como sempre.

02 jan 2013

sem título (janisse nunes)

Ah, teus olhos cegos
não podem ver a Deus.
Ateus, olhos cegos,
não podem ver a Deus…
não podem ver… adeus!

26 nov 2012

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso (e. e. cummings)

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

(Fonte)

07 nov 2012

haicai (Bashô)

Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

08 out 2012

versos (Álvaro de Campos)

Meus versos são a minha impotência. O que não consigo, escrevo-o.

18 set 2012

poesia brasileira em cores (Constance von Krüger)

Deixe-se colorir poeticamente.

colorido

Em um país de mistura étnica e cultural tão acentuada, toda a produção artística está sempre composta por influências advindas das mais distintas fontes. O Brasil abriga um mosaico de “existires” tão rico quanto prosaico, tão intenso quanto facilmente ignorável – as vibrantes características de nossa bossa mesclada já fazem parte de nosso cenário habitual, já é trivial conviver com a riqueza e a explosão das manifestações do que somos. Difícil, porém, é descrever tal fenômeno, mas as cores, talvez, sejam as melhores ajudantes nesse processo. Um arco-íris é o Brasil, se cada cor puder significar uma enorme gama de construções das mais diversas escolas e inspirações, onde o grafite marginalizado muito se assemelha às já clássicas obras modernistas, onde o rap da nova geração dialoga com a tão pomposa MPB.

Em termos de poesia, como não poderia deixar de ser, somos vitrine do que há de melhor em várias perspectivas. E é nessa nuance que podemos tomar um exemplar para cada cor que compõe nosso arco-íris. O significado das cores? O mais clichê possível. O importante é vislumbrar, sob nova ótica, o colorido vasto e mal (ou bem) definido da nossa nova, velha e eterna produção poética.
Eis, portanto, as cores de nossos poetas, todos rigorosamente escolhidos sob nenhum critério específico.

O VERMELHO – Ternura, Vinícius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos

O LARANJA – O guardador de águas, Manoel de Barros

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar –
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

O AMARELO – Da felicidade, Mário Quintana

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

O VERDE – Cortar o tempo, Carlos Drummond de Andrade

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

O AZUL – Poeminha amoroso, Cora Coralina

E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.

O ANIL – O bicho, Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem

O VIOLETA – Dois e dois são quatro, Ferreira Gullar

– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

No presente artigo, as convenções para cada cor adotadas foram as seguintes: Vermelho é amor, paixão. Laranja é criatividade, amarelo, alegria. O verde é a esperança, o azul o transcendente, e o anil a intuição. O violeta é a consciência. Deixe-se colorir de poesia brasileira, ainda que ressignificar cada cor, ou cada poema, seja necessário.

Fonte

05 set 2012

Então queres ser um escritor? (Charles Bukowisk)

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para uma tela de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que lê-lo primeiro para tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

___

Não concordo com todos os postulados dele, mas é mais ou menos por aí a tarefa (missão? obsessão? mania? birra? burrice?) de ser escritor.

22 ago 2012

felicidade (Vicente de Carvalho)

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

30 jun 2012

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