carta de despedida

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Prezado amigo que não está mais a meu lado,
não guardo mágoas,
mas arranquei de mim
todas as marcas
de tua passagem por minha vida.

Já não sei teu nome
nem as músicas desafinadas que cantavas.
Apaguei-te em todas as fotos,
nos vídeos,
da porta da geladeira
e de cada pizza.

Não lembro do apelido que coloquei em ti,
da atriz com quem sonhavas,
do número do teu telefone,
do modo como rias ou arrotavas,
da força da tua mão,
das manias irritantes
não lembro.

Não há vazio nas lembranças,
não há nada,
pois, hoje, nunca fostes,
nunca estivesses,
nunca houve lugar em mim para ti.

Não há rancor,
pois não há rancor do que não é.

Deixaste de ser,
uma existência que sempre inexistiu,
um ninguém constante
e desde sempre ausente.

E em tudo em que um dia
foste presente
agora e desde sempre e para nunca mais
há nada,
há outro,
há mais de outra substância,
fonemas alma carne suspiros prosódia quadros.

Prezado amigo que não és,
nem sei para onde enviar
essa carta
sem destinatário.

(mc, 25109)

(fonte da foto)

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A impressão de sua alma a esse poema: