Author Archives: Francisco Nunes

About Francisco Nunes

O pretenso poeta que usa essa gaveta virtual.

carta de despedida

Prezado amigo que não está mais a meu lado,
não guardo mágoas,
mas arranquei de mim
todas as marcas
de tua passagem por minha vida.

Já não sei teu nome
nem as músicas desafinadas que cantavas.
Apaguei-te em todas as fotos,
nos vídeos,
da porta da geladeira
e de cada pizza.

Não lembro do apelido que coloquei em ti,
da atriz com quem sonhavas,
do número do teu telefone,
do modo como rias ou arrotavas,
da força da tua mão,
das manias irritantes
não lembro.

Não há vazio nas lembranças,
não há nada,
pois, hoje, nunca fostes,
nunca estivesses,
nunca houve lugar em mim para ti.

Não há rancor,
pois não há rancor do que não é.

Deixaste de ser,
uma existência que sempre inexistiu,
um ninguém constante
e desde sempre ausente.

E em tudo em que um dia
foste presente
agora e desde sempre e para nunca mais
há nada,
há outro,
há mais de outra substância,
fonemas alma carne suspiros prosódia quadros.

Prezado amigo que não és,
nem sei para onde enviar
essa carta
sem destinatário.

(mc, 25109)

(fonte da foto)

26 out 2009

a janela

janela

a janela me espia
com seus olhos de vidro
me invade, investiga, intimida
é transparente
vê tudo em mim
minha vergonha, meus segredos, meus fluidos

os olhos despudorados da janela
de vidro
me conhecem, me atravessam
dizem que sou o que não sei de mim
e olham sem parar
enrubesço
ameaço
corro rua abaixo
esbarro na vizinha gorda
e os olhos continuam me olhando
olhando, olhando, olhando
cada vez mais dentro de mim
minhas células
meus pensamentos perversos ocultos
mortes e cobiças e pêlos e fugas e ódios

e os vítreos vívidos volumosos olhos
de janela
contam pra toda rua
pro bairro e
pro mundo todo
o que viu vasculhando em mim
e ri com seu riso de veneziana
de mim
de meus íntimos guardados
          lacrados
          amaldiçoados
          feiosos
          lindos
sonhos e pecados
e sem pudor
sem dó
sem clemência
sem vergonha
grita e conta e canta e ri e declama e vomita

não posso mais sair à rua
sou visto e rido
sou visto e apontado e apedrejado
até os bêbados riem de mim
          e as prostitutas tão castas
          e os fantasmas do cemitério
          e os baderneiros na cadeia
          e as velhas carolas de duvidável virgindade
          e os cândidos estupradores
          e os padres podres
          e as inocentes crianças
todos riem e xingam e batem e fecham os olhos e jogam “ai, meu Deus!” aos céus
quando passo
não querem me ver
não querem se ver em mim
nas coisas que os olhos vidrosos contaram

sou o que todos são
mas sou o único que sou

e a maldita nojenta vidrante falosa linguarenta janela
realizada
vai dormir sossegada

amanhece despedaçada
seu sangue cacovidrado espalhado pela calçada
o tijolo
arma do crime
fez bem seu trabalho
jaz sorridente na alma da criminosa delatora

todos os meus segredos voltam para dentro de mim

(mc, 25109)

(foto: fonte desconhecida)

26 out 2009

menino

balao

o menino correu pela rua
atrás do balão cor de vida
e nunca mais voltou

e quando voltou
já não era menino
pois havia alcançado o balão

que estourou em suas mãos
feriu sua inocência
machucou sua alma de menino

e agora ele não corre mais
atrás dos sonhos-balão
só atrás do ganha-pão

do rouba-vida
do mata-sonho
do adeus-menino

(foto: autor desconhecido)

26 out 2009

tragédia

falling_again_by_leonadelioncourt

a mão se estendeu em direção
à outra mão
que não estava mais lá
escapava para o abismo
queda
tempo fluindo
vida fugindo
morte

a mão que ficou esboçou um aceno
e sufocou um grito
e socou o ar
e socou o chão
e contraiu-se de dor
e saltou
em busca da outra mão

(foto: autor desconhecido)

26 out 2009

a rosa

a rosa
caída
na calçada
é poema
que a chuva leva

a mão
pequena
molhada
das lágrimas
que olhos tristes
choviam
colheu
a rosa
trazida por
outra chuva

e os olhos
sorriram
com o poema
entre as mãos

(publicada em 26.10.09; atualizada em 11.2.18)

26 out 2009

fica comigo

fica comigo, moço,
aqui na calçada fria
fedorenta
em frente à loja de doces
dão água na boca
nunca comi
só sei o cheiro

fica comigo, moço,
aqui na noite escura
esquisita
sem gente na rua
acho que é o medo
das gentes sem alma que andam por aí

fica comigo, moço,
aqui na minha casa sem teto
do tamanho do mundo
por onde todo mundo
passa
e nem me vê

(fonte da foto)

26 out 2009

outro

a flor caída
observava triste e silenciosa
o amor que se ia
o adeus
a lágrima

a flor morreu
o amor morreu
a moça não morreu
mas encontrou outro amor
eterno e para sempre como o outro

(fonte da foto)

26 out 2009

ego

nunca
serei
o que nunca
deixei de ser

(fonte da foto)

26 out 2009