soneto do sono perdido

a última alegria que guardo
é da triste despedida
e, depois, a viagem incerta
tão imensa

na escura noite de solidão
a lua prateada me era por única companhia
na multidão que também ia
sem saber

nem me deixei chorar
de risos tantos que nunca tive
na plena felicidade que agora
era nunca mais

à noite, acordado no quarto frio,
abraço a lembrança em torno do travesseiro
e não sei mais se vivo ou desisto
de sonhar

(scs, 141216)

saudade

Saudade é a malvada dor
que o benfazejo amor
faz brotar pela ausência
e rega com a distância.

Ah, tenha dos saudosos clemência
e dá-nos, da presença, constância!

(scs, 151216)

tempo

o tempo corre, voa
escoa por entre os dedos
os medos
os segredos
os segundos
outros mundos
e já não é, foi-se, ontem
sempre tudo ontem não-mais
e vai-se
o hoje é uma constante espera
uma perene saudade

(scs, 29116)

sem título

considerava o horizonte
quando a saudade sumiu
no vento suave que sussurrava
uma nova vida

e lhe voltou o sorriso
sem o peso daqueles ontens
afastou-se lentamente da sepultura
as flores no chão como despedida

(scs, 4116)

chuva e saudade

tua
presença
chove
em
minha
saudade

chovem-me
as
saudades
desta
contínua
ausência

ausento-me
em
chuvas
de
saudade
chorosa

saudade
e
chuva
em
meus
olhos

saudosa
chuva
ecoa
abraços
ausentes
constantes

faz-me
chuva
saudosa
lembrança
de
amanhã

fluem
saudades
chovidas
sobre
olhos
secos

chuvas
antigas
inundadas
de
novas
saudades

saudades
antigas
uma
chuva
sem
fim

na
presente
chuva

toda
saudade

saudade
egoísta
tranca-se
na
nuvem
chuvosa

choram
saudosas
nuvens
em
doce
remorso


nuvens
sentem
saudade
da
chuva

notas
de
saudade
na
chuva
morna

noites
tontas
de
saudade
chovem
memórias

viam-se
saudosos
chuvas
intensas
nada
mais

tanta
saudade
chovida
em
cada
lágrima

ouvida
saudade
nas
gotas
tristes
chuvosas

vi-te
ainda
na
chuva
sem
fim

finda
chuva
foram-se
nuvens
perene
saudade