ainda a espera

a música não fez companhia
à voz rouca de silenciar

a luz pela janela mal escondida
encontrou mãos abandonadas

nenhum ruído amparava o sussurro
não-dito, envolto em tola esperança

os cabelos calados de movimento
eram um pedido ansioso na solidão

do mundo-seu desamparado em dor,
brancas paredes de más notícias

onde, no corredor? atrás de portas?
almas bondosas, mas frias, outras

transitam, apenas, fazem, dizem, somente,
e nada acalenta, afaga, ergue

a espera, então,
ainda a espera.

(scs, 19713)

poema inaugural

era numa página nova
que se derramava um novo poema
inascido
imaturo
repentino
um sossego despertado
na página nova
riscavam as mesmas letras
infundadas
madrugadoras
irrisórias
espalhadas como sementes
ou flores
ou túmulos
ninhos
(con)fundiam-se
num hino inaugural
de melodia surda e singela:
era o poema

(scs, 18613)