mãos brancas

A cena todo tinha um quê de angústia. Talvez fosse a música baixa, meio desafinada, com notas soltas ocasionais, inóspitas, como sussurros desesperados que escapavam ao silêncio. As cortinas fechadas, desbotadas, abandonadas sobre janelas de vidros quebrados, dobradiças enferrujadas, há muito sem uso. Havia ali uma angústia no ar, um aperto na garganta invisível que andava de um lado para outro.
O que era? Onde estava?
Parecia espalhar-se, como a poeira sobre os móveis, como o cheiro de mofo – uma névoa inexistente que enchia o vazio, expulsando todo ar puro, todo calor do Sol. Era um frio de alma, um desconforto de menino abandonado. Ninguém o apalparia, mas seria esmagado por ele tão logo entrasse na velha sala, um cemitério de veludo bordô, tachas de latão, poltronas de espaldar alto, teias e silêncio.
O Sol, preso lá fora, queria invadi-la, desvirginar sua viuvez, soprar vida sobre o espelho embaçado, que não olhava mais ninguém, de rugas profundas na prata escurecida; queria incendiar o frio de solidão; queria fazer as flores mortas no quadro da parede sorrirem de novo.
Mas as mãos brancas e frias sabiam daquela intenção. E mantinham as desbotadas cortinas mortas bem fechadas, condenando à solitária perene o Sol.

e mais outro

Nasci no milênio passado.
Nasci no século passado.
Já passei por cinqüenta décadas.
Já vivi meio século.
Já estou aqui há um vigésimo de milênio.

E quanto ainda há por viver,
passar,
estar!

(scs, a ser escrita em 21113)

setembro chove?

– Sim, tenho!
Chegaram hoje pela manhã, legítimos!
Brochoves da Bulgária, feitos com dardilan,
colhido logo cedo.
Precisa ter o orvalho da quinta-feira,
antes de ser tocado pelos filhotes de manitylu.
Tenho também pervinilhas do Peru,
feitas com a secreta receita milenar
dos tengueús –
dizem que o segredo do sabor adocicado
é o clinarey.
Mas se você quer outro presente
que não comidas exóticas,
tenho a lhe oferecer um casal de strinkênias:
são dóceis, comem apenas rembila, duas vezes ao dia,
procriam uma vez só a cada três anos,
numa noite de Lua minguante,
virados para Morplion.
Os mirifuns-de-pescoço-anelar também são um lindo presente,
desde que você não coloque o dedo
muito perto da boca deles.
Mas parece que ainda não é isso
que você quer.
Poderia lhe mostrar uma lindíssima
zentiena feita por 20 mulheres
indianas cegas do olho direito,
para não verem toda a receita,
que trabalham no escuro
no interior de um vulcão inativo
em Tyenming-xougnuay, no Himalaia.
Ou uma barra de dew-denw,
descoberta numa tumba cóskita,
mas perfeitamente conservada –
e sou o único a vender isso neste continente!
Então, o que você vai querer, menino?

O garoto saiu sem entender nada.
“Era pra ser uma piada!”

(scs, 18912)

máscara

uma máscara de fina pele
sem rugas
maquiada em tons discretos
com um humano sorriso encravado
ocultava a maldade
refinada
planejada

(scs, 24612)

amar-te

amar-te me fez doente
te amo insuportavelmente

amar-te é meu nutriente
te amo como um adolescente

amar-te me desruma do oriente
te amo ao sol aqui em frente

amo-te com um sonho impaciente,
mas amar-te mesmo: incipiente