modernidade

João Policarpo de Viana,
52 anos bem vividos,
de importância incomum para tantos,
vivia despreocupado
sem Twitter nem Face.
Ninguém sabia de sua existência.

paisagem tardia

Sentado na ampla varanda do apartamento
— muito grande, bem mobiliado,
com vista para tantos outros prédios
de apartamentos vastos,
que conseguem abrigar vastas solidões,
grandes famílias de pessoas desconhecidas —
olhava para o céu poluído,
sem pássaros,
arranhado pelo barulho de buzinas e mortes,
de crianças no parquinho de cimento-sem-árvores,
um céu sem nuvens, só fumaça, cinzento,
como a vida nos vastos apartamentos.

Levou a xícara de café frio e amargo aos lábios.
Sentiu gosto de fuligem, da vastidão do frio,
dos lábios que não estavam.

Parou o gesto no ar
sem pássaros, sem paixão.
A xícara tremeu um pouco
e foi descansada na mesinha sem pires.

Não havia mesinha nem pires
para um céu tão triste
e um vasto vazio tão amplo.

Só restava fechar os olhos
e esperar

(scs, 4612)

nuvem

a velha branca
de pele muito branca
com cabelos brancos
de alma cinza
usando a mesma blusinha rendada branca
calçando a sandália juvenil da neta branca
na cabeça a antiga tiara branca
na mão a bolsinha branca
– lá no céu, uma nuvem branca –
pintou a boca com o batom vermelho

(scs, 16912)