Monthly Archives: maio 2012

pedido numa noite fria

Posso entrar?
Estou com frio,
já três noites assim,
sem comida também,
sem onde dormir.

Posso entrar?
Não tenho para onde ir,
não tenho de onde vir,
não tenho lugar nesse mundo,
talvez no outro.

Posso entrar?
Não há mais carinho nas pessoas,
me olham sem dó,
com minha roupa suja
não sentem mais nada.
Só nojo.

Posso entrar?
Eu não queria ser assim,
estar aqui,
mas a vida, não sei porque,
me expulsou de casa
e me abandonou.

Posso entrar?
Não quero muito, não quero nada,
só um canto quente pra dormir,
um pouco de água pro rosto,
um prato de comida quente,
e, se houver sobrado,
um gesto de carinho.

Não posso?
Queria entender:
não cheiro mal,
sou gente ainda – eu acho que sim –,
digo “obrigada” e peço “por favor”,
não sou dada a roubar nem mentir.
Por que não posso entrar?

Vejo uma caixa ali, ao lado do fogão a lenha,
vejo uma tina de água sobre a mesa,
vejo comida farta no prato do pão:
nada pedi que V. Sa. não tenha
nem lhe faria falta.

Ah, sim! Agora entendo,
em seu rosto que se desvia,
em seus olhos que abaixam de vergonha:
pedi carinho,
coisa que pra gente como eu
não há.

(scs, 29412)

26 maio 2012

sem título

suspirosa
sua beleza de flor
efemerara
sua alegria de moça

25 maio 2012

tríade 9

manter os olhos
no convicto invisível
e não desistir.

25 maio 2012

tríade 8

conseguiria, enfim, dizer
o que sempre
emudecera sua voz?

25 maio 2012

tríade 7

em seu círculo
de antigas amizades
havia um amigo.

25 maio 2012

tríade 6

em águas profundas
a bela moça
afogou suas lágrimas.

25 maio 2012

tríade 5

o menino triste
correu pela rua
sorrindo como criança.

25 maio 2012

tríade 4

preciso viver como
se essa esperança
já houvesse morrido.

25 maio 2012

tríade 3

come sem pressa
comida sem sal
vivendo sem graça.

25 maio 2012

tríade 2

você me ouviu
quando lhe disse:
não lhe ouço?

25 maio 2012