contículo 14

Lá no alto da montanha-russa, na primeira vez em que andou nela, vendo toda a paisagem e sentindo um gostoso frio na barriga e as mãos geladas, o menino gritou: “Prefiro vermelho!” Nem ele entendeu.

contículo 11

Dois filhotinhos de fino pedigree muito bonitinhos e tosadinhos e banhadinhos com xampú importado destruíram o sofá novo de madame. Ela os mandou para a creche.

sem título

a criança não sabia
que podia sorrir
mesmo que o mundo lá fora
lhe fosse tão hostil.

nunca lhe disseram
que aquelas tristezas não eram dela
e, por isso,
não as precisava carregar, ombros frágeis.

ela nunca soube
que podia dizer não
e ainda continuar viva,
continuar criança, sem pressa
de não ser mais.

pedido numa noite fria

Posso entrar?
Estou com frio,
já três noites assim,
sem comida também,
sem onde dormir.

Posso entrar?
Não tenho para onde ir,
não tenho de onde vir,
não tenho lugar nesse mundo,
talvez no outro.

Posso entrar?
Não há mais carinho nas pessoas,
me olham sem dó,
com minha roupa suja
não sentem mais nada.
Só nojo.

Posso entrar?
Eu não queria ser assim,
estar aqui,
mas a vida, não sei porque,
me expulsou de casa
e me abandonou.

Posso entrar?
Não quero muito, não quero nada,
só um canto quente pra dormir,
um pouco de água pro rosto,
um prato de comida quente,
e, se houver sobrado,
um gesto de carinho.

Não posso?
Queria entender:
não cheiro mal,
sou gente ainda – eu acho que sim –,
digo “obrigada” e peço “por favor”,
não sou dada a roubar nem mentir.
Por que não posso entrar?

Vejo uma caixa ali, ao lado do fogão a lenha,
vejo uma tina de água sobre a mesa,
vejo comida farta no prato do pão:
nada pedi que V. Sa. não tenha
nem lhe faria falta.

Ah, sim! Agora entendo,
em seu rosto que se desvia,
em seus olhos que abaixam de vergonha:
pedi carinho,
coisa que pra gente como eu
não há.

(scs, 29412)