V

um V de sangue
que formava uma linha borrada
sumindo aos poucos
manchou minha camisa branca
no combate com tua fúria
sem sentido
sem sentir a dor
sem prumo
sangra apenas o V
e me faz sentir ainda
vivo

(scs,21212)

fim de tarde

Quantas poesias morreram
em mim
enquanto eu caminhava
de volta pra casa.
E ainda morrerão,
e delas sinto saudades —
nada sei delas,
apenas que, por um breve momento,
existiram.

(scs, 19412)

não havia

Não havia na ternura
senão esperança.
Não havia no sossego
senão ojeriza.
Não havia no pesadelo
senão lembranças.
Não havia no desatino
senão amor.
Não havia na amargura
senão felicidade.
Não havia no sorriso
senão súplica.
Não havia no amparo
senão suborno.
Não havia no desencanto
senão verdade.
Não havia no repouso
senão outro.
Não havia no invisível
senão ausência.
Não a via no quarto
senão remorso.