Monthly Archives: Janeiro 2012

anjos e baratas

Era um nome forte, que dizia que ela era uma mulher forte, sem medo, de enfrentar perigos e dificuldades sem tremer nem fugir. Durvalina. Talvez por ser parecido com Durval, nome de seu pai, que é nome de homem. Homem deve ser sempre forte, valente, que até vai atrás do problema só pra vencer o bicho. Sem medo.

Nada mais falso. Celina Durvalina tinha medo de tudo, principalmente de barata e de anjo. Que escândalo cada vez que vê uma barata! Aquela coisa marrom se movendo rápido deixa Celina Durvalina em pânico, louca, insana. Ela sobe na cadeira e, nem sabe porque, arranca a roupa e grita e grita até desmaiar, às vezes. Agora ela já sobe e desce da cadeira antes de desmaiar, pois uma vez caiu e foi parar no hospital. Quase morreu. Ela não entende: ela entende que a barata é pequena, quase nada perto dela, mas o monstro cheio de patas a mantém prisioneira, faz dela o que quer, ordena coisas impensáveis: gritar e arrancar a roupa.

E quando uma barata passou correndo sobre o pé de Durvalina? Por sorte o machado era muito grande e ela, muito desajeitada. Não conseguiu cortar o pé, mas gritou e arrancou a roupa e deixou o pé de molho na água quente com sabão três horas.

Baratas. São sinônimo de pânico, de desespero, de falta de ar. Muito medo de ser estrangulada por aquelas patinhas de serrote. Consegue sentir o cheiro delas e ouve seu barulhinho de correr em silêncio da luz. Por que Deus havia feito aquelas coisas que estalam e soltam gosma quando são pisadas? Nem mesmo morrem de modo decente, discreto, desnojento.

De anjo também. Muito medo. Pavor mesmo. Mas nunca viu nem sabe se existe. E morre de medo.

Celina Durvalina deveria ser forte, como exigia seu nome na certidão de nascimento registrada com data de cinco dias depois. Talvez ela fosse o outro recém-nascido do berçário. Trocas assim acontecem sempre, 32% mais no último ano. Ela não era aquele nome; então, ela não podia ser ela. Quem era, então?

Ela gostava da rima. Achava bonito ser chamada por todo ele. Celina era a parte delicada, fofinha, alguma coisa a ver com céu. Celina, sei lá. Mas, não entendia, todo mundo preferia Durvalina. Se ao menos fosse Lina. Alguns até preferiam Durva ou Durval. Ela tinha de ser forte. Ou pensavam que ela fosse. Não era. Tinha sempre muito medo. De muitas coisas.

Cada trovão um susto. A buzina de um carro fazia olhar quase atropelada para os lados. Todo latido era de um cachorro (lobo) raivoso pronto para estraçalhá-la sem oração. O choro da Viviana era sinal de que ela estava se engasgando, e lá ia ela correndo salvar a filha da comadre. E assim vivia, sempre assustada. Se perguntava por quanto tempo seu coração conseguiria suportar aquilo. “Vou morrer na próxima semana”, pensava toda semana.

Depois de limpar a cozinha, em lugar de tomar seu cafezinho bem doce ouvindo o programa das 14 horas no rádio, resolveu olhar um armário velho no quintal. Ele estava lá há muito tempo. Celina o via, mas nunca se animou de mexer nele, apesar de sua mania de limpeza. Mas agora achou que ele estava enfeiando o quintal, apesar dos vasos com flores em cima dele.

Olhou-o com calma, pensando se poderia oferecer algum perigo. De madeira, verde clarinho, desbotado e sujo, um puxador quebrado, uma chave que não impedia que fosse aberto por qualquer criança. Parecia inofensivo. Inerte.

Abriu as portas num ímpeto. A luz forte da tarde revelou umas roupas antigas, uma boneca quebrada, uma capa de revista mofada, um rato morto e baratas. Muitas. Antes de dar um salto imenso para trás, Celina Durvalina Fortes pensou ter contado um milhão delas ou muito mais.

Caiu de costas, batendo com o ombro no chão. A dor forte a impediu de começar a arrancar a roupa. A garganta se entupiu de desespero e nenhum grito pedindo ajuda saiu. O coração batia audivelmente e as baratas vinham em sua direção, como um exército implacável, abrindo suas alas de forma a cercá-la por todos os lados, com certeza para devorá-la viva. As patas de serrote marchavam com ritmo, declarando que seu fim estava próximo. E iriam roer sua roupa também.

De repente, uma luz forte, de um branco cristalino, azulada, em forma de espada, surgiu ao lado de Celina. Girou em redor dela, baixinho, rente ao chão, atingindo todas as baratas, até as da retaguarda do exército, cortando-as ao meio com um barulho metálico e de fogo. Nenhuma delas escapou. A espada, então, se ergueu sobre Celina, e ela viu uma mão robusta segurando-a e viu como se duas grandes asas, transparentes, de luz azulada também, se abrissem. E tudo sumiu. Celina estava sozinha, caída no meio do quintal, o armário com as portas abertas e nenhuma barata. Nenhum cadáver de barata. Nenhum sinal de que elas estiveram ali.

Durva é seu nome agora. Celina é passado, nome de quem tem medo de tudo. Durva não tem. Mata as baratas com rapidez, sem nojo nem dó. Até sorri ao ouvir o estalo e ver a gosma. Calou todos os lobos, xingou a comadre que não cuida direito da Viviana e canta enquanto ouve trovões. Só tem medo de anjo.

(scs, 21221011)

(fonte da foto)

28 jan 2012

Maria

rasguei as fotos
fugi de moto
corri feito rouco
gritei até ficar louco
me escondi da insana platéia
falei muito, mas não tenho idéia
do tema, do assunto, do dia,
mas não consigo te esquecer, Maria!

subi o morro correndo
roubei flores do cemitério tremendo
o ar poluído do rio respirei
e com olhos irritados chorei
não encontrei mais meu nome no armário
profanei templos, vomitei no vigário
e sem fôlego, queimando meu peito ardia –
só sei que não sei quem é você, Maria!

(scs, 31811)

28 jan 2012

os pássaros

nessa tarde não escrevi
como em outras tardes
e a poesia se foi
com a chuva
na imagem que os olhos piscaram
e mataram
sob o som ao sol
que deixou de ser e calou-a
e o resto de vida
numa pedra, no alto do edifício,
no encontro dos desconhecidos

e não há mais a tarde
sem tempo de ainda dizer os versos
soltos
que esvoaçam e se prendem
aos cabelos, ao papel, ao assobio desafinado
e como pássaros rebeldes e medrosos
não pousam onde deviam
não se deixam capturar

a tarde levou embora
todas as poesias
(talvez fosse uma só
tenra e frágil,
tenra tímida criatura da floresta,
tenra selvagem monstro voraz,
tenra dileta paisagem,
inesquecível amiga…)

(scs, 1311)

28 jan 2012

o primeiro retorno

para Márcio e Val

há dez anos
– na verdade, há dez minutos –

a longa espera se conclui
no fui-ali que espera no portão

o estranho que chega é
o que sempre esteve aqui sendo

e os gestos primeiros estreiam
os mesmos de ontem, presentes

o diálogo começa na pausa
em que ficou suspenso

sem nunca ter havido.
segue-se o fluir de continuarmos

e a mesma música inédita
que nos tem marcado a vida,

e o que lhes quisera contar ontem
sem nem antes os conhecer

e o motivo de riso
da alegria nas lágrimas comuns

a música com gosto de jabuticaba
a chuva-crepe no lago

o que aqui há que
não havia antes: o quadro?

sem pressa, é a volta
não, é o início

(24110)

28 jan 2012

além do

é como se,
sem pensar,
sem avisar,
sem causar espanto
e ser espantosamente impensável
aquele no espelho
de lá saísse
e viesse conversar
viver a vida fora do espelho
do lado de cá da imagem
refletida
e reflexo e refletido
co(n)vivem
e se mesclam e se confundem
e riem
ao mesmo tempo
e pensam o mesmo pensamento
a mesma cor
a mesma roupa em corpos distintos
um único olhar para o horizonte
mas será que eram dois?
que reflexo? quem refletido?
qual lado do espelho é este aqui?

(10119)

28 jan 2012

poesia

manso fluir de
luz
como riacho compondo sua
canção
sobre as
pedras

(sd)

28 jan 2012

sem título

como não podia deixar de ser
só deixaste de ser
o que nunca foste
o que nunca podias ter sido

22 jan 2012

65

minhas
dores
me
fazem
desagradável
companhia

22 jan 2012

64

volto
à
superfície,
outro
mergulho
infinito

22 jan 2012

63

conformada,
a
flor
se
deixa
arrancar

22 jan 2012