Monthly Archives: Janeiro 2010

parto

no repouso longo da caneta
a palavra se esconde
foge
sonolenta
sem memória
surda e sem voz

é convocada, exigida,
luta intensa
distração, fuga
rédea
suor
a falar

membros atrofiados, enrijecidos
dor ao menor esforço
distante lembrança do prazer
de manifestar-se.

mas a palavra gera palavra
que se traz à tona
e se desnuda e procria
e se alonga e se espalha
irradia luz e idéias e palavras

(scs, 19110)

30 jan 2010

o menino

o menino
perdido entre pernas tão altas
que colocam as bocas falantes lá no tão alto
quase nas nuvens do céu dos olhos do menino
tenta repetir
as palavras das bocas falantes que falam lá no alto
e seu sério empenho
em falar como falam os grandes
é recebido com risadas e aplausos e exageradas emoções
ele se sentiu ridículo
e desprezado
e estúpido
e se amaldiçoou
e se censurou severamente por querer agradar aos exigentes adultos
e se afastou das pernas e bocas e beijos babados
e nunca mais
falou

(mc, 12119)

30 jan 2010

na palavra muda

em cada olhar
o outro
partindo

nas costas apressadas
o nada
rugindo

no sonho roubado
a angústia
parindo

no gesto frio
a ausência
vingando

no aceno educado
o fim
chegando

no abraço morno
o asco
pingando

na não-lágrima
o eco
gritando

na mão moribunda
o quasar
apagando

na palavra muda
o silêncio
reinando

no suspiro aliviado
a partida
nascendo

no sorriso extinto
o brilho
morrendo

(mc, s/d)

30 jan 2010

cansaço

no corpo que agora tenho
tenho um cansaço sem fim
sem dor
sem prazer ou esperança

os dias se arrastam
a vida não passa
o sono
de todo tempo aqui

faz o desejo de paz
se agigantar, carência
tamanha
esgota as forças e os sonhos

no tempo de meu cansaço
sinto o sangue escorrer
vermelho
pelos poros e gotejar

sem pressa e sem pudor
aumentando o cansaço
falta de (l)ar
falta de razão pra continuar

cansado de ser, de ver,
de lançar os olhos à maré
crescente
as mãos descaídas escorrem

em direção à cova
ao húmus molhado
orvalho
repouso final por enquanto

o corpo na terra, na relva
olhar vazio de gozo
só nuvens
a mudar de lugar e sabor

e o mundo passa, vaga,
o corpo repousa sem dor
imóvel
o corpo e o húmus são o mesmo

o nada, o não-mais
nenhum fôlego ou lágrima
lamúria
despede-se da ausência e não é

ao final, o cansaço se vai
inexiste em suas entranhas
ser vazio
um corpo sem mais morador

(salvador, 9129)

22 jan 2010

escrever

É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.

(Mário Quintana)

21 jan 2010

flor

e da desesperança nasce a flor
sob o sol forte
debaixo da mão carinhosa
das lágrimas que regam
dos dias longos que não precisavam ter fim

sorri a flor nascida
onde nada podia ser
onde sua semente foi jogada
por um vento, um sopro, uma gota de sangue,
um acaso, Deus, uma decisão talvez

o solo árido foi rompido
vencida sua morte, seu desamparo
e, ainda suja de terra-placenta,
se ergue, esgueira, insiste
temerosa a flor

(aracaju, 12129)

02 jan 2010

dúvida

como saber
se não
e ser
sem
e como ter
pois
e ver
a menos
ou ainda reter
contanto que?

(mc, 26129)

02 jan 2010

chove

chove
o medo
encharca
a grama

chove
a tristeza
lava
o pátio

chove
a saliva
umedece
tua perna

chove
uma doçura
desce
do céu

chove
as lágrimas
molham
as mãos

chove
as nuvens
transmutam-se
em luzes

chove
o desespero
afoga-se
em lágrimas

chove
um mundo
some
em lama

(mc, 1110)

02 jan 2010