Não

nem o espelho o via
sem sombra,
seu espaço percorrido pelas pessoas
a chuva atravessa seu não-estar
o vento carrega folhas através de seu peito
ele não há

(mc, 1059)

Isabel, a forte

tinha medo de morrer
de viver
de partir
de mentir

de cochilar
de se abalar
de desilusão
de mel no pão

de ficar muito louca
da coberta ser pouca
de emagrecer
de não se ver

de partidas
de queridas
de tempestade
de tola saudade

de dizer bobagem
de ser só bagagem
de voltar a ser
de enriquecer

da vizinha
da galinha
do sapateiro
do juazeiro

do padre vil
do louco tio
da casa escura
da cama dura

do novo ano
de seu fulano
do remédio
de seu tédio

de não respirar
de muito amar
dessa solidão
daquela canção

das novas dores
dos sem-sabores
da luz cheia
de nua e feia

do pesadelo
do fim do novelo
de todas as prestações
das quatro estações

do prédio a ruir
do banguela a sorrir
da perna inchada
da criança mimada

do pêlo eriçado
do castelo encantado
do fim de tarde
do beijo que arde

de ter de perdoar
de ter de só lembrar
das anotações
das exclamações

do efisema
do teorema
do último cigarro
da morte no carro

de câncer no estômago
da dor oculta no âmago
do silêncio à noite
da voz qual açoite

de escrever no caderno
de cochichar ao Eterno
de quebrar o giz
de nunca ter sido feliz

de cometer erros
de engolir berros
de cair da cadeira
de não ter maneira

de não lembrar mais
de chorar demais
de não existir
de ter de insistir

de morrer no açude
de quebrar o alaúde
de ao chão tombar
e não querer levantar

de dor de barriga
de intriga da amiga
daquela dura lembrança
de não poder ser criança

do nome ser esquecido
de só ter pão amanhecido
da nuvem escura
da virgem impura

de conta-gotas
de mãos postas
de se despedir de mim
da alegria sem fim

de escurecer
de me entrever
de sair da cama
de deixar a quem ama

de castelo de areia
da brisa fagueira
da noite sem sono
das folhas no outono

do parente distante
do silêncio oscilante
de desfazer-se em pó
de continuar sendo só

seu nome era Isabel, a forte
mesmo tendo medos
— até da morte —
saía cedo da cama todo dia
e descia a rua assobiando
sua assustada alegria

a rosa

era uma rosa
nem a mais bela entre muitas rosas
mas era aquela, a deleitosa
de perfume desbotada
pétalas maltratadas
sedenta
– que ao amor afugenta –
nem a mais cobiçada
nem outra rosa
mas aquela, feiosa
a que escolhi
a que me escolheu
– ao vê-la, desvaneci
a angústia que era eu –
a que se desencantou
a que me enterneceu
àquela a quem meu coração falou
como nunca falou a rosa alguma

de coisas tristes
de meros e amores
de alternativas loucas
do sorriso que espuma
de dedos em riste
de noites e flores
de angústias tão poucas

falamos madrugada afora
reinventando os sonhos da não-manhã
as pétalas tão pouco viçosas
se alegravam como se houvesse orvalho
nosso silêncio, de uma paixão sonora
com as mãos de inventada tecelã
bordava eternidades na langorosa
flor, sem sombras nem farfalho

e aquela rosa
não a mais assombrosa rosa
ouviu-me com sua atenção de pétalas
e tocou-me
com sua ternura de espinhos
no canto do jardim onde sozinho
ela amou-me
confessando seus segredos de pérolas
ela, que já não era flor medrosa
ela, a única e sempre rosa

(scs, ?,21918)