De risos e morte

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o homem,
de tão feliz,
ria sozinho noite afora
sem se importar
com os que
dormiam de tristeza
com as janelas fechadas
com o coração frio

e ria sua alegria desinteressada
pelas ruas e jardins
sem nem notar
a chuva que chorava
as mágoas de toda a cidade

ia rindo sua alegria descabida
pelas ruínas do velho casarão
de tantas memórias sombrias
e pelos corredores do hospital
de aleijados e parturientes
que pensaram, por um instante,
que podiam também rir

e seguia rindo ao lado do rio
entre homens magros e famintos
e mulheres exploradas (hematomas)
e crianças ranhentas jogando futebol
sem sorriso

e seu riso gostoso, intenso,
quase imoral
inquietou o ancião, que lhe jogou uma pedra e um deboche,
mas uma criança sorriu
uma mulher sacudiu-se rindo com a agulha na mão
um homem dançou com a muleta
a jovem na janela fechada ficou pensando se poderia…

sua insana viagem seguia;
dele, o homem que sorria,
a risada já ia longe
poluindo com sua leveza o ar de chumbo
daquela cidade mórbida:

deixava para trás
irados homens sórdidos
escandalizadas senhoras carolas que emudeceram o riso e a fé
muitos indiferentes transeuntes que não sabiam se estavam vivos
e
dois ou três loucos
que continuavam rindo e indo
enquanto a morte os perseguia
na cidade que morria

(scs, 13913)

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