Poesia

A carta

Não queria terminar mais um dia
sem escrever-te uma carta longa
nas folhas da calçada
e enviá-la pela mão suja do carvoeiro.

Vou contar-te do último mês:
nele a vida pareceu não passar,
surgindo comum sobre a mesa cada manhã,
sem respeito pelos dias de outrora.

E também não houve novena
nem colheita nem partos.
Parece que as vizinhas morreram
e as fofocas cessaram. O mundo esperava.

Lembrei-me de você certa manhã,
pois o dia estava quente e a árvore
fazia uma sombra envergonhada
no chão do meu quarto

e me fez pensar em sorrir
ou em correr para fora sem rumo,
como se fosse encontrar outra vida
ou as respostas no campo dos girassóis.

Então a sombra só me disse
para esperar um dia mais e outro.
E ainda não houve novidades
e chegou mais um final de tarde. Fim.

E foi mais ou menos assim
o mês, contado em dias comuns,
em horas tristes e cantos noturnos
de pássaros ocultos e esperançosos.

Tentei encontrar uma lembrança,
uma notícia importante a contar ou
algum recado da alma que
deveria te dar – uma anotação qualquer,

mas não encontrei nada e
revirei os baús e os canteiros
e nada senão a mesmice e ontem
e uma só sempre igual passagem de tempo

que você conhece tão bem: por isso
foi embora. E levou nas malas
a única alegria que havia por aqui,
mais bela que a nascente do riacho

– ele mesmo parece ter perdido a vontade
de cantar em meio às pedras.
A despedida é sempre uma dor
imensa que o coração tem de sofrer,

e a distância faz da lembrança que se tem
uma imagem que vai se desvanecendo
como o orvalho nas pedras
quando o Sol se acende pela manhã.

Então, pensei que te escrever, amigo,
pudesse manter por mais tempo escondido
o Sol e te manter, orvalho, mais
tempo comigo cada manhã.

Mas não parece funcionar…
Te vejo cada vez mais distante,
figura irreconhecível no cimo do morro
lá muito ao longe. Sei que é uma pessoa,

mas não vejo o rosto, a doçura do sorriso,
o que dizem os olhos, o suor na testa.
Te escrevo como quem sacode
a mulher que desmaia ou o recém-falecido,

querendo trazer de volta, impedindo a morte,
recusando-se a aceitar que a vida se vai,
que leva em sua saia o que se tem de
mais precioso e doce e amável.

Acho que a carta devo mandá-la
pra mim mesmo, pra me lembrar
que um dia você esteve aqui comigo
e viveu comigo minha vida e foi

parte dela. Preciso ler isso pra voltar
a ser quem já não sou e me reencontrar
na certeza de que você não é uma mera
invenção de minha alma sempre tão só.

Sim, você nunca vai saber que escrevi.
É melhor assim. Talvez eu lhe seja
um cadáver voltando do além
para assombrar seus dias agora felizes,

e só quero poder viver aqui, debaixo da
árvore que ainda é tímida
e vendo a vida sem novidades
passar por mim todo finito dia.

Não há porque desperdiçar as folhas da calçada
nem porque incomodar o bondoso carvoeiro.
Vou poupar minha caneta, vou guardar minhas palavras,
vou só rabiscar no ar umas sílabas soltas

de despedida que ninguém lerá.
Desta vez, para sempre.
E quando o Sol terminar de secar
o orvalho
só restará a pedra.
Eu.

(scs, 8311)

26 jun 2011

Apenas

Ouço apenas
o silêncio
de ouvidos mudos
da boca surda
ao desabrigo do lamento
à solidão da dor.

(scs, 41110)

04 nov 2010

Bosque

não havia na dor o adeus
só uma lembrança
um suspiro impensado
e no gesto apagado
não havia mais o sopro
nos cabelos molhados
somente do sonho
a sensação do fim
e a paisagem, o bosque
se desvanece e
fica o toque, a marca
dos dedos delicados
e os passos vão se afastando
sem pressa
levando consigo o aroma
a presença que não está.
sopra um vento suave nas folhas

(scs, 21710)

30 set 2010

vertigem

não te sei do olho senão a vertigem
onde te penso noite
a fina e epidérmica fuligem
consome qual açoite

e não mais te vejo senão em saudade
como a bruma que passa
roçam as mãos e ferem-me com maldade
fica o riso sem graça

nem mesmo canto minha dor no lago
não ouço o calmo jardim
falta o torpe laço e o afago
sem perfume a aurora e o jasmim

(sc, sd)

24 abr 2010

reflexo

não sei onde vi a respeito de mim
em que livro, folha, pedra ou marfim
havia lá desse eu um retrato
sem cor nem forma, nem um acato

a descrição era imprecisa
mas detalhada e mui concisa
os olhos baços que me fitavam
se escondiam de dor e choravam

pareceu-me também ouvir vozes
como flechas de fogo velozes
luzindo à noite e incendiando
os campos, os meus sonhos matando

e de novo vejo a antiga imagem
refletida em pó e serragem
não sou eu! quem estará, quem, ali
me sondando? quem será que me vi?

(scs, 17210)

10 mar 2010

ah, filhos

a kairós, talita e calebe

filhos, ah, filhos!
há tanto tempo estão comigo
e tão pouco tempo
com vocês passei
e era tão pouco o pouco
que me pediam

podia? sim!
filhos, ah, filhos…

há filhos por todos os lados,
uma multidão deles
pelos cantos
entrando pelas frestas
esgueirando-se pela fechadura
são muitos, centenas
de vozes e opiniões e risos e desenhos e conselhos
dezenas são
eles três

ah, filhos… concebidos com carinho
desnutridos deles
ainda há tempo?

a filhos se deve tempo —
todos eles são filhos únicos
cada um é o mais velho
cada um um universo múltiplo, complexo, único
divertido —
de presença, de silêncio, de olhar compreensivo
de olhar cúmplice
tempo de não deixar o tempo passar
sem marcas
sem coisas inesquecíveis
sem fotografias impressas na alma

ah, filhos!
todos os tantos que são
nos poucos que são:
quanto já andaram
quanto já se tornaram
quanto já não são mais a última vez que os (ou)vi

e já são tão mais eu e ela
e tão mais eles mesmos
com erros novos, inéditos
e dores de família
e angústias na alma pequena
e segredos que mamãe não pode mais saber

e por isso quase os desconheço
como se não houvesse neles minhas entranhas
minha alma, meu hálito

e tudo isso aconteceu
em tão pouco tempo
no tanto tempo que se passou

ah, filhos!
podem me perdoar
o modo ainda por descobrir
de amar vocês?

(scs, 310110)

15 fev 2010

mudança

parte de mim em caixas
em parte de mim te encaixas
parte de mim ocupas
parte de mim, culpas
em parte de mim, nada
partes de mim, e mais nada

(scs, 23110)

15 fev 2010

chuva

uma gota de chuva
é assim
um beijo descuidado
que o céu dá na terra

20 nov 2009

espelho

a criança se olha no espelho
e se vê adulta
no mundo de depois:
deveres, salário, contas,
voto, despertador, hospital,
decisões, atas, encanador,
promoção, tese, fumaça,
engarrafamento, dilema, solidão.

a criança quebra o espelho
e vai brincar lá fora.

(mc, 2599)

(fonte da foto)

Este poema foi um dos vencedores do concurso Poemas no ônibus, da Prefeitura de Porto Alegre. Veja aqui.
Em breve, atualizo as informações e lanço um concurso pros leitores.

18 nov 2009