Poesia

declaração

tua ternura crassa
me perfuma

teu sussurro frondoso
me intensifica

teu aceno ínfimo
me resolve

teu olhar boreal
me vasculha

teu conselho inaudito
me assegura

teus passos epidérmicos
nos assumem

teu conflito incolor
me espelha

teu relevo inverso
me desconcerta

teu convite enfermo
me imagina

teu sorriso caudaloso
me acalenta

teu pensamento translúcido
me germina

teu segredo ensurdecedor
me desmorona

tua inocência rígida
me transtorna

teu abraço oceânico
me embala

tua alvura ambígua
me comove

tua sombra noturna
me abriga

tua fadiga majestosa
me seduz

tua humildade imponente
me renasce

teu aroma transcrito
me ignora

tua solidão inacabada
me completa

tua visão absorta
me convulsiona

teus suspiros alarmados
me fazem companhia

11 jan 2017

silêncio

desenhei um silêncio tão grande
que mal coube na palma do papel
escorreu entre os dedos
e pingou no ar
manchando a nuvem que passava
grávida de chuvas

agora, ela chora rostos sem sorrisos

(scs, 19516)

10 jan 2017

nós

contudo
eis aí você, tão única,
como se fôssemos ainda os mesmos
e não só
outros

(scs, sd)

10 jan 2017

perda

outros tantos são
os sabores dessa ausência

os mesmos sonhos nos
visitam desde a infância

nem sempre lembramos do
que fomos, à distância

sabemos, tão tolos,
dos risos da demência

querendo de volta, logo,
cada parte de nossa substância

para sempre perdida
na alegre inexistência

(scs, 61216)

09 jan 2017

definição

sou a soma
de mim
e mais nada

09 jan 2017

soneto do sono perdido

a última alegria que guardo
é da triste despedida
e, depois, a viagem incerta
tão imensa

na escura noite de solidão
a lua prateada me era por única companhia
na multidão que também ia
sem saber

nem me deixei chorar
de risos tantos que nunca tive
na plena felicidade que agora
era nunca mais

à noite, acordado no quarto frio,
abraço a lembrança em torno do travesseiro
e não sei mais se vivo ou desisto
de sonhar

(scs, 141216)

17 dez 2016

saudade

Saudade é a malvada dor
que o benfazejo amor
faz brotar pela ausência
e rega com a distância.

Ah, tenha dos saudosos clemência
e dá-nos, da presença, constância!

(scs, 151216)

16 dez 2016

tempo

o tempo corre, voa
escoa por entre os dedos
os medos
os segredos
os segundos
outros mundos
e já não é, foi-se, ontem
sempre tudo ontem não-mais
e vai-se
o hoje é uma constante espera
uma perene saudade

(scs, 29116)

09 dez 2016

sem título

considerava o horizonte
quando a saudade sumiu
no vento suave que sussurrava
uma nova vida

e lhe voltou o sorriso
sem o peso daqueles ontens
afastou-se lentamente da sepultura
as flores no chão como despedida

(scs, 4116)

09 dez 2016

sem título

ah!
a solidão dos silêncios
num dia de tanta felicidade

e tudo o que há é esse vazio

embalado por teu carinho
e nossa música

03 dez 2016