Poesia

encontro

encontrei na rua deserta
um cão perdido
triste
olhei-o olhou-me
triste
deixou-me
perdido segui(u)

(scs, 19317)

09 jun 2017

paixão de inverno

eu me deixei
nevar
por teu sorriso
e nunca mais
me senti tão
sol

(scs, 191216)

09 jun 2017

sem título

a morte me deve explicações
mas é covarde
foge sempre

09 jun 2017

sem título

amor
indolor
não existe
mas quem resiste
a desejar
e esperar
um amor assim:
só pra mim?

(scs, 28414)

07 maio 2017

sem título

eu preciso
de ti
de modo
preciso
cirúrgico
litúrgico

(sc, 28414)

07 maio 2017

Manhã

Ela acordava sempre profunda, solene, vendo
o que havia sob.
Pressentia invisíveis superfícies, arranhadas
de poeira cotidiana, uma falsa paz,
o silêncio corrompido de tédio e omissão.

Não.

O modo outro é que tinha de ser,
a revolução, o confronto de nariz na parede
– o sangue a escorrer impoluto, arrastando
verdades dores libertação espelhos –
resgatando dos escombros a vida
desatinadamente necessária
disposta a mais um dia

(scs, 18215, 33 anos depois)

18 abr 2017

mais finito

depois, acenou com amor
uma despedida sem fim
enquanto o ônibus sumia na estrada

permaneceu como se seu olhar
pudesse trazê-lo de volta estar com ele
e já era só uma estrada vazia

e a vida agora era vazia
de uma saudade dolorida dos abraços tantos
e do abrigo entre eles
de promessas impossíveis
– mas o que importava eram só eles dois

então: veio a despedida
e ela ali acenando a quem já não havia
um coração desfalecido
a vida desocupada de razão
– tudo parecia mais finito que a estrada
infinita que os distanciava

– Mãe, vamo pra casa! Tô cansado…

não era possível viver de outro modo

(sc, sd)

18 abr 2017

De risos e morte

o homem,
de tão feliz,
ria sozinho noite afora
sem se importar
com os que
dormiam de tristeza
com as janelas fechadas
com o coração frio

e ria sua alegria desinteressada
pelas ruas e jardins
sem nem notar
a chuva que chorava
as mágoas de toda a cidade

ia rindo sua alegria descabida
pelas ruínas do velho casarão
de tantas memórias sombrias
e pelos corredores do hospital
de aleijados e parturientes
que pensaram, por um instante,
que podiam também rir

e seguia rindo ao lado do rio
entre homens magros e famintos
e mulheres exploradas (hematomas)
e crianças ranhentas jogando futebol
sem sorriso

e seu riso gostoso, intenso,
quase imoral
inquietou o ancião, que lhe jogou uma pedra e um deboche,
mas uma criança sorriu
uma mulher sacudiu-se rindo com a agulha na mão
um homem dançou com a muleta
a jovem na janela fechada ficou pensando se poderia…

sua insana viagem seguia;
dele, o homem que sorria,
a risada já ia longe
poluindo com sua leveza o ar de chumbo
daquela cidade mórbida:

deixava para trás
irados homens sórdidos
escandalizadas senhoras carolas que emudeceram o riso e a fé
muitos indiferentes transeuntes que não sabiam se estavam vivos
e
dois ou três loucos
que continuavam rindo e indo
enquanto a morte os perseguia
na cidade que morria

(scs, 13913)

02 abr 2017

sem título

ouvindo a sussurrada canção
no meio da manhã
escapou-me um sonho das mãos
e, sem receio,
um adeus

(sd)

20 fev 2017

nove

susss
piro
suss
urro
sus
penso
imenso
descubro
inspiro

19 fev 2017