Crônica de outros

Sobre maneiras de viver (Larissa Caramel)

Porque não vale à pena tentar calçar sapatos que não cabem em seus pés.
Quando verdadeiros, nunca seremos mais que pessoas diferentes.

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Nós escolhemos como encarar a vida:

Podemos levar tudo como se estivéssemos a passeio, ou podemos levar a sério o que resolvermos fazer por aqui. Não vou dizer como você deve viver a sua vida, pois cada um sabe a que veio, e se não sabe é porque assim escolheu.

Eu descobri que o modo passeio não funciona para mim. Sei que perdi muita coisa boa e espontânea que poderia ter vivido, mas todas as minhas tentativas de ser imatura sempre foram forçadas desde que me conheço por gente.
Então ao invés de tentar viver essa vida jovem e desprendida resolvi assumir minha velhice precoce e entediada, praticamente (completamente) sem amigos e dedicada a aprender coisas que interessam a quase ninguém, e não me envergonhar mais por meu jeito chato de ser. Chato mesmo porque eu nunca fui e nunca serei o tipo de gente excitante e interessante que atrai atenções.

Apesar de sempre ter procurado aprovação e atenção, hoje sei que o que preciso de verdade é de equilíbrio. Equilíbrio de humores, emoções, atitudes. Aprendi que tentar ter milhões de amigos e histórias para contar não fará com que eu me sinta em paz. Porque é de paz que preciso, e tentar ser alguém diferente não me trará isso.
Por fim não há nada de errado em sermos quem somos e sermos diferentes, não no sentido em que a mídia tornou moda, mas realmente diferentes do que é esperado.

Afinal de contas, não estamos aqui para satisfazer expectativas alheias. Estamos aqui para irmos ao encontro do que esperamos e planejamos para nós mesmos, independente da maneira como escolhemos chegar até lá.

Fonte

27 maio 2012

O mistério da poesia (Rubem Braga)

“Não sei o nome desse poeta, acho que boliviano; apenas lhe conheço um poema, ensinado por um amigo. E só guardei os primeiros versos: ‘Trabajar era bueno en el sur… Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos’.
E tendo guardado esses dois versos tão simples, aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia.

O poema era grande, mas foram essas palavras que me emocionaram. Lembro-me delas às vezes, numa viagem; quando estou aborrecido, tenho notado que as murmuro para mim mesmo, de vez em quando, nesses momentos de tédio urbano. E elas produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de quê.

Lembrei-me agora mesmo, no instante em que abria a máquina para trabalhar nessa coisa vã e cansativa que é fazer crônica.

De onde vem o efeito poético? É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não é apenas do sentido. Se ele dissesse: ‘Era bueno trabajar en el sur’ não creio que o poema pudesse me impressionar. Se no lugar de usar o infinito do verbo ‘cortar’ e do verbo ‘hacer’ usasse o passado, creio que isso enfraqueceria tudo. Penso no ritmo; ele sozinho não dá para explicar nada. Além disso, as palavras usadas são, rigorosamente, das mais banais da língua. Reparem que tudo está dito como os elementos mais simples: ‘trabajar, era bueno, sur, cortar, árboles, hacer canoas, troncos’.

Isso me lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueiras de nossa língua:

‘A grande dor das coisas que passaram’.

Talvez o que impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia. Nesse poema sul-americano a idéia da canoa é também um motivo de emoção.

Não há coisa mais simples e primitiva que uma canoa feita de um tronco de árvore; e acontece que muitas vezes a canoa é de uma grande beleza plástica. E de repente me ocorre que talvez esses versos me emocionem particularmente por causa de uma infância de beira-rio e de beira-mar. Mas não pode ser: o principal sentido dos versos é o do trabalho; um trabalho que era bom, não essa ‘necessidade aborrecida’ de hoje. Desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez.

Fala-se muito em mistério poético; e não faltam poetas modernos que procurem esse mistério enunciando coisas obscuras, o que dá margem a muito equívoco e muita bobagem. Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem mais profundas…”.

Rubem Braga
Fevereiro, 1949

Fonte

27 maio 2012