Conto

Outras areias

– Acho que era principalmente por causa daquele seu jeito particuloso. Não havia o que lhe chamasse a atenção quando não queria, quando tava lá sumida naquele mundo seu só dela.
– Nem os amigos, próximos?
– Não, nem. Era uma mudeza, de olhos, que ninguém entrava, fazia parte. Mesmo que chamando o nome dela, não respondia se tava no lá longe dentro-de-si. Como podia? No início, todo mundo se incomodava, gritava até, xingava ela. Achavam que era desrespeitante, um modo… Então, com aquele seu sorriso branco, de frescor da tarde, de uma calma de coração que era tanta, tudo se acalmava. A gente não entendia, mas parecia entendê. Aceitava. Ficava tudo bem. Aos dispois, já nem mais perturbava mais ninguém já conhecido. Era o jeito dela, era ela assim. Desse modo, assinzinho. Então, não tinha razão de irritá. Mais era aprendê a aproveitá a companhia, a presença, a sabedoria, a doçura. Quando falava, ah!, ficava o povo tudo quieto! Daquela boca miúda, desenhadinha de pintura, brotava coisa que ninguém imaginava donde vinha! Ela desenrolava os problema mais enroscado, os causo de família, aqueles assunto que ficava no escondido do coração que nem a pessoa sabia que tinha. Os velho aceitava, as criança entendia, os mais ignorante não tinha dificuldade na compreensão das coisa. Ela falava na medida que se precisava, sem sobrança de palavra, sem enfeitamento de gramática. Só o exato. Como uma faca bem afiada, cortando e chegando no miolo, no tutano. Nunca carecia de erguer a voz, de exaltar no tom. Só mesmo a fala mansinha…
– Mas teve o sumiço?
– Ah! Foi uma comoção sem tamanho! Naquela manhã, parecia tê um… uma coisa ruim no ar. Alguém comentô que os passarinho não tava cantando. A estranheza que não se sabia o quê. Tinha um trem apertano o estômago de todo mundo, um desatino na cabeça. Mas só aos dispois é que a gente se apercebeu disso tudo. Quando viu que ela tinha sumido. Como? O quarto pequenino dela continuava fechado por dentro, e já passava umas hora que ela não aparecia – tiveram de arrombá a porta com pé-de-cabra e ombro. Lá dentro, tudo igual: ordeiro, perfumado, os lençol esticado, o vaso com flor do campo. Em cima da mesinha, uma folha de papel com um desenho lindo de uma paisagem, vista duma praia deserta que tinha uma moça sozinha caminhando. A moça do desenho era ela mesma! Pequeninha, mas dava pra sabê que era ela: os cabelo ruivo claro no vento, o vestido comprido branco que ela gostava muito, o jeito de segurá as sandália que tinha… Um assombro, porque ninguém nunca sabia que ela desenhava! Fazia muito bordado, crochê, costura, mas desenho?! E, num canto do papel, escrito com a pena que tava ao lado, ainda molhada de tinta, com a letra redonda de professora dela, umas palavra de oculto significado: Imaginei outras areias, ei-las, mas os passos vacilam.

– E depois?
– Procuremo ela por todo canto. A vila toda saiu na busca. Não tinha explicação, não tinha rastro nenhum, ninguém não tinha visto nada. Como era muito conhecida, não tinha como alguém não sabê que era ela. Mas sumiu. Assim. Dum quarto fechado, sem tê como. Era uma pessoa como que nunca tinha existido ali. A vida de tudo nós ficou uma tristeza que só. Não tinham vontade de comê, de estudá e cartilha, de ordenhá as vaca nem brincá no galpão. Até as moça que tinha inveja dela, por causa da beleza, se arrependia e sofria. Foi um fim. A vila toda ficou de luto, abatida na tristeza, silenciosa.
– Pra sempre?
– Cabo duns seis mês ou mais um pouco, era um domingo de manhã, invernoso, mas não tava frio, como era de costume por aqui. Ninguém ainda tinha notado isso, quando a gente ouviu. Primeiro, foi um passarinho que não canta nessa época. Depois… a mesma vozinha doce, amorosa, de embalá bebê, que cantava as beleza da terra, dos sonho do povo, dumas esperança de céu e paz, com umas palavra nova, nunca de ouvida… A mesma vozinha que acordava os dia, a fazenda. Era ela! Corremo pro quarto dela, donde vinha a voz, coração aflito, alegre, animado, se perguntano. Linda como sempre, o olhar de criança, o sorriso de gente que ama: ela tinha voltado! Tava saindo do quarto, nem ficou surpresa com nós tudo olhando prela com aquelas cara espantada. Pareceu não vê nada de diferente, pareceu que não tinha acontecido nada demais. Deu um beijo em cada um de nós e foi pra cozinha, prepará o café.
– E assim?
– Fiquemo sem sabê o que fazê. Se olhemo, fiquemo com medo de estragá a alegria dela tê voltado, não sabia o que dizê. Uns até se beliscô, se achando em sonho. E num era. Então, esperemo um outro momento do dia, outra hora mais no molde de fazê inquirição. Mas o dia foi se passando, os pessoal foi sabendo, veio visitá… e quando via ela, ninguém tinha de coragem de perguntá nada. As pergunta ensaiada morria na garganta, sumia num só. Se virava só na alegria dela tá ali, vivinha, de volta. Não sei. Parecia que a presença dela, ressurgida, já explicava tudo, já dizia que tava tudo bem, que o mais importante era aquilo dali, ela e nós de novo junto.
– Mas no depois?
– Nada. Nunca falemo no assunto. Nunca subemo onde que ela teve aqueles seis mês. Ele nunca falô nada, nunca se explicô. Parecia até que ela nem sabia que tinha se ido. A gente só sabia que tinha alguma coisa bem forte, misterienta.
– Por quê?
– Porque ela nunca mais teve aquele olhar particuloso, de se perder em pensamento, como se não tivesse com a gente. Seu olhar era… diferente, mais amplo, sossegado. Parecia tê achado uma resposta, o fim. Foi desse modo que minha filha, Sibele, sumiu e retornou.

Silenciou um instante, olhou para o lado como se buscasse uma lembrança que teimava em fugir.

– Sabe –, retomou falando devagar –, uma coisa… Na hora, a gente nem deu atenção, mas… outro mistério. Na sandália dela tinha uma areia muito fininha. No outro dia, ela tinha colocado a areia num vidrinho, de perfume vazio, que agora fica sobre a mesinha. Vez que outra, eu chego de mansinho no quarto e vejo ela olhando pro vidrinho, quieta, sem se mexer, sem saber que o resto do mundo existe ainda. Aquele antigo olhar…

(scs, 30714)

Salvar

Salvar

18 abr 2017

o suco

Seleção_010Trazia por nome Daniel. Como aquele que não teve medo de leões. Não tinha. Mesmo não conhecendo. Os tratos tantos do mundo lhe asseguravam.
Era um rosto sem sorriso nem palavras. No olhar, uma paz amarga bem assentada; o amanhã não era longe nem assustava. A pele marcada das muitas madrugadas em que o sono era só lembrança,
a testa sombria do peso imenso presenteado pelos muitos ontens. As mãos grandes, sulcadas da lida no campo, esboçavam um caminho ocasional, mas nunca permitido. Secavam as poucas lágrimas que raramente fugiam. O cabelo grisalho que o vento levantava sem esforço dizia que existia há muito, por dias infindáveis.
Sentado à sombra da árvore, tão solitária no vasto mundo como ele, mordia lento a fruta doce, o sumo pingando pelo canto da boca não incomodava. O dulçor ácido lembrava que nem tudo fora sempre desamparo. Mastigava sem vigor, desfrutando da polpa macia, os olhos repousados no lá longe, numa nuvem pequena no horizonte. Única nos céus. Tudo falava de ser só.
O ambiente era silêncio. Nem vento soava nas muitas folhas, pássaros emudecidos voavam distantes, o riacho fugia sem voz. A multidão de seus pensamentos gritava em sua mudez. Tantas coisas, mementos, o passado que podia ter sido, o que não queria, tudo que teve de, o dia aquele… As idéias giravam, gritavam, coloriam, riam, zombavam, se desvaneciam uma antes da outra e também depois, deixando tudo mais confuso e vazio, sem gosto, como se nunca estivessem ali.
Novo naco da fruta. O único barulho era aquele.
Piscou os olhos com força, como se isso o mantivesse vivo e afastasse os leões, os que não havia, mas existiam por ali, querendo tragá-lo, andando ao redor de dentro dele. Funcionou. Eles se afastaram por uns dias, talvez. O suco doce seco no braço atraiu uma abelha, zunindo de encher os ares, um som imenso de vida inquieta.
Mal teve tempo de lhe voltar os olhos e um sorriso minguado lhe escapuliu dos lábios. Logo morreu, não sem antes germinar-se em esperança.
Ficou ali, assim, agora pálpebras fechadas, vendo só com a alma.
Arrastava pela vida o nome de Daniel. Não sem luto ou desespero. Teimosia de viver. O suco.

(poa, 151214)

05 jan 2015

Linda

– Desvivo precário.

– Ainda a dor? –, perguntei o mais suavemente possível, depois de pensar por uns instantes. O que dizer? Queria de ajudá-lo, mas tinha medo de não compreendê-lo e sua dor, ainda.

Ele ergueu a cabeça, os espessos cabelos brancos ondulados foram ajeitados com a mão. Olhou para mim. Na verdade, não pra mim, em meus olhos, mas pra um lugar além atrás de mim. Não para a mata pertinha da casa, florida, de aromas frescos de primavera que estava se findando, com tantos barulhos miúdos, que pareciam um silêncio. Pralém. Pruma lembrança, uma busca, uma saudade.

Respirou fundo. Parecia dizer que minha pergunta era tola, que não precisava responder, pois eu já sabia a resposta. Não. Respirou fundo pra ter coragem viril de enfrentar a pergunta. Era homem de tantos anos e coragens, mas não fora preparado para aquilo. Para a pergunta.

– A vida –, começou na voz baixa e rouca com que sempre falava de si mesmo – é uma semeação. Começa pequena, na semente brotando, sai da terra, se aproveita do sol e da água. Cresce. Vai se crescendo. Viçosa planta. Fruteja. Encanta. Tem cor e cheiro. Alegra. Ao depois – uma pausa longa, os olhos baixam para olhar as mãos grossas e trêmulas – vem a ceifa. E se foi-se a planta. Existiu, mas não mais. Assim é. Com cada e todos.

Respeitei seu silêncio. Esperei.

– Foi num janeiro. A festa era de batizado do neto do Dr. Deocrécio. Festa bonita. Eu tava lá, recenzinho entrado nos vinte ano, asseado, de calça de fatiota, o calçado desacostumado do pé apertava. Mas era beleza e orgulho, no meio dos pessoal da cidade, como se fosse como eles. Nem não quis beber, pois tinha medo de me escancarar em fiasqueira. Ficava só espiando, as gente alegre, familiar que se reencontravam, abraços e apertos de mão, parecendo mesmo que tudo era coisa feliz, de bom se rever. Eu era só eu, sozinho, sem ser da família de ninguém. Tava só existindo aquele dia no meio da festa, nem bem convidado era. Apenas ali. Não queria perturbar ninguém, não queria atrapalhar o corre-corre, o festejamento de quem era de direito. Assim, mesquivava de todos, comia só umas coisa pequena, bebia um copo dágua. No meu canto. E era, do meu modo, a meu assentado, feliz. Eu achava que já era tanto muito aquilo que a vida me deixava eu viver. Já era quase a minha ceifa. Quase o meu destino finalizado. Uma festa pra ver os otro alegre. Me agradei do pensar assim. E quase já tava me indo, voltando pro meu nadinha…

– Então foi que, num valseado, eu vi a moça. Nunca meus olho se deparou com criatura de meu Deus mais linda. Uma perfeição de gente! Uma imaginação ali viva. O vestido era duma branquice que só, um cabelo lisinho, comprido nos ombro, que a brisa mexia. Parecia envergonhada da gentarada. Ficava meio apartada do povaréu, um prato de salgadinho na mão, num recato imenso. O olho preto era lindo e cheio de esperteza e eram tímido também. Comecei a caminhar pro lado dela, sem nem decidir. Fui só indo, achando um chamado praquilo, um vem-aqui no ar, sem palavra.

– Quando viu eu se chegando, pensei que ela fosse correr. Mas me olhou eu e só deu foi um sorriso imenso, de branqueza dos dente branco, da alma branca que ainda mais. Pareceu até que já sabia que eu existia. Sentemo num banquinho meio pra lá, e a conversa corria feito um corguim, cheia de risada, de respeito, de delicadeza. E a gente nem tinha se perguntado o nome. Pra eu, ela era só linda. O tempo não sabia se corria feito passarinho fugido ou se se arrastava com preguiça de fim de tarde. Senti que a gente tinha sempre se conhecido, mas também era tudo uma novidade, de duas pessoa que se descobria…

Ele parou. O barulho na mata também. Um silêncio completo nos cercava. Nada podia competir com a história da dor dele. Esfregou as costas das mãos uma na outra; mania quando alguma coisa lhe apertava o peito, uma lembrança ruim, um dissabor, um vazio. Apertou os olhos, para relembrar a cena.

– A prosa se discorreu até muito depois da tarde, dos pessoal indo desfazer os festejo, de levar a criançada pra dentro, pro banho de bacia, as empregada limpando tudo e fofocando. Ninguém nem viu nós, linda e eu. A gente só existia um pro outro, nem pra ninguém mais. A lua tava meio espiando o mundo de dentro dumas pouca nuvem que tinha. E o cabelo preto dela brilhava inda um tanto. E o sorriso era mais branco que a lua. Mas parecia que nem se havia precisão de muita luz por causa que o olho e o sorriso e a pele clarinha e a alma dela era tudo tão linda que alumiava.

– Nem rimos muito de dizer bobícia. O riso que vinha era de descobrir que eu e ela nós dois pensava igual em muitas arte da vida. Uma grandeza! Do apreço pelas flor amarela, do respeito pelos mais velho, do sonho de morar numa casinha na beirinha dum riacho, da solidão que certas noite traz, em tudo nós era igual.

– Era como se a vida tivesse feito nós dois em duas metade, apartada, mas sendo uma coisa só, com um tanto do todo em cada uma. Você é muito sem experiência de vida e nem não vai entender isso. É coisa do misterioso da existência, uma filosofia. E nós não nos dissemo isso. A gente só sabia, só descortinava, só se reencontrava pela primeira vez no pra sempre. Então, ria um risinho faceiro, desmedido, entoado de feliz. Linda e eu.

– Num momento sem mais, ficamo os dois em silêncio, palavras engolida, nada de dizer. Parecia nem respirar, nem carecer. Vendo nos olhos, bem lá no dentro, se espalhando na alma um do outro, refulgente, amoroso. Eu olhava os olhos pretos mais negros que a sem-luz, mas que eram sossegado, de paz, carinhoso, um afago. E eles me atraía, me chamava eu, minha boca, tudo eu, pra mais perto, mais perto… Toquei o rosto dela de levinho com a ponta do dedo, pele macia, fria pela noite. Ela sorriu bem pequeno, mas tão linda. A boca se abriu um poquinho, me chamando sem som. E nós nos beijamos.

Meu tio silenciou. Havia uma lágrima escapando pelo olho. Um sorriso de lembrança feliz, mesmo com uma tristeza adicionada. Era um alembramento bom. O brilho nos olhos dele dizia isso. Não era de apressá-lo. Ele voltaria no momento certo.

– E nós nos beijamos. Com muita doçura. Ela tinha um frescor de hortelã, um gostinho de… Foi tão delicado, tão cheio de ternura, de paz. Tão linda! Beijo longo que nem sei, mas foi. Nem pensava em nada. Deixei de estar no mundo. Nem vivia mais, só sentia. Respirava ela. Um sumição. Quase ouvia suas palavra falando dentro da minha boca, me contando seu amor, seu sonho comigo, que me queria pra ela pra sempre. O beijo arrancava nós dali, fazia viajar num não-sei-onde, de tanta felicidade, de encher o coração de contentamento, o corpo num descanso aflito, aconchego.

– Foi com um rainho de sol que o beijo terminou. Abrimo os olho, e tava os dois ainda ali, rosto feliz como o quê, brilhoso, um amor que se via, inseparável. Eu peguei na mão dela, sem deixar de olhar fundo na negridão do olho lindo. A mão pequeninha, macia como…, quentinha agora, meio tremendo (era o frio ou o amor), com um anel de pedra miúda. Falei: “Você me queria eu como seu pra sempre?” “Quero, sim”, ela falou de chofre, sem nem pensar, sem piscar, com um sorriso ainda mais grande.

– Então, o padre… Sempre nem lembro bem se era o Enísio ou se era o Jalmiro. Era uns dois muito simpático, velhinho de cabelo branco, mas cheio de vigor, de seriedade com os sagrado e divino… Acho mesmo mais que era o Enísio, que tinha dormido na casa do Dr. Deocrécio, já tinha se levantado, tava por ali. Umas senhora da fazenda, damas de belo porte e carolice. Corremos pra ele. Falamos do nosso amor, do beijo, das estrela que choveram em nós na madrugada, das almas que eram tão uma só… O padre entendeu. E sorriu um seu sim de abençoar e sacramentar. Uma mocinha cortou umas florinhas como aquelasli – fez um gesto difícil, apontando com o dedo enrugado e triste flores amarela, branca e lilás num canteira em frente da casa – e fez uma grinalda muito arranjada e mimosa. A renda grande que usaram em cima do cobertor do nenê batizado se tornou-se o véu, comprido de pureza. Me arranjaram um paletó pra mim, direitinho que ficou no meu tamanho. Uma gravata de seda. Uma água de colônia boa. E ela, linda, como mais ainda tava ficando, enoivada pelas cumadre. Uma alegria no ar.

– Dr. Deocrécio apareceu e se interou-se do ocorrendo e foi logo chamar os músicos: tinha duas rabeca e dois violão, dedilhando bonito, aquela música: lá-lá-lá-láááá… – eu não identifiquei a melodia, na sua voz tremendo e rouca, meio engasgada. Os olhos brilhava, como se ele tivesse vendo ali mesmo a cena do antes.

– Ele aprumou todo o rebuliço, ordenou a criadagem e num tantim a festa tava aparelhada. O bolo com um casal em cima, uns doce, muita flor e contentice. O padre. Os padrinho foi uns três casal dali, primos e parentes, eu acho. Era hora dos voto, das pergunta mais séria dessa vida. O padre Enísio fez um pigarro de gente importante que vai discursar e perguntou: “Você quer receber a Linda como sua esposa, como se fosse um presente do céu, pra cuidar dela com mimo e respeito enquanto seu coração viver?”

– Eu olhei lá dentro do olho dela e disse: “Sim, é o que eu mais quero pra sempre”. Ele falou: “Linda, você que se encantou com ele com a graça da sua alma e debaixo das estrela mais linda, você quer mais ele que qualquer outro no mundo enquanto respirar nessa vida?” Ela baixou os olhos um momentinho e, depois, me olhou com a maior beleza que já vi, com um sorriso tão do grande que quase ofuscou eu, e me disse, uma voz tão forte mesmo sendo meiga: “Eu quero ser só sua pra sempre e o mais.” “Eu vos declaros vocês dois marido e mulher!”

– Ah! A felicicidade! A música, os aplauso, a alegria de todos, inté as criança se abraçava e vinha nos dizer parabéns e tudo de bom. O sol parecia brincalhão, com uns raio bem em cima da Linda, alumiando as flor da paineira e da grinalda, a beleza, tudo ela, que nunca existiu pessoa mais formosa e perfeita. Eu ria de não acreditar que pudesse um dia ter conhecido ela e casado e chegado a ser o homem mais feliz do havido. E um tanto de presente que ia se avolumando numa mesa: umas roupa bonita de cama, um chapéu daqueles, uns vestido mais estupendo que os outro, uma panela de barro, um tamanco com enfeite, um balaio de verdura, provisão pra mais de mês… Nem sei tudo de quanto que ganhamos. Descobri o tanto que os pessoal nos gostava naquela manhã de nunca mais. Num janeiro.

– E veio a danceira e a comilança. Se alegremo todos, com decência, sem algazarra, das senhora e crianças não ser incomodada nem carecer de conversinha de risinho dos desmodo ou sem pudismo. Foi tudo tão intacto como a beleza de Linda, do nosso amor, do sonho que não se despertava, da música carinhosa…

Um suspiro saudoso, um olhar para mais além, o olho se avermelhando. A dor.

– Numaolhada um pro outro, nós se combinamo de sumir da festa e ir pra nossa casinha, na berinha do riacho, se amar, viver de só nós dois, se alegrar de agora existir numa vida só única. Peguemos umas pouca coisa que ia se precisar e escapulimo. Até que sem pressa, da alegria que era tudo que se fazia junto, de não ter mais lonjura e poder ficar sempre com o outro. O caminho até nossa casa, branquinha, era dum capim baixim, macio, quase um tapete da casa grande. A gente ia deixando as pegada no capim, a estrada pro lugar de ser feliz.

– A casa. O fogo no fogão aquentando tudo. As cortina branca. As fruta cheirosa em cima da mesa. Flor pra todo canto. E nosso quartinho… Eu peguei Linda nos braço, beijei sua boca de hortelã… Nossa cama.

Novo silêncio. O olho agora procura alguma coisa mais longe ainda, no horizonte, num onde que não existe ou que foi um dia. Ele parece que não lembra mais que eu tô aqui. Tá falando com ele mesmo, uma lembrança em voz alta. Eu aguardo. Consigo ver que é a dor. Um longo tempo.

– Nunca ninguém não vai conseguir dizer com as palavra o que foi aquele dia de lua-de-mel. De contentamento tanto o peito parecia que nem ia vencer. O olho piscava pra acordar, mas não era sonho, mesmo que era, o sentido, a presença, o desafogo de alegria. Uma intensidão de amor, espalhado pela casa, na pele, assoprando a alma, o deslumbre de um sentir o outro e o amor. Fica uma marca mais perene que de fogo. Nunca se apaga. Nunca. Nunca…

– Então… aconteceu… o impensado. O desespero. Não podia… Logo, naquele quando? – A voz queria se manter firme enquanto as lágrimas abundantes desciam. O mesmo olhar, agora com toda dor. – Eu acordei de manhã, estonteado de feliz, arrebatado… mas Linda não tava na cama. Achei que tivesse ido preparar o café. Não tava na cozinha. Nem no quintal. Nem lá fora. Gritei. Chamei. Corri. Procurei. Perguntei. Vasculhei as mata, o riacho, andei quilômetros afora, entrei em gruta, em tapera abandonada, em casa dos outro… Nada. Linda… sumiu. Como se nunca tivesse sido.

Era essa a dor. Agora, com a cabeça baixa, com as mão por cima dela, não querendo ouvir o que ele mesmo disse, chorava. Chorava o choro de todos esses ano que Linda se foi.

Esse é meu tio, Deocrécio. Eu chamo pra ele de tio Decinho. Amo muito demais ele, que me cuidou sozinho depois que meu pai, seu Jalmiro Astrúcio, faleceu, picado de cobra. Ele que sugeriu a meu pai que meu nome fosse Enísio. Queria que eu fosse sacerdote, como ele nunca pôde de ser. Agora que tá velho e sem sustento, só eu venho visitar ele e ouvir sempre a história de dor da Linda, a mulher linda que nunca existiu.

17 maio 2013

mãos brancas

A cena todo tinha um quê de angústia. Talvez fosse a música baixa, meio desafinada, com notas soltas ocasionais, inóspitas, como sussurros desesperados que escapavam ao silêncio. As cortinas fechadas, desbotadas, abandonadas sobre janelas de vidros quebrados, dobradiças enferrujadas, há muito sem uso. Havia ali uma angústia no ar, um aperto na garganta invisível que andava de um lado para outro.
O que era? Onde estava?
Parecia espalhar-se, como a poeira sobre os móveis, como o cheiro de mofo – uma névoa inexistente que enchia o vazio, expulsando todo ar puro, todo calor do Sol. Era um frio de alma, um desconforto de menino abandonado. Ninguém o apalparia, mas seria esmagado por ele tão logo entrasse na velha sala, um cemitério de veludo bordô, tachas de latão, poltronas de espaldar alto, teias e silêncio.
O Sol, preso lá fora, queria invadi-la, desvirginar sua viuvez, soprar vida sobre o espelho embaçado, que não olhava mais ninguém, de rugas profundas na prata escurecida; queria incendiar o frio de solidão; queria fazer as flores mortas no quadro da parede sorrirem de novo.
Mas as mãos brancas e frias sabiam daquela intenção. E mantinham as desbotadas cortinas mortas bem fechadas, condenando à solitária perene o Sol.

18 set 2012

naquela tarde, em que encontrei mykaela wondracek

Foi às 2. (Seu Albuquerque Maximiano sempre dizia: Não é 2, é 14 horas, 14! 2 é da manhã. o dia tem 24, dois ciclos de 12 horas. Se não explica, ninguém sabe a qual ciclo você está a se referir. Então, 14, 14 horas!) Eu cheguei 13 minutos antes das 2. As três não haviam chegado ainda. Então, esperei com paciência.

Sempre fico irritado com atraso e com quem me pede paciência. Não tenho, nasci sem, não me peçam. Atrasos me irritam e minha inexistente paciência me diz que devo ir embora, deixar tudo, xingar. Sempre faço isso. Mas como ela estava com as duas, naquele dia não fiz. Esperei.

O inverno estava chuvoso. Começou a chover de novo logo que cheguei. E isso aumentou a irritação, a sensação de estar perdendo tempo, de não ser respeitado pelas três, pois eu cheguei no horário, um pouco antes até como sempre faço, elas podiam ter chegado também se quisessem e me respeitassem. Mas ainda não eram 2. Nem estava muito frio. Pedi um café espresso (um dia me explicaram porque não é com x, mas esqueci. Táxi é com x e exemplo também e cada x tem um som diferente. Como pode? O x é um grande mistério pra mim. Ele me assusta um pouco, pois pode assumir personalidade. Um psicopata. É um cs ou um z. Pode ser a causa desconhecida da morte de milhões – um veneno x exterminou a população – ou aquilo que ninguém consegue explicar, mas parece óbvio pra todo mundo: o x da questão. Qual é o x da questão que não tem x e todo mundo finge que entendeu a explicação? Marque com x sua vítima. No x do mapa está o tesouro. Tudo que é multiplicado por x se torna enorme, incontável, sem medida. O café tinha uma espuma fina na superfície.) A xícara pequena era antiga, de um tempo em que tomar café fora de casa era tão comum como hoje. Mas meu pai nunca deixou. Havia perigos. Sempre há perigos. E chovia.

O relógio de ponteiros havia parado, talvez há dois séculos, às 2 horas, exatamente. Eu percebi isso, pois não moveu seus ponteiros desde que cheguei. Então, fiquei em dúvida: a que horas cheguei? Às 2? Pensei ter entrado aqui 13 minutos antes das 2, e como sei disso? E as três não estavam. Será que fui enganado por essa máquina morta e também estou atrasado? Será que o universo presenciou esse cataclisma cósmico: eu me atrasei? Poderia, por culpa de algum inconseqüente balconista que não deu corda no bonito relógio antigo de ponteiros, ter havido, pela primeira vez desde que o tempo foi criado, que, enganado, atrasado eu estava e estou?

A xícara (começa com x) tremeu em minha mão, sangrando um pouco de café com espuma no pires imaculado. Pousei-a com cuidado, temendo ser tomado de raiva e me vendo jogá-la na parede – não, no relógio, no balconista. As três talvez já tenham passado por aqui, talvez elas se tenham surpreendido e irritado com meu atraso e já tenham partido, já tenham tomado café em xícaras brancas e continuado a vida sem o incômodo de me esperarem por, quem sabe?, quantas horas, já estejam espalhando a conhecidos e desconhecidos que eu, inacreditável mas verdadeiramente e primeira vez, havia – quase dói só pensar nisso – perdido um compromisso por atraso. Uma atitude perversa delas, desumana, mas justificável. Eu as havia ofendido cruelmente, iludido, desperdiçado seu tempo. Tempo, tempo, tempo, o tempo parado no relógio me condena, joga na minha cara meu pecado venial, minha vileza. O café está frio. A espuma sumiu. O sangue no pires parece ter secado. Os ponteiros imóveis perpetuam meu crime.

Tão brilhante quanto o relâmpago lá fora, uma idéia surge diante de mim, quase fazendo com que eu sorria. E se eu perguntar as horas? Tremi. Minha mão conteve-se de derrubar a xícara. Coração disparou, assustado. Olhei ao redor, para me certificar de que ninguém tinha ouvido meu pensamento profano. Quem havia pensado tamanha estupidez dentro de mim? Não podia ter vindo de mim mesmo sugerir-me expor-me (som de s) aos outros, fazê-los pensar que eu pensava ser possível eu estar atrasado. Todos sabem que isso é impossível! A frágil tessitura do cosmos seria irreparavelmente abalada se as pessoas apenas aventassem a possibilidade: ele se atrasou.

O relógio continuava parado e alguém pediu um café com leite e uma coxinha (outro x). Respirei fundo, expulsando (e ele muda de som de novo. É louco!) aquele pensamento suicida, voltando à sobriedade, ao controle de tudo. Preciso pensar com clareza, com calma, sem deixar ninguém perceber o que se passa. Com a voz o mais natural possível, peça mais um café forte, sem açúcar. O balconista ouviu atentamente e sorriu. Estava tudo no lugar uma vez mais. Por enquanto.

A chuva havia parado. Só frio. Tentei ver, por aquela janela baixa com cortinas vermelhas ensebadas, se havia algum grande relógio lá fora, em algum lugar. Mas eu sabia que não havia. Um homem parou na calçada e olhou o relógio no pulso, depois olhou para mim, como se soubesse que eu precisava daquela informação. Mas não me viu e nada disse. Continuou caminhando, levando consigo seu relógio vital. A hora certa foi embora com ele. Comigo ficou a angústia.

As engrenagens precisas se tornaram o mecanismo mais importante da vida. Aquele conjunto minucioso de diâmetros, dentes, corda, eixos, distâncias agora detinha o poder de macular ou resguardar meu caráter, meu nome, minha reputação. E ele estava parado na parede, no pulso do homem que já ia longe, de posse de estranhos hostis. E talvez as três, a essa hora, já estivessem divulgando para as fofoqueiras e as colunistas sociais da cidade: cansamos de esperar, fomos embora, ele, sim, ele! atrasou-se, não apareceu, falhou.

Um homem levantou-se, colocou na cabeça o chapéu que estava sobre a mesa, ajeitou-se, pegou a bengala que encostara à cadeira. Tirou da algibeira um relógio, um grande e belo relógio pendurado ao final de uma corrente de ouro. Fitei meus olhos nele, esperançoso. Aparentemente sem nenhuma razão, o homem não o consultou. Olhou para os lados, talvez tentando recordar se já havia pago o croissant com café sem açúcar que havia comido. Inclinou-se um pouco para o lado, ajeitando a perna que parecia não ter força e apoiando-se na bengala. Trouxe o relógio à altura dos olhos. Parei de respirar. Quase gritei-lhe que dissesse em voz alta que horas eram. Ele cerrou os olhos. Parecia não enxergar direito, só com o esquerdo. E o silêncio. Tudo em silêncio. Todos em silêncio. A expressão no rosto enrugado foi primeiro de preocupação (estaria atrasado também?), mas logo se abriu num sorriso quase infantil (teria descoberto que sobrava tempo?). Encaminhou-se para a porta, relógio ainda na mão, arrastando consigo o segredo eterno do instante marcado pelos ponteiros. Ninguém o impediria?

A porta se abriu. Ele saiu. Ela entrou. Com as duas, com xale xadrez. Viram-me. “Você, hein?!, sempre pontual!” O ponteiro dos minutos do relógio da parede começou a se mover. Ele largou a bengala e, saltitante, seguiu pelo calçadão.

 

(scs, 6212)

11 fev 2012

anjos e baratas

Era um nome forte, que dizia que ela era uma mulher forte, sem medo, de enfrentar perigos e dificuldades sem tremer nem fugir. Durvalina. Talvez por ser parecido com Durval, nome de seu pai, que é nome de homem. Homem deve ser sempre forte, valente, que até vai atrás do problema só pra vencer o bicho. Sem medo.

Nada mais falso. Celina Durvalina tinha medo de tudo, principalmente de barata e de anjo. Que escândalo cada vez que vê uma barata! Aquela coisa marrom se movendo rápido deixa Celina Durvalina em pânico, louca, insana. Ela sobe na cadeira e, nem sabe porque, arranca a roupa e grita e grita até desmaiar, às vezes. Agora ela já sobe e desce da cadeira antes de desmaiar, pois uma vez caiu e foi parar no hospital. Quase morreu. Ela não entende: ela entende que a barata é pequena, quase nada perto dela, mas o monstro cheio de patas a mantém prisioneira, faz dela o que quer, ordena coisas impensáveis: gritar e arrancar a roupa.

E quando uma barata passou correndo sobre o pé de Durvalina? Por sorte o machado era muito grande e ela, muito desajeitada. Não conseguiu cortar o pé, mas gritou e arrancou a roupa e deixou o pé de molho na água quente com sabão três horas.

Baratas. São sinônimo de pânico, de desespero, de falta de ar. Muito medo de ser estrangulada por aquelas patinhas de serrote. Consegue sentir o cheiro delas e ouve seu barulhinho de correr em silêncio da luz. Por que Deus havia feito aquelas coisas que estalam e soltam gosma quando são pisadas? Nem mesmo morrem de modo decente, discreto, desnojento.

De anjo também. Muito medo. Pavor mesmo. Mas nunca viu nem sabe se existe. E morre de medo.

Celina Durvalina deveria ser forte, como exigia seu nome na certidão de nascimento registrada com data de cinco dias depois. Talvez ela fosse o outro recém-nascido do berçário. Trocas assim acontecem sempre, 32% mais no último ano. Ela não era aquele nome; então, ela não podia ser ela. Quem era, então?

Ela gostava da rima. Achava bonito ser chamada por todo ele. Celina era a parte delicada, fofinha, alguma coisa a ver com céu. Celina, sei lá. Mas, não entendia, todo mundo preferia Durvalina. Se ao menos fosse Lina. Alguns até preferiam Durva ou Durval. Ela tinha de ser forte. Ou pensavam que ela fosse. Não era. Tinha sempre muito medo. De muitas coisas.

Cada trovão um susto. A buzina de um carro fazia olhar quase atropelada para os lados. Todo latido era de um cachorro (lobo) raivoso pronto para estraçalhá-la sem oração. O choro da Viviana era sinal de que ela estava se engasgando, e lá ia ela correndo salvar a filha da comadre. E assim vivia, sempre assustada. Se perguntava por quanto tempo seu coração conseguiria suportar aquilo. “Vou morrer na próxima semana”, pensava toda semana.

Depois de limpar a cozinha, em lugar de tomar seu cafezinho bem doce ouvindo o programa das 14 horas no rádio, resolveu olhar um armário velho no quintal. Ele estava lá há muito tempo. Celina o via, mas nunca se animou de mexer nele, apesar de sua mania de limpeza. Mas agora achou que ele estava enfeiando o quintal, apesar dos vasos com flores em cima dele.

Olhou-o com calma, pensando se poderia oferecer algum perigo. De madeira, verde clarinho, desbotado e sujo, um puxador quebrado, uma chave que não impedia que fosse aberto por qualquer criança. Parecia inofensivo. Inerte.

Abriu as portas num ímpeto. A luz forte da tarde revelou umas roupas antigas, uma boneca quebrada, uma capa de revista mofada, um rato morto e baratas. Muitas. Antes de dar um salto imenso para trás, Celina Durvalina Fortes pensou ter contado um milhão delas ou muito mais.

Caiu de costas, batendo com o ombro no chão. A dor forte a impediu de começar a arrancar a roupa. A garganta se entupiu de desespero e nenhum grito pedindo ajuda saiu. O coração batia audivelmente e as baratas vinham em sua direção, como um exército implacável, abrindo suas alas de forma a cercá-la por todos os lados, com certeza para devorá-la viva. As patas de serrote marchavam com ritmo, declarando que seu fim estava próximo. E iriam roer sua roupa também.

De repente, uma luz forte, de um branco cristalino, azulada, em forma de espada, surgiu ao lado de Celina. Girou em redor dela, baixinho, rente ao chão, atingindo todas as baratas, até as da retaguarda do exército, cortando-as ao meio com um barulho metálico e de fogo. Nenhuma delas escapou. A espada, então, se ergueu sobre Celina, e ela viu uma mão robusta segurando-a e viu como se duas grandes asas, transparentes, de luz azulada também, se abrissem. E tudo sumiu. Celina estava sozinha, caída no meio do quintal, o armário com as portas abertas e nenhuma barata. Nenhum cadáver de barata. Nenhum sinal de que elas estiveram ali.

Durva é seu nome agora. Celina é passado, nome de quem tem medo de tudo. Durva não tem. Mata as baratas com rapidez, sem nojo nem dó. Até sorri ao ouvir o estalo e ver a gosma. Calou todos os lobos, xingou a comadre que não cuida direito da Viviana e canta enquanto ouve trovões. Só tem medo de anjo.

(scs, 21221011)

(fonte da foto)

28 jan 2012

grafite

Com um lápis amarelo na mão.

Ela sempre os segurava com carinho, como se fossem o dedo de um bebê. Bem apontado, terminava numa ponta muito fininha, que só permitia escrever suavemente, mal tocando no papel, quase deixando-o escrever desenhar rabiscar anotar sozinho. Do outro lado, a borrachinha cor-de-rosa, intocada, que nunca seria usada. Mesmo quando o lápis, impossível de ser utilizado ainda por causa de seu tamanho, fosse colocado amorosamente na caixa ao lado do cadáver-anão de outros lápis, a borracha estaria imaculada, virginal, íntegra desde que nascera.

E eram sempre amarelos os lápis. Uma cor forte, visível de longe, que enfeitavam a mesa como flores ou como penas de pássaro ou como fios de bordado. Eram deixados ali displicentemente dispersos, sempre onze, com uma difícil simetria em seu arranjo, um tecido de lápis e mesa em urdidura complexa, indecifrável para olhos e mãos que não amavam os lápis amarelos como ela. Não eram abandonados ou jogados sobre a mesa, mas deitados sobre ela, bebês amorosamente levados ao berço, mão sob o pescoço para que não acordem, uma ajeitadinha a mais para que estejam confortáveis e sem pesadelos.

Não gostava de amarelo. Não havia nada de amarelo em sua vida. Nem gema de ovo. Nenhum vestido, nenhum enfeite na blusa de festa, nada em seu computador ou na bijuteria chique que usava. Nem os post-its que espalhava pelo escritórios, escritos com sua caligrafia bonita com lápis amarelo, eram amarelos. Só os lápis. Aquele tom em especial a maravilhava, fascinava, acariciava seus olhos, uma paisagem dourada que não cansava de contemplar. Por isso, eram tratados com tanta dignidade, misteriosa volúpia casta, de mal tocar, um afago mínimo para reafirmar o amor e manter a dispersa ordem. Deslumbramento.

Tudo escrevia a lápis, sempre onze sobre a mesa, múltiplos tamanhos. Alertavam que lápis podia ser apagado, fácil falsificar, alguém podia modificar informações importantes. Não ouvia. Usava os lápis, amarelos, e fazia seu serviço a lápis e escrevia longamente a lápis e dava ordens e deixava bilhetes carinhosos a lápis. Apesar das ameaças, sua escrita era indelével, única, imorredoura. Seus lápis não tinham grafite: tinham diamante.

Nunca deu nome aos lápis. Seria demais, um exagero, esquisitice. Eles é que a chamavam pelo nome – Bebel –, inaudivelmente, mas ela os ouvia. E de pronto os atendia, tomando-os para escrever um novo relatório, outro bilhete, mais um poema erótico secreto que só ela entendia. Cada um deles, mesmo quando os onze falavam ao mesmo tempo, tinha uma voz diferente, bem própria, que revelava sua personalidade e seu uso. Não somente eram onze, mas cada um tinha uma função específica. Com aquele, apenas os bilhetes. Com este, nunca os poemas. Aqueloutro, unicamente os relatórios da presidência. Cá este outro, sim, as confissões no diário.

Dedicada como era, Bebel era sempre a primeira a chegar ao escritório. Com flores que dava a si mesma. Mas nenhuma amarela. Jogava-as de qualquer jeito no vaso (só sabia arrumar lápis), organizava os pequenos seres amarelos, suspirava uma canção de amor bem antiga a eles e passava a trabalhar. Sorridente, cantarolante, autoritária, maternal. O dia todo assim.

Então, naquela manhã, Bebel – Isabelina Marcondes Ferreirinha, solteira – morreu. Subitamente. Cabeça caída para trás. Com um lápis amarelo na mão. E outros nove sobre a mesa.

(scs, 231011)

02 nov 2011

par de meias

E ele nem sabia o que fazia ali, já que detestava manhãs frias fora da cama. E perguntas paradoxais. Como meias de cores diferentes reunidas como par na primeira gaveta no quarto escuro, pois não podia acender a luz e acordar a esposa e os pesadelos. Mesmo assim, tomou café frio, a manteiga havia acabado.

Parou no meio da calçada, cabelo despenteado se ajeitando com o vento e a fumaça dos ônibus, e um cheiro de cigarro vindo não sabia de onde. Era só uma criança ranhenta brincando com uma bituca jogada ao chão, calçada suja. Sorriu, pois de crianças curiosas sempre gostou. As de cabelo fininho e preto. Mas não ao ponto de ter filhos. Não tinha paciência. Nem lugar no apartamento. O condomínio aumentou esse mês e o elevador continua sem luz. Preferia ficar em silêncio por muitos dias. O ranho escorreu até a boca, mas a criança não se preocupava com isso. Etiqueta social é uma bobagem. Essa lição a criança havia aprendido sem saber. E, além de serem de cores diferentes, o tecido das meias era diferente também. E o elástico da bege não prendia direito. Talvez por ser bege.

Meia escorregando. Para arrumá-la, teria de ficar em um pé só encostado na porta da garagem. A grade estava muito suja. E não gostava de ficar em um pé só. Desde pequeno. Acho que tinha cinco. Só de polícia-ladrão. Sempre atirava à queima-roupa com sangue frio sem os dentes da frente. E a mão estava fria. Se tocasse na perna, sentiria arrepios.

Passou por ele uma moça perfumada, alta, ruiva. A saia era muito curta pra uma manhã tão fria. Que ridícula, mal sabe se equilibrar sobre o salto, com perfume barato, nem como desinfetante serve e deve ir pro trabalho assim, ofender o ambiente e servir de chacota para os colegas. O espelho deve ter-se quebrado e nem existe espelho pra perfume.

Puxou a meia rapidamente, limpou a garganta, pois nem precisou tocar na grade, pensando que fosse quarta. Mas era terça! Ou segunda? Quarta, com certeza, não. Então, posso voltar pra casa e trocar as meias. Como havia caminhado pouco, não precisaria jogá-las no tanque, só devolver à gaveta, a primeira, como se nada tivesse acontecido nem visto a moça nem acender a luz. O mercadinho ficava na outra esquina.

Decidiu seguir a moça ruiva, que andava ligeiro apesar do salto alto vermelho e do perfume barato. Atravessou a rua e logo entrou num prédio alto, cinza, que não combinava com a saia nem com o salto. Cumprimentou o porteiro e perguntou se ele sabia o nome da moça ruiva. “Não há moça ruiva alguma neste recinto, senhor!” Mas ela havia acabado de entrar e de cumprimentá-lo! E não havia mesmo ninguém mais ali naquele recinto. Nem o perfume barato. Pediu desculpas, pois confundiu alguém com uma amiga de infância.

Voltou para casa, pois a meia estava escorregando, agora a outra. Marrom. A bituca estava extinta, apagada pelo ranho escorrido e a criança juntava latinhas de refrigerante. Precisou acender a luz, para saber em que lado da cama deitar. Felizmente, a moça ruiva não acordou.

(scs, 221011)

21 out 2011