Author Archives: Francisco Nunes

About Francisco Nunes

O pretenso poeta que usa essa gaveta virtual.

encontro

encontrei na rua deserta
um cão perdido
triste
olhei-o olhou-me
triste
deixou-me
perdido segui(u)

(scs, 19317)

09 jun 2017

paixão de inverno

eu me deixei
nevar
por teu sorriso
e nunca mais
me senti tão
sol

(scs, 191216)

09 jun 2017

sem título

a morte me deve explicações
mas é covarde
foge sempre

09 jun 2017

225

ah!mores
de
tantos
com-licenças
e
por-favores

09 jun 2017

224

amor
embrulha
o
estômago
pra
presente

07 maio 2017

sem título

amor
indolor
não existe
mas quem resiste
a desejar
e esperar
um amor assim:
só pra mim?

(scs, 28414)

07 maio 2017

sem título

eu preciso
de ti
de modo
preciso
cirúrgico
litúrgico

(sc, 28414)

07 maio 2017

223

outrossim
outro
não
mesma
vida
então

07 maio 2017

222

a Rafa e Tássia

sempre
presentes
em
forma
de
saudade

23 abr 2017

Outras areias

– Acho que era principalmente por causa daquele seu jeito particuloso. Não havia o que lhe chamasse a atenção quando não queria, quando tava lá sumida naquele mundo seu só dela.
– Nem os amigos, próximos?
– Não, nem. Era uma mudeza, de olhos, que ninguém entrava, fazia parte. Mesmo que chamando o nome dela, não respondia se tava no lá longe dentro-de-si. Como podia? No início, todo mundo se incomodava, gritava até, xingava ela. Achavam que era desrespeitante, um modo… Então, com aquele seu sorriso branco, de frescor da tarde, de uma calma de coração que era tanta, tudo se acalmava. A gente não entendia, mas parecia entendê. Aceitava. Ficava tudo bem. Aos dispois, já nem mais perturbava mais ninguém já conhecido. Era o jeito dela, era ela assim. Desse modo, assinzinho. Então, não tinha razão de irritá. Mais era aprendê a aproveitá a companhia, a presença, a sabedoria, a doçura. Quando falava, ah!, ficava o povo tudo quieto! Daquela boca miúda, desenhadinha de pintura, brotava coisa que ninguém imaginava donde vinha! Ela desenrolava os problema mais enroscado, os causo de família, aqueles assunto que ficava no escondido do coração que nem a pessoa sabia que tinha. Os velho aceitava, as criança entendia, os mais ignorante não tinha dificuldade na compreensão das coisa. Ela falava na medida que se precisava, sem sobrança de palavra, sem enfeitamento de gramática. Só o exato. Como uma faca bem afiada, cortando e chegando no miolo, no tutano. Nunca carecia de erguer a voz, de exaltar no tom. Só mesmo a fala mansinha…
– Mas teve o sumiço?
– Ah! Foi uma comoção sem tamanho! Naquela manhã, parecia tê um… uma coisa ruim no ar. Alguém comentô que os passarinho não tava cantando. A estranheza que não se sabia o quê. Tinha um trem apertano o estômago de todo mundo, um desatino na cabeça. Mas só aos dispois é que a gente se apercebeu disso tudo. Quando viu que ela tinha sumido. Como? O quarto pequenino dela continuava fechado por dentro, e já passava umas hora que ela não aparecia – tiveram de arrombá a porta com pé-de-cabra e ombro. Lá dentro, tudo igual: ordeiro, perfumado, os lençol esticado, o vaso com flor do campo. Em cima da mesinha, uma folha de papel com um desenho lindo de uma paisagem, vista duma praia deserta que tinha uma moça sozinha caminhando. A moça do desenho era ela mesma! Pequeninha, mas dava pra sabê que era ela: os cabelo ruivo claro no vento, o vestido comprido branco que ela gostava muito, o jeito de segurá as sandália que tinha… Um assombro, porque ninguém nunca sabia que ela desenhava! Fazia muito bordado, crochê, costura, mas desenho?! E, num canto do papel, escrito com a pena que tava ao lado, ainda molhada de tinta, com a letra redonda de professora dela, umas palavra de oculto significado: Imaginei outras areias, ei-las, mas os passos vacilam.

– E depois?
– Procuremo ela por todo canto. A vila toda saiu na busca. Não tinha explicação, não tinha rastro nenhum, ninguém não tinha visto nada. Como era muito conhecida, não tinha como alguém não sabê que era ela. Mas sumiu. Assim. Dum quarto fechado, sem tê como. Era uma pessoa como que nunca tinha existido ali. A vida de tudo nós ficou uma tristeza que só. Não tinham vontade de comê, de estudá e cartilha, de ordenhá as vaca nem brincá no galpão. Até as moça que tinha inveja dela, por causa da beleza, se arrependia e sofria. Foi um fim. A vila toda ficou de luto, abatida na tristeza, silenciosa.
– Pra sempre?
– Cabo duns seis mês ou mais um pouco, era um domingo de manhã, invernoso, mas não tava frio, como era de costume por aqui. Ninguém ainda tinha notado isso, quando a gente ouviu. Primeiro, foi um passarinho que não canta nessa época. Depois… a mesma vozinha doce, amorosa, de embalá bebê, que cantava as beleza da terra, dos sonho do povo, dumas esperança de céu e paz, com umas palavra nova, nunca de ouvida… A mesma vozinha que acordava os dia, a fazenda. Era ela! Corremo pro quarto dela, donde vinha a voz, coração aflito, alegre, animado, se perguntano. Linda como sempre, o olhar de criança, o sorriso de gente que ama: ela tinha voltado! Tava saindo do quarto, nem ficou surpresa com nós tudo olhando prela com aquelas cara espantada. Pareceu não vê nada de diferente, pareceu que não tinha acontecido nada demais. Deu um beijo em cada um de nós e foi pra cozinha, prepará o café.
– E assim?
– Fiquemo sem sabê o que fazê. Se olhemo, fiquemo com medo de estragá a alegria dela tê voltado, não sabia o que dizê. Uns até se beliscô, se achando em sonho. E num era. Então, esperemo um outro momento do dia, outra hora mais no molde de fazê inquirição. Mas o dia foi se passando, os pessoal foi sabendo, veio visitá… e quando via ela, ninguém tinha de coragem de perguntá nada. As pergunta ensaiada morria na garganta, sumia num só. Se virava só na alegria dela tá ali, vivinha, de volta. Não sei. Parecia que a presença dela, ressurgida, já explicava tudo, já dizia que tava tudo bem, que o mais importante era aquilo dali, ela e nós de novo junto.
– Mas no depois?
– Nada. Nunca falemo no assunto. Nunca subemo onde que ela teve aqueles seis mês. Ele nunca falô nada, nunca se explicô. Parecia até que ela nem sabia que tinha se ido. A gente só sabia que tinha alguma coisa bem forte, misterienta.
– Por quê?
– Porque ela nunca mais teve aquele olhar particuloso, de se perder em pensamento, como se não tivesse com a gente. Seu olhar era… diferente, mais amplo, sossegado. Parecia tê achado uma resposta, o fim. Foi desse modo que minha filha, Sibele, sumiu e retornou.

Silenciou um instante, olhou para o lado como se buscasse uma lembrança que teimava em fugir.

– Sabe –, retomou falando devagar –, uma coisa… Na hora, a gente nem deu atenção, mas… outro mistério. Na sandália dela tinha uma areia muito fininha. No outro dia, ela tinha colocado a areia num vidrinho, de perfume vazio, que agora fica sobre a mesinha. Vez que outra, eu chego de mansinho no quarto e vejo ela olhando pro vidrinho, quieta, sem se mexer, sem saber que o resto do mundo existe ainda. Aquele antigo olhar…

(scs, 30714)

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18 abr 2017