Monthly Archives: agosto 2013

Colégio Cruzeiro do Sul

foto03_colegio_francisco

corredores,
sino,
professores,
menino,
aluno
por vezes taciturno,
amores,
imenso prédio,
de corredores estreitos,
segredos,
esqueleto,
andares,
andava eu sonhando,
brincando,
buscando saber o que era.

paixões,
cadernos provas laboratório recreio
amizades eternas, tão finitas
e tanto tempo naquelas salas
e em tantas salas tantos
que hoje por aí seguem
e não são mais, só ex-colegas
(sem falar dos que (se) foram)

e o prédio é só lembrança
do tempo aquele
todo ele.

sino
na há mais o menino

(poa, 301012)

16 ago 2013

das conseqüências da felicidade

não dormia mais
ou, se dormia,
não mais sabia
se sonhava ou
se o via

nem se cansava
de esperar na janela
o tempo que demorava
para ele aparecer
e, quando vinha,
o tempo não demorara tanto
e passava tão rápido
que nem parecia ter vindo

não precisava mais respirar
– pensava ela –,
só sentindo, à luz da janela
o perfume dele no ar:
doce cítrico ingênuo só dele,
com um sorriso maior
que o rosto
– e por nada mais tinha gosto

não se sentia mais só,
nem no final da tarde
nem ao visitar a avó,
sabia sentia que ele estava por ali
naquele ventinho suave a balançar a cortina
na voz que a fazia mulher-ainda-menina
no olhar que no coração sorria

– e ele nunca soube que ela existia.

(scs, 301212)

16 ago 2013

despedida

nenhuma outra angústia
em teu olhar
jamais foi tão terna e suave
como a do dia de cabelos ao vento,
imersos em solidão
pensávamos em outro tempo:

uma nova brisa quando no começo
a saudade inexistiu
e os desenhos no ar eram tão pequenos.
eu e tu,
imersos no desconsolo,
fervorosamente inertes, e o chá
esfriava;

mesmo assim sentíamos a mesma dor
estranha, na pele, na íris –
e já era lembrança
na neve, nas folhas secas,
em tuas pegadas sobre as pedras.
a luz se refletia nos meus olhos cerrados,
espalhando um aroma que
outro dia esteve em nossa pele
e naquela flor à luz de velas.

agora só há essa indefinida presença
de um nada afável,
e, então, de novo,
a despedida.

(scs, 9512)

16 ago 2013

tempo

todo dia é igual
ao mês passado
que ano após ano
é sempre novo
e nunca igual

16 ago 2013

contículo 37

Tão despreocupada ia pela calçada que nem observou que sua sombra já não a acompanhava.

16 ago 2013

ela

ignorou a dor pequena
matutina
manteve a paz serena
na retina
a vida se fez tão plena
pra menina

16 ago 2013

sem título

o que em mim não é dor
é ilusão ou onda –
mas não sem cor

16 ago 2013

188

p e n s o
a n e l o
l e t r a
  vento
v e r s o
p o e m a

16 ago 2013

187

verdades
intensas
mergulhos
imensos
amores
extensos

16 ago 2013

brumas

as brumas
afogam lembranças
brancas sem afago
desabrochadas de dor
loucas

as brumas
repetem canções afônicas
numa gentileza vaga
na manhã invisível
adoentada

as brumas
resistem à verdade
com máscaras dóceis
entalhadas em peles
pálidas

as brumas
desenham no chão
sombras sem alma
de sonhos e sons
abafados

as brumas
escondem seu rosto
sem riso ou tormento
despertado de amor
inconsolado

as brumas
balançam cabelos e saias
silvando ameaças
sem citar nomes
inesquecíveis

as bruams
enfurecem pombos e muros
com seu frio átono
sopro no vento
incolor

as brumas
recusam o abraço
ao desvalido à espera
do ônibus
insensíveis

as brumas
ocultam tantos segredos
remexendo caixas
e mansões
arruinadas

as brumas
entranham-se nas casas
madrugando à lareira
espiando velhas nudezes
imortais

as brumas
convalescem à mesa
repartindo as migalhas
ao cão e à mulher
catatônica

as brumas
impressionam as aves
atarefadas em ninhos
como no outono
moribundo

as brumas
mentem com rouquidão
sua bondade imensa
na faca com sangue
viscoso

as brumas
umedecem a calçada
e maltratam o cão
sem dono e a dona
maquiada

as brumas
calam os sussurros
de prazer e lençóis
esfriam amores
entrecortadas

as brumas
fofocam-se à toa
e não têm pudor
nem remorso
impedernidas

as brumas
arrastam correntes
medrosas e altivas
eis, pois, seu fim:
sol

14 ago 2013