Monthly Archives: setembro 2012

contículo 36

Que alegria, sorria sem dentes, te reencontrar!

19 set 2012

contículo 35

Tratava a todos com a dignidade que perdera há cinco anos.

19 set 2012

107

entraram
na
clínica
de
aborto.
Morreu.

19 set 2012

modernidade

João Policarpo de Viana,
52 anos bem vividos,
de importância incomum para tantos,
vivia despreocupado
sem Twitter nem Face.
Ninguém sabia de sua existência.

19 set 2012

tríade 15

Tonto de felicidade
tropeçou no sorriso,
morreu de saudade.

19 set 2012

paisagem tardia

Sentado na ampla varanda do apartamento
— muito grande, bem mobiliado,
com vista para tantos outros prédios
de apartamentos vastos,
que conseguem abrigar vastas solidões,
grandes famílias de pessoas desconhecidas —
olhava para o céu poluído,
sem pássaros,
arranhado pelo barulho de buzinas e mortes,
de crianças no parquinho de cimento-sem-árvores,
um céu sem nuvens, só fumaça, cinzento,
como a vida nos vastos apartamentos.

Levou a xícara de café frio e amargo aos lábios.
Sentiu gosto de fuligem, da vastidão do frio,
dos lábios que não estavam.

Parou o gesto no ar
sem pássaros, sem paixão.
A xícara tremeu um pouco
e foi descansada na mesinha sem pires.

Não havia mesinha nem pires
para um céu tão triste
e um vasto vazio tão amplo.

Só restava fechar os olhos
e esperar

(scs, 4612)

19 set 2012

sem título

A caneta
tatua a pele tênue
do papel
e lhe sussurra
seu silencioso segredo.

(rj, 6612)

19 set 2012

tríade 14

Saiu à chuva,
sorriu à Lua,
jogou-se à toa.

19 set 2012

tríade 13

não era mais
o mesmo homem:
agora tinha amigo

19 set 2012

nuvem

a velha branca
de pele muito branca
com cabelos brancos
de alma cinza
usando a mesma blusinha rendada branca
calçando a sandália juvenil da neta branca
na cabeça a antiga tiara branca
na mão a bolsinha branca
– lá no céu, uma nuvem branca –
pintou a boca com o batom vermelho

(scs, 16912)

18 set 2012