Monthly Archives: junho 2012

felicidade (Vicente de Carvalho)

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

30 jun 2012

poemas de Antônio Cicero

Desejo
Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
enfrentando um só problema:
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.

Valeu
Vida, valeu.
Não te repetirei jamais.

Aparências
Não sou mais tolo não mais me queixo:
enganassem-me mais desenganassem-me mais
mais rápidas mais vorazes e arrebatadoras
mais volúveis mais voláteis
mais aparecessem para mim e desaparecessem
mais velassem mais desvelassem mais revelassem mais revelassem
mais
eu viveria tantas mortes
morreria tantas vidas
jamais me queixaria
jamais.

30 jun 2012

sem título

Eu gostaria de nunca mais acordar.
Não, não morrer:
sonhar!

30 jun 2012

105

conseguia
bem
disfarçar
a
própria
inexistência

30 jun 2012

104

feito
sonho,
acordou
cedo —
vida
atrasada

30 jun 2012

103

algum
ruído
assusta,
nenhum
ruído
assombra

30 jun 2012

102

conseguimos
sorrir
sem
ver
qualquer
razão

30 jun 2012

101

tinha
certeza
de

ter
partido

30 jun 2012

100

nunca
te
esqueças:
não
guardes
lembranças

30 jun 2012

99

havia
somente
uma
escolha:
ser
outra

30 jun 2012