Monthly Archives: fevereiro 2012

A noite não me deu nenhum sossego (William Shakespeare)

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

20 fev 2012

sem título

nem sempre há razão
na dor ou no vazio
que habita o olhar, a mansão,
que produz em lágrimas um desvario

(scs, 11212)

18 fev 2012

da ausência

recebi sem nenhuma surpresa a notícia de teu
silêncio
já há muito ele se insta
lar
a
mal disfarçado com
gemidos e sorrisos,
sussurros e gentilezas
mas gritando sua mudez sem fim
nos dias e nas noites
da alma

em silêncio repousa a ausência de ser
e de sons,
e nada mais há a não ser
nada

(scs, 11212)

18 fev 2012

conflito

a imprecisa
definição
de minhas
incertas convicções e
absolutas dúvidas

17 fev 2012

sem título

o riacho
passava
nervoso
com o pé
do menino
nágua

17 fev 2012

69

amigo:
corpo
distante,
alma
presente –
alento

17 fev 2012

68

nesta
vida

passei
por
duas

17 fev 2012

a demora (mia couto)

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

(Mia Couto, in idades cidades divindades)

15 fev 2012

conjugação

eu serei
você
ontem

eu fui
você
amanhã

(fonte da foto)

12 fev 2012

naquela tarde, em que encontrei mykaela wondracek

Foi às 2. (Seu Albuquerque Maximiano sempre dizia: Não é 2, é 14 horas, 14! 2 é da manhã. o dia tem 24, dois ciclos de 12 horas. Se não explica, ninguém sabe a qual ciclo você está a se referir. Então, 14, 14 horas!) Eu cheguei 13 minutos antes das 2. As três não haviam chegado ainda. Então, esperei com paciência.

Sempre fico irritado com atraso e com quem me pede paciência. Não tenho, nasci sem, não me peçam. Atrasos me irritam e minha inexistente paciência me diz que devo ir embora, deixar tudo, xingar. Sempre faço isso. Mas como ela estava com as duas, naquele dia não fiz. Esperei.

O inverno estava chuvoso. Começou a chover de novo logo que cheguei. E isso aumentou a irritação, a sensação de estar perdendo tempo, de não ser respeitado pelas três, pois eu cheguei no horário, um pouco antes até como sempre faço, elas podiam ter chegado também se quisessem e me respeitassem. Mas ainda não eram 2. Nem estava muito frio. Pedi um café espresso (um dia me explicaram porque não é com x, mas esqueci. Táxi é com x e exemplo também e cada x tem um som diferente. Como pode? O x é um grande mistério pra mim. Ele me assusta um pouco, pois pode assumir personalidade. Um psicopata. É um cs ou um z. Pode ser a causa desconhecida da morte de milhões – um veneno x exterminou a população – ou aquilo que ninguém consegue explicar, mas parece óbvio pra todo mundo: o x da questão. Qual é o x da questão que não tem x e todo mundo finge que entendeu a explicação? Marque com x sua vítima. No x do mapa está o tesouro. Tudo que é multiplicado por x se torna enorme, incontável, sem medida. O café tinha uma espuma fina na superfície.) A xícara pequena era antiga, de um tempo em que tomar café fora de casa era tão comum como hoje. Mas meu pai nunca deixou. Havia perigos. Sempre há perigos. E chovia.

O relógio de ponteiros havia parado, talvez há dois séculos, às 2 horas, exatamente. Eu percebi isso, pois não moveu seus ponteiros desde que cheguei. Então, fiquei em dúvida: a que horas cheguei? Às 2? Pensei ter entrado aqui 13 minutos antes das 2, e como sei disso? E as três não estavam. Será que fui enganado por essa máquina morta e também estou atrasado? Será que o universo presenciou esse cataclisma cósmico: eu me atrasei? Poderia, por culpa de algum inconseqüente balconista que não deu corda no bonito relógio antigo de ponteiros, ter havido, pela primeira vez desde que o tempo foi criado, que, enganado, atrasado eu estava e estou?

A xícara (começa com x) tremeu em minha mão, sangrando um pouco de café com espuma no pires imaculado. Pousei-a com cuidado, temendo ser tomado de raiva e me vendo jogá-la na parede – não, no relógio, no balconista. As três talvez já tenham passado por aqui, talvez elas se tenham surpreendido e irritado com meu atraso e já tenham partido, já tenham tomado café em xícaras brancas e continuado a vida sem o incômodo de me esperarem por, quem sabe?, quantas horas, já estejam espalhando a conhecidos e desconhecidos que eu, inacreditável mas verdadeiramente e primeira vez, havia – quase dói só pensar nisso – perdido um compromisso por atraso. Uma atitude perversa delas, desumana, mas justificável. Eu as havia ofendido cruelmente, iludido, desperdiçado seu tempo. Tempo, tempo, tempo, o tempo parado no relógio me condena, joga na minha cara meu pecado venial, minha vileza. O café está frio. A espuma sumiu. O sangue no pires parece ter secado. Os ponteiros imóveis perpetuam meu crime.

Tão brilhante quanto o relâmpago lá fora, uma idéia surge diante de mim, quase fazendo com que eu sorria. E se eu perguntar as horas? Tremi. Minha mão conteve-se de derrubar a xícara. Coração disparou, assustado. Olhei ao redor, para me certificar de que ninguém tinha ouvido meu pensamento profano. Quem havia pensado tamanha estupidez dentro de mim? Não podia ter vindo de mim mesmo sugerir-me expor-me (som de s) aos outros, fazê-los pensar que eu pensava ser possível eu estar atrasado. Todos sabem que isso é impossível! A frágil tessitura do cosmos seria irreparavelmente abalada se as pessoas apenas aventassem a possibilidade: ele se atrasou.

O relógio continuava parado e alguém pediu um café com leite e uma coxinha (outro x). Respirei fundo, expulsando (e ele muda de som de novo. É louco!) aquele pensamento suicida, voltando à sobriedade, ao controle de tudo. Preciso pensar com clareza, com calma, sem deixar ninguém perceber o que se passa. Com a voz o mais natural possível, peça mais um café forte, sem açúcar. O balconista ouviu atentamente e sorriu. Estava tudo no lugar uma vez mais. Por enquanto.

A chuva havia parado. Só frio. Tentei ver, por aquela janela baixa com cortinas vermelhas ensebadas, se havia algum grande relógio lá fora, em algum lugar. Mas eu sabia que não havia. Um homem parou na calçada e olhou o relógio no pulso, depois olhou para mim, como se soubesse que eu precisava daquela informação. Mas não me viu e nada disse. Continuou caminhando, levando consigo seu relógio vital. A hora certa foi embora com ele. Comigo ficou a angústia.

As engrenagens precisas se tornaram o mecanismo mais importante da vida. Aquele conjunto minucioso de diâmetros, dentes, corda, eixos, distâncias agora detinha o poder de macular ou resguardar meu caráter, meu nome, minha reputação. E ele estava parado na parede, no pulso do homem que já ia longe, de posse de estranhos hostis. E talvez as três, a essa hora, já estivessem divulgando para as fofoqueiras e as colunistas sociais da cidade: cansamos de esperar, fomos embora, ele, sim, ele! atrasou-se, não apareceu, falhou.

Um homem levantou-se, colocou na cabeça o chapéu que estava sobre a mesa, ajeitou-se, pegou a bengala que encostara à cadeira. Tirou da algibeira um relógio, um grande e belo relógio pendurado ao final de uma corrente de ouro. Fitei meus olhos nele, esperançoso. Aparentemente sem nenhuma razão, o homem não o consultou. Olhou para os lados, talvez tentando recordar se já havia pago o croissant com café sem açúcar que havia comido. Inclinou-se um pouco para o lado, ajeitando a perna que parecia não ter força e apoiando-se na bengala. Trouxe o relógio à altura dos olhos. Parei de respirar. Quase gritei-lhe que dissesse em voz alta que horas eram. Ele cerrou os olhos. Parecia não enxergar direito, só com o esquerdo. E o silêncio. Tudo em silêncio. Todos em silêncio. A expressão no rosto enrugado foi primeiro de preocupação (estaria atrasado também?), mas logo se abriu num sorriso quase infantil (teria descoberto que sobrava tempo?). Encaminhou-se para a porta, relógio ainda na mão, arrastando consigo o segredo eterno do instante marcado pelos ponteiros. Ninguém o impediria?

A porta se abriu. Ele saiu. Ela entrou. Com as duas, com xale xadrez. Viram-me. “Você, hein?!, sempre pontual!” O ponteiro dos minutos do relógio da parede começou a se mover. Ele largou a bengala e, saltitante, seguiu pelo calçadão.

 

(scs, 6212)

11 fev 2012