Monthly Archives: setembro 2010

Bosque

não havia na dor o adeus
só uma lembrança
um suspiro impensado
e no gesto apagado
não havia mais o sopro
nos cabelos molhados
somente do sonho
a sensação do fim
e a paisagem, o bosque
se desvanece e
fica o toque, a marca
dos dedos delicados
e os passos vão se afastando
sem pressa
levando consigo o aroma
a presença que não está.
sopra um vento suave nas folhas

(scs, 21710)

30 set 2010

A Emoção Fugitiva

Pablo Neruda

Vamos buscando a emoção
que não podemos encontrar
neste tédio sempre igual
que nos envolve o coração.

Enfermos deste eterno mal
que antes que nasça algum amor
alegrará com sua canção
esta amarga solidão,

o matará com sua dor
que soa como perpétuo
e lento toque de maldade
dentro do nosso coração.

Vamos buscando a emoção
que não podemos encontrar
e desejamos com ardor.

Pablo Neruda, in ‘Cadernos de Temuco’
Tradução de Albano Martins

(fonte)

16 set 2010

Viver

Carlos Drummond de Andrade

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projecto de abri-la
sem haver outro lado?

O projecto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

Carlos Drummond de Andrade, in ‘As Impurezas do Branco’

(fonte)

16 set 2010

Pelicano

Fernando Namora

Onda que vais morrendo em nova onda,
mar que vais morrendo noutro mar,
assim a minha vida se desprenda e do meu sumo
escorra a vida para as bocas que se finam
de desejar.

Ó dia que vais escoando como os rios
e empalideces rostos e cabelos,
traze a palavra para a incerteza
dos que vagueiam à deriva;
a bandeira amarela se rasgue
e dos farrapos se gere outra cor.

Ó dia correndo e findando,
some-te lá no cimo da fraga
mas deixa que no teu rasto fique o sangue
anunciando a esperança noutro dia.

Sê como a onda que morre para outra começar.

Fernando Namora, in “Mar de Sargaços”

(fonte)

16 set 2010

Escola

Nuno Júdice

O que significa o rio,
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?

O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?

O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?

A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;

e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.

A chave das coisas está
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.

Nuno Júdice, in “Meditação sobre Ruínas”

(fonte)

16 set 2010